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Um debate no divã: acusar muito, sorrindo ainda mais

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José Sena Goulão/Lusa

Marcelo e Maria de Belém sorriram muito, mesmo quando se atacavam, mas no fim quem teve razões para sorrir foi António Costa, levado ao colo pelos dois candidatos

Filipe Santos Costa

Filipe Santos Costa

Jornalista da secção Política

Se houver um sorrisómetro, comprovará certamente que o debate entre Maria de Belém e Marcelo Rebelo de Sousa este sexta-feira na RTP foi aquele em que os dois oponentes mais sorriram, com o sorriso mais arreganhado e ao longo de mais tempo. Se houver um acusómetro dirá, provavelmente, que este foi o debate em que os candidatos trocaram mais acusações de caráter pessoal. Sempre a sorrir, claro.

Marcelo até começou, como noutros debates, tentando fugir ao confronto, chegando ao ponto de dizer que não vê adversários “em nenhum dos candidatos” que se apresentaram a estas eleições, mas Belém foi direta ao ataque. Abriu as hostilidades, sorridente, acusando Marcelo de incoerência, de “dizer uma coisa e logo a seguir outra completamente diferente”, e recuperou a expressão “catavento político”, em tempos usada por Passos Coelho, dizendo que “são estas as caraterísticas que lhe conhecemos”.

Marcelo respondeu com achas na fogueira: acrescentou acusações que Belém lhe fez noutras alturas e que causaram “surpresa” por revelarem “um lado de psicólogo” que o professor de direito não conhecia à antiga deputada. Belém chamou-lhe em tempos “hiperativo” e Marcelo lembrou que essa é uma doença mental, “portanto eu seria um doente mental, segundo a dra. Maria de Belém”, concluiu. E ainda lembrou que Belém o acusou de “dormir pouco”. “Veja-se ao que chegou o debate presidencial. Qual é a relevância das minhas horas de sono?”, perguntou. Belém defendeu-se explicando que não diz isso, mas isso é “o que dizem” de Marcelo - “Ah, não diz? Reproduz?”, ironizou o candidato, sorrindo. Estava o caldo entornado.

Ao longo da meia hora de Marcelo acusou a adversária de “criar intriga política”, de “mentir sistematicamente fingindo que não mente”, de se comportar com “malícia”. Belém acusou o rival de “sistematicamente” “distorcer os factos”, devolveu a acusação sobre ser “maliciosa” (“Se há pessoa maliciosa… vou ali e já venho”), devolveu o epíteto de intriguista (“Intriguista nunca fui, se perguntar aos portugueses, eu não sou o campeão dessa coisa”).

A luta fez-se muito sobre o passado - Marcelo lembrou que apesar da “hiperatividade” viabilizou por três anos o governo minoritário de Guterres onde Belém era ministra; Belém desenterrou o episódio em que Marcelo chamou, numa piada publicada no Expresso “lélé da cuca” a Francisco Pinto Balsemão.

O objetivo de um e de outro eram óbvios: Belém queria sublinhar que Marcelo não é de confiança - para além do passado remoto, invocou a forma como Marcelo se tenta demarcar do PSD e do CDS e as muito repisadas contradições enquanto comentador (ainda assim, admitiu que esses momentos televisivos eram “uma altura agradável do dia”). Levava um dos soundbites da noite, parafaseando a frase de Hamlet: “Não é uma questão de ser ou não ser, é ser e não ser”.

Marcelo, por seu lado, quis demonstrar que Belém não é de confiar - não largou a questão do PS não apoiar a sua ex-presidente: “não consegue unir o partido dela e quer unir o país? Lança uma candidatura quando o líder do seu partido está a dar uma entrevista importantíssima, cria factos políticos e diz que não intriga?”

E algo mais do que acusações? Houve pouco. Por várias vezes Marcelo se queixou de que “ainda não falámos do futuro”, mas o passado e a luta na lama chamavam mais alto. Mas sim, houve política para além das acusações recíprocas e do divâ quase freudiano. E, nesses momentos, quem teve motivos para sorrir foi António Costa.

Por exemplo, quando o moderador, João Adelino Faria, perguntou o que farão os dois eventuais Presidentes da República se o Governo falhar os compromissos europeus. “Estou convencido de que vai cumprir os compromissos assumidos com Bruxelas”, afirmou Marcelo. E foi mais longe: considerou que “é o papel do PR”, para “que este Governo perdure, por razões de estabilidade”, “ajudar o Governo a cumprir esses objetivos”. “Tudo farei” para isso, prometeu. E mais ainda: “Se isso não for possível, não é por isso que se dissolve o Parlamento”.

Maria de Belém mostrou ter a mesma convicção sobre a capacidade do Governo de António Costa cumprir os compromissos europeus, mas não foi tão enfática nessa convicção como Marcelo. Compensou, porém, quando usou mais vezes do que Marcelo a palavra “legitimidade” para classificar a atual solução governativa.

Apesar da profissão de fé no Governo de Costa, e talvez para não desagradar totalmente ao seu eleitorado natural, Marcelo referiu-se com pinças ao legado do anterior governo. E teve de usar de toda a sua agilidade retórica para não atribuir ao Governo PSD-CDS a responsabilidade pela “divisão social” que identifica no país. “Atribuo à crise, e as crises penalizam os governos”. Mas lá concedeu que algumas medidas de Passos “aprofundaram” essa crise.

Enquanto Marcelo tentava piscar o olho à direita e sem deixar fugir a esquerda, Belém fazia o contrário. A candidata fez equilibrismo numa pergunta sobre se a sua condição de católica condicionará a sua atuação como chefe do Estado. Ao mesmo tempo, enfatizou o papel da economia social e reivindicou para si “apoiantes que são à direita, porque sabem que podem contar comigo, coisa que ouvimos dizer que não é verdade em relação ao candidato Marcelo Rebelo de Sousa…”

“Está a ver, nunca diz, diz que os outros dizem de mim!”, protestou Marcelo.

… e voltaram outra vez ao mesmo. Sempre sorrindo. Sorrindo muito.