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Almeida Santos. O príncipe dos bastidores

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Luís Barra

Almeida Santos foi uma das figuras mais importantes da política do pós-25 de Abril. Jurista brilhante, ministro vezes sem conta e legislador omnipresente, nunca foi especialmente amado. Morreu um dos maiores protagonistas da política e o príncipe dos seus bastidores

Ricardo Costa

Ricardo Costa

Diretor de Informação da SIC

Para os mais novos acabará sempre por ser o político que cantava o fado de Coimbra. Esta terça-feira, todas as televisões vão passar essas imagens, escolhidas com facilidade nos arquivos. Há muito por onde escolher, sempre com o mesmo protagonista, um homem alto e de óculos, com uma boa figura e uma voz impressionante. Almeida Santos aprendeu o fado em Coimbra, enquanto estudava Direito. Aprendeu bem as duas coisas e encarnou para sempre a figura do estudante de leis de Coimbra, ágil no latim e no fado.

Mas Almeida Santos não foi apenas esse que as imagens de hoje, das televisões ou do YouTube, vão fazer circular pelas redes sociais. No Facebook, por exemplo, hoje vão aparecer milhares de textos de quem não gostava dele. Não é preciso ser sábio para calcular que muitos desses textos estarão ligados ao processo de descolonização e, sobretudo, ao seu papel e experiência em Moçambique, antes e depois do 25 de Abril.

Nesses anos dramáticos da vida portuguesa, em que um número impressionante de portugueses deixaram as ex-colónias e retornaram a Portugal, Almeida Santos era um dos políticos mais importantes no país. Era, para simplificar, a alma e o braço jurídico de Mário Soares. E se Soares foi (e é, para mim, sem qualquer dúvida) o político mais importante da segunda metade do século XX, também continua a ser uma pessoa mal-amada ou mal compreendida - depende da perspetiva - sobre tudo o que passou nesses anos em que Portugal passou da insustentável situação de ser o único país europeu com colónias ao que mais depressa se teve que desfazer desse legado de séculos. E se esse sentimento existe para muitos em relação a Mario Soares, imagine-se em relação a Almeida Santos.

Pôr os dois homens a par tem tanto de lógico como de errado. Lógico, porque as suas vidas políticas se confundiram durante décadas, porque a amizade e cumplicidade foi quase infinita e porque o seu empenho no Partido Socialista foi exemplar, nos altos e baixos da vida política. Mas errado, porque Soares foi sempre o campeão das ruas, o político sem medo de avançar e do instinto imediato, o Presidente-rei da popularidade imensa, Almeida Santos foi sempre o príncipe dos bastidores. Era um orador brilhante e isso notava-se sempre que falava no Parlamento, mas os bastidores eram o seu espaço vital.

Na única vez que liderou o PS, em 1985, exatamente quando Soares se retirou para tentar uma arriscada e quase impossível corrida a Belém, Almeida Santos percebeu o seu pouco valor eleitoral. Arriscou numa das mais célebres e absurdas campanhas políticas, com os cartazes do PS a estamparem um número: 43%. Nessas eleições de 1985, Almeida Santos e o PS resolveram pedir aos eleitores a maioria absoluta - daí a meta dos 43% -, mas mal passaram os 20%. Entalado entre um PRD em plena força e um PSD liderado por uma novidade política, Cavaco Silva, o PS entrou em crise profunda e Almeida Santos deixou a liderança, entregando-a a uma linhagem de antissoaristas: Vitor Constâncio, Jorge Sampaio e António Guterres.

Esse foi o pior momento da vida política de Almeida Santos, mas talvez um momento pelo qual tivesse que passar. Um momento em que percebeu que falar em Congressos ou comícios partidários não era a mesma coisa que pedir os votos aos portugueses. A popularidade e respeito que tinha (e nunca deixará de ter) no PS não era a mesma do país. A admiração dos pares da política não existia país fora.

O jurisconsulto recuou ao Parlamento, às leis e aos negócios, onde forjou todas as suas simpatias e inimizades. Conheci-o pessoalmente nesses anos, já em plena primeira maioria absoluta de Cavaco Silva, num estranho ambiente parlamentar em que o eixo do poder tinha passado em absoluto para o governo e a Assembleia da República estava reduzida em importância e poder. Ainda assim, era óbvio a um jornalista de 21 anos o peso que Almeida Santos tinha no Parlamento e o respeito que impunha, do PCP ao CDS.

Mesmo os deputados que não gostavam dele calavam-se quando falava ou sugeria uma alteração jurídica. Deputado em nove legislaturas seguidas, ministro de tudo e mais alguma coisa nos governos provisórios e seguintes, conhecedor absoluto das nossas leis, boas, más ou assim assim, estava muitas vezes para a legislação como hoje estão os informáticos nas empresas para os nossos computadores e programas complexos. Quando havia uma problema complexo, chamava-se o António Almeida Santos.

É claro que isso lhe deu fama, mas nem sempre boa. O Parlamento era um centro de poder no sentido absoluto do termo e ele tinha a chave do software. Se os corredores estavam cheios de aprendizes de feiticeiro, Almeida Santos era o feiticeiro, ponto final. Daí a ser o pára-raio de tudo o que corria nos bastidores era um passo.

Quem conhece a história de Roma sabe uma coisa: Almeida Santos assentaria lá como uma luva. Seria capaz de discursar horas a fio, entre cônsules, pró-cônsules, triunviratos e Césares, e de legislar no mais erudito latim. Estaria à vontade nos bastidores da República e do Império, como mais nenhum político português. E tinha voz de sobra para isso.