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Assunção Cristas, a mulher a quem colocam perguntas que não fazem aos homens

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Campiso Rocha

Até ver candidata única à liderança do CDS, Assunção Cristas assume-se uma mulher dos sete ofícios, que “gosta de política” e de comandar

Quando Paulo Portas anunciou a 28 de dezembro a intenção de abandonar a liderança do CDS, na lista de possíveis substitutos o nome de Assunção Cristas foi avançado pela generalidade dos media nacionais. Esta quinta-feira de tarde, Cristas confirmou na sua conta do Facebook estar na corrida ao lugar, uma decisão que só pode ter apanhado de surpresa os mais desprevenidos: em agosto de 2014, enquanto ministra da Agricultura e do Mar, durante uma viagem ao Japão para promover o país e os produtos nacionais, assumia, em declarações ao jornalista do Expresso Filipe Santos Costa, “estar na política para ficar”.

Nascida em Luanda a 28 de setembro de 1974, aos 41 anos o percurso político de Assunção pode ser ainda curto mas regista marcos de algum relevo. Licenciada em Direito na Universidade de Lisboa em 1997 e admitida na Ordem dos Advogados em 1999, foi assessora da ministra da Justiça do XV Governo (Celeste Cardona) em 2002 e assumiu a direcção do Gabinete de Política Legislativa e Planeamento em 2005. Militante do CDS desde 2007 e eleita deputada pelo círculo de Leiria dois anos mais tarde, em junho de 2011 integrou a equipa do seu partido nas negociações com o PSD com vista à formação de uma coligação de incidência parlamentar e à formação do primeiro Governo PSD/CDS.

Nessa equipa liderada por Pedro Passos Coelho, Assunção Cristas tornou-se ministra da Agricultura, do Mar, do Ambiente e do Ordenamento do Território, assumindo duas tutelas que estavam separadas no anterior Governo socialista. Nessas funções, tornou-se muito badalada a sua decisão de dispensar os funcionários de usar gravatas e diminuir a utilização dos sistemas de ar condicionado, com o objetivo de “minimizar o impacto ambiental associado ao consumo de energia elétrica na Administração Pública, tendo em conta as medidas de contenção de despesas” assumidas pelo Governo de então.

Alberto Frias

Outra decisão polémica por si tomada foi a extinção da Parque Expo, empresa gestora do Parque das Nações.

Na reorganização governamental que Passos Coelho foi obrigado a executar em julho de 2013, em consequência da demissão “irrevogável” de Paulo Portas que acabou por não ir avante, Cristas perdeu para Jorge Moreira da Silva a tutela do Ambiente e Ordenamento de Território, mantendo-se apenas ministra responsável pelos sectores da agricutura e do mar.

Casada e mãe de quatro filhos, para a história da política portuguesa o nome de Assunção Cristas ficará também registado como o da primeira mulher a estar grávida enquanto ministra. Com uma agenda carregada de eventos e deslocações, sempre foi muito comum os seus interlocutores fazerem-lhe esta pergunta quando abordava os assuntos mais familiares: “E quem está a tomar conta das crianças?” A resposta saía quase sempre igual: “O meu marido. E a minha mãe ajuda." A curiosidade sobre como concilia carreira e família é comum (“Irrita-me um bocadinho, pois pressupõe que essa é uma questão só das mulheres") e a questão sobre quem fica com os filhos é sintomática. “Acho que aos homens nunca fazem essa pergunta...”

Nada de novo. São poucas as mulheres que encontra como interlocutores, e Cristas tem a sua tese sobre o assunto. “Acho que as mulheres se realizam de formas muito mais diversificadas do que os homens, não têm tanto o foco no sucesso profissional. Até porque a sociedade é injusta em relação aos homens: faz uma grande pressão para que o foco seja o trabalho e não outras dimensões, como a familiar."

E o foco de Assunção Cristas, é qual? Na conversa com o jornalista do Expresso na viagem ao Japão atrás referida, respondeu assim: “O meu? É conjugar tudo”. Uma experiência a ter em conta agora que se prepara para assumir, como tudo indica, a liderança dos centristas.

Recuperemos outro extrato da mesma reportagem: sim, “sinto que estou na política para ficar. Todas as coisas têm princípio, meio e fim, mas saber quando é esse fim é coisa que não me angustia”. Serena e decidida prosseguiu: “Nunca me preocupei com o que iria acontecer a seguir.” Mesmo que seja a possibilidade de liderar o CDS? “O que tiver de ser, a seu tempo será.” Pode parecer uma resposta chapa cinco, mas com a vantagem de Cristas não fingir enfado nem vir com aquelas juras postiças de nunca, jamais, em tempo algum.

“Ah, não! Nunca digo dessa água não beberei, não é a minha maneira de estar na vida. Mas não antecipo cenários.” Até admite que gosta de liderar, mas “isso não significa ser líder de um partido”. Pois não. Mas é evidente que gosta de liderar. E agora, como tudo indica, a presidência do CDS parece estar destinada.