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Portas deixa a liderança do CDS

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Luís Barra

É oficial: Paulo Portas não continua à frente do CDS. O anúncio foi feito esta segunda-feira na comissão política. Aos fim de quase 16 anos como presidente do CDS, Portas está de saída e deverá deixar também o Parlamento. Sucessor será eleito em abril

Filipe Santos Costa

Filipe Santos Costa

Jornalista da secção Política

Paulo Portas não se vai recandidatar à liderança do CDS no próximo congresso do partido. A decisão é definitiva, sendo comunicada esta segunda-feira aos dirigentes do partido numa reunião da comissão política que serve para preparar o próximo congresso. Conforme o Expresso noticiou em primeira mão, Portas anunciou, há duas semanas, num Conselho Nacional, que esse será um congresso “muito importante na história do partido e muito importante para o futuro do partido” - na altura, não revelou se seria ou não candidato a mais um mandato, facto que deixou de pé atrás alguns dos barões do partido. Confirma-se agora que tinham razões para isso.

Entre domingo e esta segunda-feira, Portas falou com alguns dos principais dirigentes centristas para os preparar para a notícia. Apesar dos apelos para que continuasse, manteve-se irredutível. Ao que o Expresso apurou, Paulo Portas fez questão de sublinhar que esta decisão “não é um intervalo”, mas “um ponto final” na sua vida de presidente de CDS. “Ao fim de quase 16 anos não me podem pedir mais”, explicou o homem que preside ao CDS desde 1998 (tendo interrompido essas funções por dois anos, entre 2005 e 2007).

“Liberdade para mudar de vida”

Portas considera que o tempo que já leva de liderança partidária é bastante longo - prolongá-lo agora provavelmente significaria ficar à frente do partido não apenas mais dois anos (que é o tempo de cada mandato), mas bem mais do que isso: seria cumprir um novo ciclo de oposição e, expectavelmente, de governo. Ou seja, mais cinco ou seis anos - no fim desse ciclo, Portas já levaria para cima de vinte anos de liderança, sem contar que estaria à beira dos 60 anos de idade. E seria tarde de mais para fazer outra coisa na vida.

Ao que o Expresso apurou, Portas tem repetido, por estes dias, uma frase que disse várias vezes nos últimos anos - até em entrevistas - quando era confrontado com o seu futuro: “a medida da nossa liberdade é a capacidade que temos de, ao longo da vida, mudar de vida, fechando etapas e seguindo em frente”. Foi essa uma das explicações que deu agora.

Novo ciclo político, nova geração

Mas as razões de Portas não ficaram no plano pessoal. Foram sobretudo de caráter político. Depois da vitória da coligação nas eleições e do derrube do segundo Governo PSD-CDS no Parlamento, Portas considera que “o ciclo político mudou” e, por isso, ganhará o partido que primeiro for capaz de se adaptar às novas circunstâncias. Depois da “geringonça” inventada por António Costa, fica claro que o centro-direita só poderá voltar ao poder se a soma dos votos do PSD e do CDS der maioria absoluta - o que, na perspetiva de Portas, acaba por libertar o voto, contrariando o voto útil. Se o importante é a soma dos dois partidos, cada um deve pedalar a sua bicicleta. Neste novo quadro, Portas defende que o CDS deve ser o primeiro a renovar-se.

“O CDS sempre soube dar o salto em frente nos momentos necessários e eu devo facilitar isso”, diz Portas - uma frase, aliás, muito parecida com outra que disse no Conselho Nacional de há duas semanas, e que alguns ouviram como um prenúncio desta saída.

A renovação, essa, Portas dá como garantida e bem sucedida. “Tenho muita confiança na próxima geração do CDS”, diz o líder cessante, lembrando que foi ele a promover o surgimento de novos rostos, a quem deu espaço tanto no partido como no governo. “Chegou a hora da nova geração” é a frase que parece o seu mantra para os próximos meses. Aliás, conforme o Expresso noticiou na sua última edição em papel, essa nova geração vai assumir o protagonismo nos próximos debates quinzenais com o primeiro-ministro. Portas ficará calado e dará o palco a Pedro Mota Soares, Assunção Cristas e João Almeida - apontados como três dos principais nomes para uma futura liderança - e ainda a Nuno Magalhães, Cecília Meireles e Telmo Correia.

Na bolsa de apostas para a sucessão de Paulo Portas, só um nome bate todos os outros, e esse não está em São Bento: o eurodeputado Nuno Melo, primeiro vice-presidente do CDS, que é de longe o dirigente mais popular do partido a seguir a Portas.

Fora do Parlamento

A saída da direção significa igualmente que Portas acabará por deixar o Parlamento, apurou o Expresso. O líder cessante considera que deve ser dado todo o espaço ao novo líder - ficar em São Bento seria sempre um fator de perturbação. Foi isso que aconteceu em 2005, quando Portas deixou a presidência do partido mas ficou como deputado. A sua presença quotidiana no Parlamento, onde estava a resistência interna a Castro, foi uma das maiores sombras a pesar sobre essa liderança, que acabou por cair ao fim de dois anos, quando Portas decidiu retomar a chefia do partido.

Aliás, a determinação em sair de cena terá sido a principal razão para o CDS não indicar Portas como seu representante no Conselho de Estado, na eleição realizada recentemente na Assembleia da República. Para além de querer fazer um gesto de reconhecimento a Adriano Moreira, dando-lhe esse cargo senatorial, Portas queria evitar qualquer cargo que o mantenha no palco político nos próximos anos.

  • “Paulo Portas revela uma grande maturidade política”

    Filipe Anacoreta Correia sublinha que “a noção de saber sair” é “muito rara na política”. Questionado sobre uma possível candidatura à liderança do CDS, o membro do conselho nacional do partido, deixa tudo em aberto: “É cedo" para falar no assunto