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Manuel Alegre. “Almeida Santos foi um grande patriota, muitas vezes incompreendido”

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Luís Barra

O histórico socialista fala do amigo, desaparecido esta noite, como “um senhor, uma figura excecional a todos os títulos” e que deixa um “grande vazio”

Cristina Figueiredo

Cristina Figueiredo

Jornalista da secção Política

Ia ao ginásio todos os dias, durante 45 minutos. Tinha um grande cuidado com a alimentação. Esta segunda-feira, trabalhou toda a tarde (estava a ultimar uma coletânea de textos que escreveu durante a sua passagem por Moçambique, antes do 25 de Abril). Pouco depois de chegar a casa, ao final do dia, sentiu-se mal. O coração traiu António de Almeida Santos, a menos de um mês de completar 90 anos

O desaparecimento do presidente honorário do PS deixa consternado Manuel Alegre, seu grande amigo apesar de 10 anos mais novo. "Deixa um vazio. Preencheu muito tempo da nossa história e do nosso imaginário", comenta ao Expresso, confessando "não estar à espera" desta notícia.

"Almeida Santos não parecia ter a idade que tinha", recorda o histórico socialista, que ainda nas vésperas das legislativas de outubro desceu o Chiado (na tradicional arruada que encerra as campanhas eleitorais do PS emLisboa) de braço dado com ele, "sempre muito direito". "Era um senhor, um princípe da Renascença, uma figura excecional a todos os títulos".

Alegre sabe que "é impossível" de falar de Almeida Santos sem falar do seu papel na "luta pela liberdade e pela construção da democracia". Recorda-o como um verdadeiro "construtor de pontes, um homem de diálogo", com "grande sentido de camaradagem e de solidariedade". "Um grande patriota, muitas vezes incompreendido", acrescenta, referindo-se ao seu papel "fundamental " na descolonização, apesar de contestado por muitos. "Não foi Presidente da República porque não quis. Tinha tido condições para o ter sido. E grande".

"Sempre muito perto de Mário Soares, ajudou-o muito", recorda Alegre, que se lembra ainda dele como presidente da Assembleia da República, a rever todas as leis que passavam pela sua secretária por "rigor jurídico ou culto da língua. Fazia aquilo por escrúpulo e gosto".

Mas não é só a dimensão política de Almeida Santos que Alegre releva. "A sua dimensão cultural é menos conhecida, mas ele tem uma obra vastíssima", chama a atenção. "Alguns livros dele vão ser imprescindíveis para compreender a história recente do país", diz. Tinha a paixão pela escrita (ainda agora trabalhava 10, 11 ou 12 horas por dia a escrever ou a rever escritos), gostava de ler os clássicos, era uma grande cultor da língua, com um português muito rico. Era um homem "de grande cultura e grande preparação". Como já não se usa.