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Política

“Na altura devida perceberei o que António Costa tenciona fazer”

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Marcos Borga

Entrevista a Marcelo Rebelo de Sousa, candidato presidencial

Ângela Silva

Ângela Silva

Texto

Jornalista

Bernardo Ferrão

Bernardo Ferrão

Texto

Subdiretor da SIC

O Presidente da República “não deve ter estados de alma” sobre a solução de governo encontrada por António Costa. Marcelo julga “conhecer bem” o novo primeiro-ministro e espera perceber rapidamente se ele projeta durar quatro anos ou apear a esquerda quando lhe interessar. O candidato não terá comissão de honra, porque “não há portugueses de honra e outros de desonra”.

Foi totalmente surpreendido por esta solução de governo à esquerda, ou percebeu sinais que muita gente não viu e antecipou o que António Costa ia fazer?
Se eu fosse comentador tinha uma resposta ótima, mas como sou candidato presidencial não tenho resposta nenhuma.

Este desfecho foi injusto para Passos Coelho? Acha que ele merecia uma 2ª legislatura?
Sabe, essa é a decisão dos eleitores. Eu agora não sou comentador político, sou candidato presidencial e dentro de poucas semanas tenho de falar com todos os partidos.

Na sua opinião, o que aconteceu foi um golpe, como diz a direita, ou foi competência política de António Costa?
Se fizesse um juízo sobre isso tornaria logo à cabeça impossível ter capacidade de intervenção num processo em que acho necessário introduzir mais razão e menos emoção.

Acha que esta solução oferece condições de estabilidade no futuro?
Esta é a solução que existe. E o PR que vai entrar em funções com ela não tem de ter estados de alma. Deve resistir a isso, prosseguir o interesse nacional e não deixar que as questões de afinidade se sobreponham ao interesse nacional.

Não teme com tanta neutralidade perder votos na sua área política?
Tudo na vida tem um preço. É um risco, mas eu sou como sou e foi assim que lancei a candidatura. Uma coisa é o que a família política sente, outra o que é inevitável que aconteça. Eu percebo o que sentem, porque este somatório de factos é muito penalizador em termos psicológicos. Mas a política tem estas coisas. É o que se chama a frustração relativa, o contraste entre as expectativas e a realidade.

Passos e Portas vão ter direito a aparecer na sua campanha?
Vou dizer-lhe como vejo os tempos que se avizinham. Entrei agora numa nova fase que é de contacto com a comunicação social. Vai durar até ao verão... (ri-se). Até ao verão era o que eu gostava que fosse, vai durar até ao Natal. A primeira campanha presidencial foi no verão. Depois entraremos na fase dos debates e eu quero debater com todos. Não sei como é que se distingue candidatos de primeira e de segunda. E isso vai preencher do princípio do ano até ao início da campanha eleitoral.

Prefere que Passos e Portas não apareçam?
É uma questão que vou ponderar. Ainda há os tempos de antena... (ri-se)

Está a deixá-los para os tempos de antena, é isso?
Não, eu estou a não responder à sua pergunta. Porque nesta altura seria deslocado fazê-lo.

Faz sentido quem o considerou um cata-vento mediático vir agora apoiá-lo?
Não espera que eu responda a essa pergunta, que teria de ser colocada a outras pessoas que não a mim. Eu limito-me a dizer o seguinte: não pedi nem peço nenhum tipo de apoio, mas aceito e agradeço os apoios que existam e que não me vinculam a nada.

Ir ao Congresso do PSD e mostrar que tinha o partido aos pés foi decisivo para se afirmar como candidato?
Olhando para trás não sei se isso foi assim tão significativo. O processo de decisão é muito curto, na verdade iniciou-se no dia 4 e durou quatro dias. São quatro dias em que eu pondero se tenho ou não o dever de consciência de ser candidato e sinto que não posso faltar à chamada. Se as circunstâncias do país fossem outras, o meu dever era menor. Mas considerando eu que era o melhor para exercer a função presidencial no quadro existente, ficaria sempre com um enorme peso na consciência.

Conhece bem António Costa. Ele tranquiliza-o?
Conheço-o de quando foi meu aluno, aqui na Faculdade. Depois, ao longo da sua atividade política. Penso que o conheço relativamente bem. Ponto final, parágrafo.

Já percebeu qual é o plano dele? Governar quatro anos ou na altura que lhe convier mais apear uma esquerda que no fundo diverge dele em questões essenciais?
Na altura devida perceberei exatamente o que ele tenciona fazer. Para já, tomo por boas as declarações que faz quando se diz convencido de que pode durar a legislatura.

O Marcelo da intriga não é uma ameaça para o país?
Eu tenho uma opinião sobre mim mesmo muito diferente da que está implícita na pergunta. Em primeiro lugar, ninguém consegue ter o grau de confiabilidade que eu mantive mesmo como comentador. As pessoas podiam não concordar, mas ouviam-me com respeito. Segundo, eu sou a pessoa mais consistente que se pode imaginar. Olha-se para o que eu era na juventude e está lá tudo. Além disso, as pessoas que me elogiavam, que me convidavam para lançar livros, me achavam a quinta-essência e o suprassumo, agora para efeitos de campanha é que acham que é coisa pouca? Acho que um dia ainda se prestará a justiça devida a alguém que conseguiu explicar aos portugueses coisas complicadas de uma forma simples.

Sente-se a prova de que Emídio Rangel tinha razão e a TV tanto vende sabonetes como Presidentes da República?
Toda a gente chega onde chega por causa da vida que teve antes. Eu levo esta vida há 50 anos e não me vão dizer que quando comecei a fazer isto já estava a pensar ser candidato a PR.

Quando é que monta a estrutura de campanha?
O mais tarde possível. Esta campanha foi pensada para ser inorgânica.

Mas já escolheu para diretor de campanha um ex-líder da JSD.
Ainda não há direção de campanha.

Vai ter uma comissão de honra?
Não, de honra são todos os portugueses. Tenho dificuldade em distinguir cidadãos de primeira e de segunda, uns são de honra e outros de desonra, comigo isso não dá.

Mas vai ter mandatário nacional?
Vai haver mandatário nacional. No que já foi uma cedência muito apreciável ao clássico.