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Política

Governo atual “será nota de pé de página ou novo capítulo da democracia”

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Politólogo André Freire sublinha que, até às últimas eleições, a democracia portuguesa tinha como “traço fundamental a exclusão das minorias políticas à esquerda do Governo, o que, diz, levanta problemas de clareza das alternativas políticas

O politólogo e professor André Freire defendeu esta segunda-feira que o maior desafio político em Portugal é saber se o Governo atual será "uma nota de pé de página ou um novo capítulo na democracia portuguesa". "Como cidadão e como cientista político, espero que seja um novo capítulo de maior inclusividade, de maior participação e que venha para durar", acrescentou.

O investigador falava esta segunda-feira na cidade da Praia, Cabo Verde, no primeiro de dois dias do I Congresso de Ciência Política e Administração Pública, que tem como pano de fundo o ano eleitoral de 2016 no país.

André Freire, que fez esta segunda-feira uma intervenção sobre a representação das minorias na democracia portuguesa, considerou as recentes alterações registadas no panorama político português como "a queda do Muro de Berlim".

O investigador adiantou que, até às últimas eleições, a democracia portuguesa tinha como "traço fundamental" a exclusão das minorias políticas à esquerda do Governo, o que, disse, levanta problemas de clareza das alternativas políticas.

"A distância ideológica, na dimensão esquerda-direita, entre o PS e PSD é relativamente baixa. Ora, quando pedimos aos eleitores para escolher é preciso que haja diferenças - se não houver diferença, as escolhas são pobres. E isto é um problema de não inclusividade das minorias de esquerda no Governo.".

O politólogo lembrou que estas minorias representam em média 10% a 20% do eleitorado, adiantando tratar-se de um conjunto de eleitores que não têm estado presentes no Governo, o que cria também um problema de inclusividade democrática.

André Freire sublinhou ainda a importância deste tipo de acordos de Governo na responsabilização dos partidos minoritários.

"Se um partido sabe que não vai chegar ao Governo, a sua propensão para inflacionar as promessas é muito grande. A sua inclusão no Governo é uma forma de responsabilização", disse.

As eleições de 4 de outubro em Portugal deram a maioria de votos à coligação de direita PàF (PSD e CDS-PP), mas o Governo saído destas eleições foi chumbado no parlamento fruto de um acordo entre o Partido Socialista e os partidos de esquerda - PCP, Os Verdes e Bloco de Esquerda -, cujos deputados somados têm maioria na Assembleia da República.

O PS formou entretanto um Governo minoritário que terá o apoio parlamentar dos partidos de esquerda.

O politólogo acredita também que a inclusão da esquerda nesta solução governativa possa contribuir para a redução das desigualdades no país, lembrando que sempre que o Partido Socialista ganhou eleições com maioria relativa apoiou os seus governos na direita.