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Salvar o Banif é salvar a Madeira?

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D.R.

Sem a intervenção do Estado, 80% das famílias madeirenses seriam afetadas pela crise do Banif - com consequências semelhantes ao colapso das casas bancárias nos anos 30

Marta Caires

Jornalista

Os tempos são outros, existem outras garantias, mas, desde a notícia da TVI sobre o fim do Banif, que paira sobre a economia madeirense o espectro da falência das casas bancárias nos anos 30 do século passado. Sem uma intervenção do Estado, as consequências seriam semelhantes: mais falências, mais desemprego e anos de penúria. Na análise coincidem economistas, gestores e o Governo Regional.

Miguel Albuquerque deu indicações aos deputados do PSD-Madeira na Assembleia da República para viabilizar o Orçamento Rectificativo e o presidente do Governo Regional foi o primeiro a dizer que se deveria evitar o colapso do banco, “era o pior que podia acontecer”. A mesma ideia é partilhada por David Caldeira, empresário e gestor hoteleiro. “A minha estimativa é que o fim do Banif afectaria 80% das famílias madeirenses. E, nesse caso, estaríamos de facto perante uma situação muito parecida ao que aconteceu nos anos 30”.

O empresário entende até que a venda ao Santander terá consequências negativas para a Madeira. “O Banif era um banco de proximidade. O gerente conhecia o pequeno comerciante, sabia quem era, que era trabalhador e que pagava o empréstimo, mesmo que a contabilidade não fosse muito organizada. O Santander é o quarto maior banco do mundo, tem regras objectivas e iguais para todos os clientes. De certa maneira, os pequenos negócios perderam já o seu financiador, o banco a quem recorriam para pequenos investimentos”.

Embora o quadro tenha mudado, não se pode comparar aos impactos que teria o encerramento do banco. A intervenção do Estado tem custos pesados para os contribuintes, mas salvaguarda os depositantes e, para já, os postos de trabalho. Sem isso, a Madeira poderia voltar a viver uma situação como a que se seguiu à falência da Casa Bancária Henrique Figueira da Silva, nos anos 30. Em depósitos, esta casa fundada por um emigrante era o terceiro maior banco português. “A miséria que se seguiu levou décadas a passar e atravessou gerações”, sublinha David Caldeira.

O colapso das casas bancárias

João Abel de Freitas, economista e autor do livro “Salazar na crise da banca madeirense”, explica que a conjuntura de hoje é diferente da dos anos 30. “Nos anos 30, não existiam garantias para os depositantes. Muitos ficaram sem nada, outros conseguiram algum dinheiro ao fim de 15 ou 16 anos. A origem dos problemas também era outra. Havia má gestão, incompetência e pouco profissionalismo, mas podemos encontrar alguns paralelismos entre a crise de hoje e o que se viveu na altura”.

A crise na banca da praça financeira do Funchal começou com o 'crash' da Bolsa de Nova Iorque em 1929. Os Estados Unidos eram o principal importador dos vimes, bordados e vinho, os produtos regionais que garantiam a entrada de divisas e tornavam a praça do Funchal apelativa para os bancos. A diminuição das exportações teve efeitos imediatos num mercado onde operavam uma dúzia de casas bancárias regionais a par das dependências dos bancos nacionais.

As primeiras informações de que nem tudo estava bem começaram a circular em 1930, mas foi uma campanha num jornal que acabou por conduzir ao encerramento de várias casas bancárias do Funchal, entre elas, a maior, a Casa Figueira. A 19 de Novembro 1930, depois de uma corrida aos levantamentos e de manifestações à porta, a casa cessou os pagamentos. O mesmo fizeram várias outras, deixando a economia madeirense em maus lençóis.

O Estado demorou a intervir e, quando se decidiu por uma reconstrução da banca madeirense, optou por deixar de fora a maior casa bancária, onde estava as poupanças dos emigrantes e as grandes fortunas feitas em Demerara, na antiga Guiana Britânica. “O fundador do banco tinha sido também emigrante em Demerara e criara uma relação de confiança com os clientes. Além do banco, tinha negócios de açúcar, de moagens e garantia muitos postos de trabalho. No entanto, por decisão política de Salazar, a casa com mais depositantes fica de fora da reconstrução. É por isso que digo que o Salazar foi o coveiro da banca madeirense”, lembra João Abel de Freitas.

A falência do banco levou por arrasto os outros negócios do grupo, que foram vendidos em hasta pública a preços irrisórios e abriu caminho a uma década de revoltas na Madeira. Em 1931, deu-se a revolta da farinha, depois o levantamento militar da Revolta da Madeira. Os mais de nove mil depositantes da Casa Figueira perderam o dinheiro no imediato, alguns acabaram por receber ao fim de 15 anos. Este foi o tempo que demorou o processo de liquidação da mais importante casa bancária da Madeira.

Entre os bancos madeirenses que sobreviveram à crise dos anos 30, estava a Caixa Económica do Funchal, que manteve as portas abertas e nome até 1988. Ano em que, após a compra pelo empresário Horácio Roque, se transformou no Banco Internacional do Funchal. Tal como a Casa Figueira captou as pequenas poupanças e as fortunas dos emigrantes, tendo escritórios na África do Sul e na Venezuela.