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Política

Cavaco e Costa: fratura exposta

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Luis Barra

Azeite e água nunca se misturaram, mas quando fervem, um entra em fritura, a outra em ebulição. A confrontação entre Cavaco Silva e António Costa é apenas a face visível de duas posições que passaram a fações. O ambiente político está de salga nas feridas

Cavaco ataca Costa, que despreza Cavaco, que abre conflito com Ferro, que apoia Costa, que afronta Passos, que arrasa Costa. Não são políticos, são figuras de Estado. Não são dirigentes partidários, são líderes. A tomada de posse do novo governo expôs a fratura: Costa vitorioso discursando aos derrotados, Cavaco vencido discursando aos vencedores, Passos rendido às trombas na primeira fila. O centro está desfeito em dois semicírculos afastados.

A confrontação partidária para a formação de governo não se extinguiu com a posse do novo governo. Os últimos quase dois meses foram dinamite nas pontes possíveis e salitre nos acordos impossíveis. Primeiro, a ação de António Costa afastou a direita para um lado. Depois, a intervenção de Cavaco Silva barricou a esquerda no outro lado. Entre os dois está um oceano. Sem centro, não há reformas. Sem governo de maioria, pode não haver governação. E se os dois lados não começam a laçar espaços de negociação, ou tudo para ou tudo explode. É uma questão de tempo. Os plenipotenciários fizeram-se pleni-incendiários e disseminam agora o afastamento, o ressentimento e o facciosismo pelos partidos abaixo. A situação política é muito preocupante. Ficará latente, mas o ambiente é de ajuste de contas. De vingança.

Muitos perceberam-no e, vendo de fora, falam para dentro, pedindo que passem uma borracha no que parece tinta permanente. Já o pediram Santana, Vitorino, Morais Sarmento, Marcelo Rebelo de Sousa – que, já se percebeu, fará do seu posicionamento moderado um fator de tração e atração eleitoral, até pelo contraste face ao costismo declarado de Maria de Belém e de Sampaio da Nóvoa: Marcelo não é costista, não é passista, nem é cavaquista, é marcelista.

A tomada de posse de Pedro Santana Lopes, em 2004, ficou para história pelo insólito de ver um primeiro-ministro a saltar páginas do discurso para apressar a cerimónia. Foi quase cómico. Santana estava como num casamento com cara de despedida de solteiro na noite anterior. Ontem, nada houve de cómico. Cavaco estava como num casamento em que se pergunta se alguém tem alguma coisa contra, para que fale agora ou cale-se para sempre. Falou Cavaco.

O Presidente atribuiu a crise política a quem tombou o governo, disse que os documentos entre os partidos de esquerda são omissos, revelou que as suas dúvidas permanecem e indicou que só deu posse a António Costa por não ter alternativa. Engoliu óleo de rícino. E depois sublinhou a importância do cumprimento dos objetivos orçamentais, nisso incluindo preocupações com défices excessivos, défice estrutural, dívida pública, credibilidade externa, e criticou o crescimento com base no consumo interno por causa do desequilíbrio externo. Para bons entendedores, nós todos, disse que mantém poderes e que os usará se necessário pois diz-se legitimado pelo voto dos portugueses, que é como quem diz que António Costa não o tem.

Costa até fez um bom discurso, contra as fatalidades e contra a exclusão de pobres e de jovens. Mas ninguém ouviu. Porque a partir do momento em que afirmou que responde perante o Parlamento (e portanto não perante o Presidente), ninguém quis saber de mais nada. Ora, Costa é o primeiro a poder serenar o que está a fazer saltar os sismógrafos. Se dispara, fere e fere-se.

Vai ser preciso ouvir mais. Negociar mais. O PS não tem maioria no Parlamento e o apoio que recebeu dos partidos à sua esquerda não tem compromisso. É por isso que os fossos intransponíveis são abismos para quem se abeira delas. E se em vez de cerimónia há acrimónia, o que se segue não é uma legislatura. É um duelo.