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PCP segura Costa sempre que for preciso

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José Caria

Acordos à esquerda entram na fase da geometria variável: PCP, BE e PEV já descolaram do PS, aproveitando boleia da direita

Esta semana, o PCP deixou claro como será o seu modus operandi naquilo a que chama de “nova fase na vida política nacional”. Os comunistas vão apresentar sempre propostas próprias — e mais radicais — para “repor por inteiro os direitos dos trabalhadores e do povo”, seja em matéria de salários, pensões, impostos ou valores sociais. Mas, na hora da votação final, alinharão com os socialistas para viabilizar as suas propostas e não deixar o Governo em maus lençóis.

Marcar a distância, primeiro. Aproximar-se, depois. A meta é “reverter as políticas da direita” e “repor os rendimentos dos trabalhadores e do povo”, disse ao Expresso um alto dirigente comunista. Como se atinge essa meta, faz parte de uma geometria variável. “Nunca deixaremos de votar favoravelmente qualquer matéria que corresponda a esses objetivos”, acrescentou.

Já esta semana, a nova ‘receita’ comunista foi testada no Parlamento, com a aprovação da devolução dos cortes salariais da função pública e da sobretaxa do IRS, ou ainda com a reversão da Contribuição Extraordinária de Solidariedade. Em todos os casos, a bancada do PCP apresentou propostas autónomas que, mesmo com os votos do Bloco e dos Verdes, acabariam chumbadas. No caso dos salários e da sobretaxa, os comunistas, tal como as restantes bancadas da esquerda, acabariam a votar o projeto socialista, que ficava muito aquém da reposição integral dos vencimentos já a partir de janeiro defendida pelo PCP. Não sem antes João Oliveira deixar claro e para memória futura que a sua bancada “não poupou esforços” e “tudo fez para que fossem repostos por inteiro” os salários da Administração Pública. No entanto, e “não esquecendo os compromissos que assume”, os comunistas acabaram por aceitar a solução acordada entre Bloco e PS: os cortes serão devolvidos trimestralmente e a sobretaxa reduzida a partir de janeiro em função dos escalões de rendimentos do IRS.

Já na CES, a geometria política da esquerda variou: com os votos garantidos das bancadas do PSD e do CDS à proposta socialista (que, aliás, coincidia com a que foi apresentada pela direita e chumbada pela esquerda em novembro), comunistas, bloquistas e Verdes ficaram livres para votar contra. E assim fizeram. Descolando-se pela primeira vez do PS e justificando que “este não é um Governo do BE”, como disse Joana Mortágua, ou que “não ignoramos as diferenças com as propostas do PS”.

Comité central avaliza

A estratégia dos comunistas tem o aval unânime do Comité Central que, no último domingo, se reuniu pela primeira vez depois do ‘acordo’ com o PS. O órgão máximo do PCP fez o enquadramento político da “nova fase da vida política nacional” aberta com a chegada ao poder do Governo de António Costa e, se bem que faça questão de sublinhar as “reconhecidas limitações e alcance” do entendimento alcançado, dá luz verde para que o partido segure as iniciativas do novo Executivo.

O PCP rendeu-se ao pragmatismo, optando por recolher alguns ganhos em vez de lutar por ganhar tudo de uma vez. Ou, como prefere dizer o comité central: “A possibilidade agora aberta de dar passos, limitados mas nem por isso pouco importantes, não pode nem deve ser desperdiçada”.