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Cavaco Silva prepara as suas memórias

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Alex Gozblau

Tal como fez no passado, em que reuniu em dois volumes a sua experiência de vida e de Governo, Cavaco começou a passar ao papel as suas memórias enquanto chefe do Estado. O Presidente quer falar para a História

Luísa Meireles

Luísa Meireles

Redatora Principal

Cavaco Silva está já a preparar as suas memórias presidenciais e há mesmo quem arrisque que poderão estar prontas rapidamente, até ao final do próximo ano. O trabalho preparatório das memórias vai sendo feito a cada momento. Meticuloso como é, o Presidente faz anotações de cada reunião que realiza, junta e organiza os documentos e pede os que considera necessários. E arquiva.

O Expresso já foi até testemunha de como esse ‘arquivo’ pessoal é eficiente. Quando, em setembro de 2014, num texto sobre os problemas no Grupo Espírito Santo, foi pedido um esclarecimento à Presidência da República, foi-lhe citada uma anotação pessoal de Cavaco Silva sobre o objetivo da reunião que estava em causa. Tal encontro havia-se realizado há mais de um ano.

Numa outra vez, em novembro de 2014, abordou expressamente o tema: quando perguntado sobre as razões e o desfecho da chamada “crise de julho de 2013”, quando o Presidente da República tentou uma solução negociada entre a coligação e o PS, que se frustrou, disse: “Um dia hei de contar na íntegra, tudo está documentado”.

Aliás, é ponto assento na “doutrina de Belém” que não há fugas sobre o que acontece entre as paredes do palácio cor de rosa. “Quem cá vem tem de ter a certeza de que o que aqui diz aqui fica”, disse fonte oficial ao Expresso. Em várias situações, houve trabalho discreto de bastidores que a Presidência poucas vezes quis publicitar.

Mas agora, que faltam três meses para abandonar o cargo, Cavaco Silva tem algumas contas a acertar: alguns dos problemas ou crises do seu mandato nunca ficaram completamente esclarecidos. Outras, os portugueses nem sequer perceberam, e Cavaco não pôde ou não quis explicar as razões das suas decisões. As memórias, tal como a sua anterior “Autobiografia Política”, servirão esse objetivo. Cavaco quer falar para a História.

É aliás neste livro que Cavaco Silva adverte sobre o tom que, supostamente, deverão inspirar também os novos escritos: “Falo acima de tudo do que se passou comigo, da minha própria ação, dos episódios em que participei, das minhas decisões e atitudes (...) as apreciações e juízos quanto a factos e pessoas foram os que fiz na altura em que os acontecimentos tiveram lugar e refletem um natural subjetivismo”. Em suma, não é preciso citar Ortega y Gasset para se perceber que é “o homem e a sua circunstância”.

Da crise dos Açores ao Governo de Costa

Não se sabe quais são os temas que Cavaco Silva vai eleger para contar. Mas podem presumir-se, a partir do registo das crises ou acontecimentos mais relevantes dos seus dois mandatos. Desde a primeira delas, a chamada crise do Estatuto dos Açores, que fez parar o país no último dia antes de férias, em 2008, à espera de uma intervenção do Presidente da República.

O tema era desconhecido da generalidade dos eleitores. Cavaco Silva contestava que, para dissolver a Assembleia açoriana, tivesse de fazer mais audições do que para fazer o mesmo em relação ao Parlamento da República. A maioria dos portugueses não percebeu o que se passava, mas deu-se conta de que a famosa “cooperação estratégica” entre o Presidente e o Governo de Sócrates tinha levado um golpe. Mais tarde, Cavaco Silva revelaria que tinha sido enganado no processo de preparação da lei por “dirigentes políticos”. A lei acabou no Tribunal Constitucional.

Da crise dos Açores ao processo de formação do atual Governo (e o PR quererá justificar porque empossou um Executivo a cujo primeiro-ministro indigitado pediu explicações que não o esclareceram), passando pelos seis anos de coabitação com José Sócrates, o único primeiro-ministro na história da democracia que foi acusado de deslealdade por um Presidente, há muitos temas.

É o caso, por exemplo, do chamado “caso das escutas de 2009”, nunca cabalmente esclarecido, segundo o qual Belém estaria a ser escutado pelo gabinete do primeiro-ministro. O caso levou ao afastamento do seu assessor de imprensa de sempre, Fernando Lima, mas o que aconteceu realmente até hoje não se sabe. Ou o caso da alteração da localização do aeroporto, que Sócrates queria na OTA e passou para Alcochete, ou da frustração da compra pela Ongoing da TVI.

A campanha eleitoral para as presidenciais de 2011, com o agitar do caso BPN e da aquisição da casa da Coelha, deixou marcas indeléveis que acabaram por conduzir, em última análise, ao duro discurso de tomada posse, que dá o tiro de partida para a saída de Sócrates.

Os meandros do PEC 4 (e a falta de informação do Presidente), o resgate e, já com o Governo de Passos, o fim da TSU (setembro de 2012), decidido no final de um Conselho de Estado, a inopinada visita a Belém, num sábado de abril, de Passos Coelho e o então ministro das Finanças, Vítor Gaspar (o Tribunal Constitucional chumbaria o orçamento de 2013 enviado em fiscalização sucessiva pelo PR), ou a já falada crise do “irrevogável”, em julho desse ano, são outros tantos. Se Cavaco quiser, tem mesmo muito que contar.

De um palácio para um convento

nuno botelho

O convento. Quando o atual Presidente da República terminar as suas memórias estará já a ocupar o local de trabalho que lhe está reservado numa parte do Convento do Sacramento, em Alcântara, o local escolhido para o seu gabinete de ex-Presidente. Cavaco Silva terá direito a um gabinete, uma secretária, um assessor e carro com motorista e combustível, tal como acontece com os seus antecessores. O edifício sofreu obras de reabilitação.

Texto publicado na edição do Expresso de 5 dezembro 2015