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Guterres, tal como o PS, não apoia ninguém na 1ª volta das presidenciais

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DENIS BALIBOUSE/ Reuters

Após dez anos de liderança do ACNUR, António Guterres faz um balanço positivo e defende que se a Europa “se organizasse” conseguiria lidar “com relativa facilidade com a crise de refugiados”. Em entrevista à RTP3, o antigo primeiro-ministro reafirmou que a a sua vida política em Portugal “é um capitulo encerrado”

António Guterres não tem intenção de se pronunciar sobre o candidato que apoia nas presidenciais deste ano, antes do PS dar indicação sobre qual será o ‘seu’ candidato. “Não quero criar problemas adicionais ao meu o partido”, justificou na noite desta quarta-feira na “Grande Entrevista”, transmitida pela RTP3. Só saberemos ao lado de quem está Guterres no dia em que o Partido Socialista se pronunciar.
“Não tenho nenhuma intenção de apoiar nenhum candidato sem o meu partido se pronunciar. Tudo dependerá daquilo que o PS fizer. Tenho a obrigação de não criar problemas nem gerar atenções para mim”, afirmou.

Por algum tempo, especulou-se sobre a possibilidade de Guterres se candidatar à Presidência da República, no entanto, este garante que é cargo com que não se identifica nem tem a ver com a sua “forma de estar no mundo”. “Acho que o Presidente da República é um arbitro e o que eu gosto mesmo é de jogar à bola”, justificou.

“Não tenho qualquer intenção à de voltar vida política portuguesa, esse capitulo que está encerrado. Foi uma fase muito importante da minha vida... Normalmente não se deve voltar atrás, há que andar sempre para a frente”, acrescentou o antigo primeiro-ministro, que defendeu ainda que a solução de Governo encontrada à esquerda é “perfeitamente legitima e constitucional”.

ntónio Guterres sublinhou ainda o valor dos portugueses, destacando a “grande capacidade de resolver problemas”. “Somos um povo extraordinário mas que ainda não conseguiu encontrar a melhor forma de se organizar internamente e dentro desse quadro”, considerou.

Dez anos à frente do ACNUR

No final de dezembro, António Guterres deixou para trás dez anos de liderança do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados. Foi um período que considerou “privilegiado” e em que “não podia ser um homem de gabinete”.

“É uma experiencia que nos obriga muito a estar no terreno. O mais importante é criar as condições para uma ação efetiva no terreno e depois arranjar soluções. Em cada ano ajudamos 100 mil pessoas a sair de campos de refugiados e de outras situações e os trouxemos para países desenvolvidos. Sei que é uma gota de água no oceano”, disse.

A crise dos refugiados é um problema crescente nos últimos anos, mas Guterres frisa que só há pouco tempo chamou à atenção dos países desenvolvidos: “Os ricos só se dão conta dos pobres quando estes lhes entram em casa”. E lembrou que em dez das 11 reuniões da ONU em que participou teve dificuldade que o ouvissem. Em 2015, foi completamente diferente, tendo andado “numa correia por todo lado”.

“Até à primavera/verão do ano passado, o mundo não ligou muito à parte humanitária. O que aconteceu foi que os refugiados pela primeira vez vieram em número significado para o norte global”.

Para António Guterres, se a Europa se tivesse organizado conseguiria lidar com a crise de refugiados com “relativa facilidade”. “A falta de organização da Europa favoreceu este movimento caótico. (…) Sempre fui um europeísta convicto. Acho que a Europa não tem futuro se não tiver unida”.

Os atentados de Paris, referiu Guterres, geraram “o pânico”. No entanto, considera que em casos como este “é necessário reconhecer que o problema do terrorista cresceu em casa”, devido às comunidades que foram mal integradas na Europa.

“A Europa é uma comunidade multiétnica, multicultural e multirreligiosa e tem que compreender isso. Ser um continente multiétnico, multicultural e multirreligioso é bom, mas requer um investimento, que muitas vezes não existiu”, disse.