Siga-nos

Perfil

Expresso

Política

Morreu Eugénia Cunhal

  • 333

Ana Baião

Irmã mais nova do líder histórico do PCP morreu esta quinta-feira em Lisboa. Tinha 88 anos e era militante comunista. A última vez que surgiu em público foi no lançamento da candidatura de Edgar Silva à Presidência da República

"No fundo, acho que sempre fui comunista, desde que tenho cabeça para pensar. A minha opção foi tomada muito cedo, sem dúvida nenhuma." É com esta frase, dita por Maria Eugénia Cunhal, que o secretariado do Comité Central do PCP dá nota "com profunda mágoa e tristeza" do falecimento da irmã mais nova de Álvaro Cunhal.

Nascida em Lisboa a 17 de janeiro de 1927, foi professora de inglês, tradutora, jornalista e escritora. Tem cinco livros publicados e são delas as primeiras traduções dos contos de Tchekov para português. Continuava a dedicar-se à atividade partidária, integrando o Sector Intelectual-Artes e Letras da Organização Regional de Lisboa do PC. A última vez que participou numa cerimónia pública foi por ocasião do lançamento da candidatura presidencial de Edgar Silva.

A direção comunista destaca "uma vida dedicada à luta contra o fascismo, pela liberdade, contra a exploração capitalista, pela democracia, pela paz, o socialismo e o comunismo" e recorda a sua ligação ao irmão, Álvaro Cunhal, de quem era 14 anos mais nova. "Com apenas dez anos" Eugénia visitava o histórico líder do PCP na prisão e "foi várias vezes detida para interrogatórios, quando o seu irmão Álvaro Cunhal se encontrava na clandestinidade", recorda a direcção comunista.

A única entrevista televisiva de Eugénia Cunhal foi dada à RTP 1, em 2005, à jornalista Judite de Sousa. Mais tarde, colaboraria no livro sobre a vida de Alvaro Cunhal, da mesma jornalista e intitulado "Álvaro, Eugénia e Ana", que pretendia revelar "o homem por detrás do político"

O corpo de Eugénia Cunhal estará em câmara ardente na Sociedade de Instrução e Beneficência "A Voz do Operário", em Lisboa, a partir das 11h desta sexta-feira. O funeral sairá às 11h de sábado, para o cemitério do Alto de São João e a cremação será as 12h.

Em memória de Eugénia Cunhal, aqui ficam dois dos seus poemas que ajudam a defini-la. Pela sua própria pena.

QUANDO VIERES

Encontrarás tudo como quando partiste.

A mãe bordará a um canto da sala...

Apenas os cabelos mais brancos

E o olhar mais cansado.

O pai fumará o cigarro depois do jantar

E lerá o jornal.

Quando vieres

Só não encontrarás aquela menina de saias curtas

E cabelos entrançados

Que deixaste um dia.

Mas os meus filhos brincarão nos teus joelhos

Como se te tivessem sempre conhecido.

Quando vieres

nenhum de nós dirá nada

mas a mãe largará o bordado

o pai largará o jornal

as crianças os brinquedos

e abriremos para ti os nossos corações.

Pois quando tu vieres

Não és só tu que vens

É todo um mundo novo que despontará lá fora

Quando vieres.

In «Silêncio de Vidro»

Editorial Escritor

BASTASTE TU

Bastou aquele gesto

Da tua mão tocar tão docemente a minha

Pra nascerem raízes

Que me prendem à terra e me alimentam

Nas horas mais vazias

Bastou aquele olhar

- O teu olhar tão brando, prolongando-se um pouco sobre o meu-

Para iluminar as noites em que a lua se esconde

E a escuridão envolve um mundo sem sentido.

Bastou esse teu jeito de sorrir,

Um sorriso em que vejo despontar a confiança

Na vida não vivida, nas emoções ainda não sentidas,

Nos passos que ressoam noutros passos

Bastaste tu.

In «Silêncio de Vidro»

Editorial Escritor