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Passos: “Espero que tenham a dignidade de devolver a palavra ao povo”

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Marcos Borga

Falou de Costa como um “chefe” escolhido “nas costas do povo”. Acusou-o de “cinismo político”. E de “anunciar o contrário do que o país precisa”. A partir do “centro moderado”, Passos diz que não virará costas ao interesse nacional, mas se precisarem dele em "questões essenciais", só com eleições

Deu para perceber que Pedro Passos Coelho deposita o futuro de António Costa nas mãos do PCP. Ao falar no debate do programa do Governo do PS, Passos referiu várias vezes os comunistas - "antieuropeístas de pendor monolítico" - mas ignorou liminarmente o Bloco de Esquerda. Se um dia o apoio do PCP lhe faltar, o líder do PSD só vê uma saída: eleições antecipadas.

Já o tinha dito numa entrevista televisiva, mas ao inscrever a frase no discurso com que justificou a moção de rejeição ao Governo socialista, o líder do PSD abriu o jogo. Não será "contra tudo" - "avaliaremos em cada momento o que entendermos ser melhor para o interesse nacional" -, deixou claro que se posicionará "no centro moderado", mas se Costa precisar dele para aprovar medidas decisivas, terá que "devolver a palavra ao povo".

"No dia em que o nosso apoio possa ser decisivo para alcançar algum resultado essencial que a maioria que apoia o Governo não seja capaz de garantir, apenas esperamos que tenha a dignidade de devolverem a palavra ao povo", afirmou o ex-primeiro-ministro.

Em tom acelerado e indignado, Passos Coelho descreveu a ascensão de António Costa ao Governo como uma jogada de "cinismo político", de quem, de forma "dissimulada, apenas viu desesperadamente uma oportunidade para chegar ao poder". Relembrou como o líder do PS recusou "a solução natural" - negociar com a direita "vencedora das eleições". E embora garanta "viver bem com o exercício democrático", Passos carregou nas palavras. Costa "usurpou" e chega ao Governo "nas costas do povo".

Sobre o programa socialista, o ex-primeiro-ministro antevê maus resultados: "O que este programa nos anuncia é o contrário do que Portugal precisa". O "aventureirismo" só pode, avisou, "afastar os investidores". Passos espicaçou a fratura entre o programa do PS e do PCP: "Tenho dificuldade em perceber em que categoria arrumam a questão (europeia): na visão tradicional dos socialistas, na das esquerdas, ou num misto estilo Syriza?", questionou.

"Seja qual for a resposta", o líder do PSD diz ter concluído que Costa "confia no PCP" e, pela sua parte, vê nisso razão que chegue para rejeitar o programa deste Governo.

Muito aplaudido pelas bancadas do PSD e do CDS, Passos recusou-se sempre nestes dois dias de debate a responder a perguntas dos jornalistas. A página virou. E liderar, a partir do "centro moderado", a oposição a um Governo nascido de "um certo cinismo usurpador", vai exigir muita reflexão.