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Passos & Portas, um contrato a termo incerto

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alberto frias

Partem de mãos dadas, coligados no essencial, respeitosos na diferença. Um ano é fácil. Se Costa durar muito, logo se vê

Filipe Santos Costa

Filipe Santos Costa

Jornalista da secção Política

Pedro Passos Coelho e Paulo Portas partem para a oposição coligados. Depois de quatro anos no Governo, de uma aprendizagem a dois que acertou dissonâncias, de uma campanha com coesão sem mácula, de um programa de Governo comum e de terem sofrido juntos o “golpe” do líder socialista, seria impensável despedirem-se sem mais. PSD e CDS vão dar luta a António Costa a uma só voz e acreditam que a parceria é gerível, mesmo nas difíceis águas da oposição. Seguramente até ao Orçamento do Estado de 2017.

Nessa altura, já será mais percetível se o acordo das esquerdas tem fôlego para continuar a conciliar a agenda europeia de Centeno com a agenda antiausteridade do PCP e do BE. Os líderes do PSD e do CDS manterão a parceria, a menos que concluam que correm o risco de penar toda uma legislatura na oposição, sem garantias de eleições antecipadas. “Um ano, ano e meio” é o horizonte mais referido nos bastidores da ex-maioria como provável para que a corda se parta. Um horizonte que PSD e CDS consideram razoável para conseguirem manter o rumo estratégico comum. Se a “geringonça” der sinais de aguentar mais do que isso, talvez Passos e Portas tenham de repensar a sua vida.

Os dois líderes ainda não decidiram se darão alguma formalidade à coligação no Parlamento mas continuarão, em qualquer caso, a reunir-se e a falar regularmente. Ontem, no seu regresso às bancadas da oposição, até ligaram para o telemóvel um do outro, a dar sinal de que a proximidade se mantém. Muito provavelmente Passos e Portas assumirão registos diferentes, mas complementares, como conseguiram na última campanha eleitoral. Passos Coelho manterá, como ex-primeiro-ministro e por natureza própria, um registo duro e exigente no leme da oposição, mas o menos politiqueiro possível, deixando a Paulo Portas o tom mais aguerrido e combativo.

O arranque da legislatura é para a direita uma espécie de longa campanha eleitoral para umas eleições antecipadas que PSD e CDS sonham poder viver como uma segunda volta das legislativas de outubro. Antes disso, têm as presidenciais, que alguma direita quer transformar num primeiro ajuste de contas — sem cair nessa tentação, Passos e Portas vão articular-se entre si e com Marcelo. E não passou despercebido o facto de, na entrevista que deu na semana passada à RTP, o ex-PM ter continuado a realçar a articulação entre os dois partidos, quando questionado sobre os passos a dar para formalizar o apoio ao professor. No resto, PSD e CDS estarão concertados no essencial. Se o tempo provar que as dúvidas sobre a sustentabilidade do Governo de esquerda não merecia, afinal, tantas dúvidas quanto as de Cavaco Silva, o caso muda de figura.

No PSD, já há vozes a aconselharem Passos Coelho a recuperar o centro para o PSD, demarcando-se progressivamente do CDS. Santana Lopes foi o primeiro, terça-feira, na SIC. Mas Nuno Morais Sarmento chegou logo a seguir. Numa entrevista à RTP, afirmou que “o PSD terá futuro. Não começou com a PàF e não acaba com a PàF”, e disse o que faria se estivesse no lugar de Passos: “Eu manteria a convergências com o CDS nas questões essenciais. E ia à minha vida”.

Como pano de fundo está a preocupação de manter o eleitorado central, que Costa arriscou hipotecar com o acordo que fez. Vários barões do PSD vislumbram a oportunidade, desde que o partido modere a cartilha e aproveite esta cura de oposição para, como dizia Sarmento, “se reinventar e construir o adicional” que lhe faltou para a maioria absoluta. Manuela Ferreira Leite juntou-se ao coro na quinta-feira, na TVI: “Será bom que o PSD volte a ir ao centro”. Sem querem espantar o parceiro à bruta, o que estas vozes dizem é que o tempo da coligação com o CDS “natural e rapidamente” terá os dias contados.

Apesar destas vozes (que o CDS identifica com “gente que nunca viu o Passos com bons olhos”), do lado de Passos e de Portas, não há sinal de pressa em libertar-se do parceiro. “O golpe da esquerda unida obriga-nos a continuar também unidos”, diz um general da anterior maioria. “Mas teremos, como já tínhamos, espaço para discursos específicos. Não perdemos a autonomia estratégica”, garante. E, se houver um momento para ir cada um para seu lado, “não haverá drama”, diz um dirigente centrista. Lembrando que, depois do que António Costa fez, juntos ou separados, PSD e CDS só voltam ao poder com uma maioria absoluta.