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Como está Portugal a combater o Estado Islâmico?

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O major Paulo Lourenço, que esteve seis meses no Iraque, fotografado no Centro de Tropas Comandos, na Carregueira

Marcos Borga

Sempre acima dos 40 graus, 30 militares portugueses apoiaram (e continuam a apoiar) a formação de centenas de soldados iraquianos no campo de treino de Besmayah, Bagdade. E daqui vão combater o autoproclamado Estado Islâmico

Portugal comprometeu-se com a Coligação Internacional, liderada pelos Estados Unidos, a dar formação durante um ano às Forças Armadas iraquianas que combatem o autoproclamado Estado Islâmico (Daesh). E está a cumprir o prometido desde maio deste ano, tendo destacado para o campo de treino de Besmayah, a cerca de 50 quilómetros por estrada da capital, Bagdade, uma força de 30 militares do Exército.

A comandar o primeiro destacamento de seis meses, entretanto rendido, esteve o major de infantaria Paulo Lourenço. Em entrevista concedida ao Expresso já no Centro de Tropas Comandos, na Carregueira, passou em revista uma missão cumprida sobre duríssimas condições climatéricas - "Às duas da manhã estão 40 graus e às duas da tarde estão 56" -, num campo expedicionário, edificado por Espanha numa zona desértica, a que chamaram “Base Gran Capitán”, onde pernoitaram em tendas durante três meses. “Dormimos pouco mas assim o tempo passa muito rápido”, atira o oficial português em jeito de brincadeira.

Nada disto, garante o major Lourenço, impediu a formação de centenas de militares iraquianos, preparando-os para detetar e abater os snipers do Daesh; para combater, rua a rua, casa a casa; para disparar morteiros M-60, M-81, M-120; e para inativar os omnipresentes e muito temidos engenhos explosivos improvisados, conhecidos como IED. “Cumprimos a missão com enorme sorriso porque achamos mesmo piada aquilo.”

Por questões de proteção, sobretudo das famílias dos militares que estivaram em Besmayah, o Exército estabeleceu uma "reserva da identidade" colocando como condição para a concessão desta entrevista que o rosto do major Paulo Lourenço não pudesse ser identificado nas fotografias publicadas. Uma condição que o Expresso decidiu respeitar face às ameaças já recebidas este ano por familiares de outros militares que, tal como os portugueses, estiveram destacados em Besmayah

Por questões de proteção, sobretudo das famílias dos militares que estivaram em Besmayah, o Exército estabeleceu uma "reserva da identidade" colocando como condição para a concessão desta entrevista que o rosto do major Paulo Lourenço não pudesse ser identificado nas fotografias publicadas. Uma condição que o Expresso decidiu respeitar face às ameaças já recebidas este ano por familiares de outros militares que, tal como os portugueses, estiveram destacados em Besmayah

Marcos Borga

Quando chegou a Besmayah, a 12 e maio, qual foi a sua primeira impressão?
Todas as forças que chegam àquela base têm mais ou menos a mesma perceção. Chegamos de noite, em helicópteros Chinook escoltados por Apaches, todos norte-americanos, com um pó imenso, um calor terrível. Nos comandos, dois terços dos militares que são enviados para missões já tem experiência noutros teatros - Afeganistão a maioria deles -, e um terço são militares que nunca tinham estado num teatro de operações. Esta estratégia tem dado frutos, no sentido em que as expectativas vão sendo geridas pelos militares com mais experiência.

É o seu caso. Esteve no Afeganistão.
Duas vezes.

O clima no Iraque é muito diferente?
Na primeira missão em que estive no Afeganistão fomos destacados durante um mês e meio de Kabul para Farah. As temperaturas em Farah são similares às do Iraque. Às duas da manhã estão 40 graus e às duas da tarde estão 56. Mas no Iraque temos zero por cento de humidade e um índice de ultravioleta de 11%, quando o máximo recomendado é de 9%. Por isso andávamos sempre de mangas para baixo, luvas, golas puxadas para cima e colocávamos protetor solar.

Como é que era um dia típico de trabalho em Besmayah?
Ao longo dos seis meses do nosso destacamento nunca tivemos o mesmo horário. Normalmente a alvorada era às 5h, e às seis começávamos o treino, até à uma da tarde. No período do Ramadão [mês sagrado durante o qual os muçulmanos têm de permanecer em jejum da alvorada ao crepúsculo] teve de ser antecipado. A nossa alvorada era às 3h30 e às cinco horas já estávamos a dar treino.


As forças iraquianas estão em rotação?
Sim. Os militares que chegavam para formação pertenciam a unidades que tinham sofrido baixas e precisavam de ser substituídas por outras na linha da frente. Vinham então para um campo de treino onde recebem reforços humanos, materiais e instrução, para depois voltarem novamente para a linha da frente.

Quando chegaram começaram a dar formação à 92.ª brigada do Exército iraquiano.
Demos formação a dois batalhões da Brigada 92. Um logo no início, seis semanas, mais duas depois de receberem o equipamento, material americano. Depois demos três cursos de atirador especial, que foi concebido por nós, e passamos o programa à coligação. Os espanhóis agarram-no porque estava a ter alguma visibilidade e deixamos de dar o curso. Paralelamente, como levámos dois artilheiros, estivemos sempre a dar cursos de morteiros M-60, M-81, M-120. Os militares que frequentaram os cursos de atirador especial e de morteiros provinham do BOC - Bagdad Operational Command, uma força constituída por 87 batalhões que dependem diretamente do Governo e estão à parte do Exército Iraquiano. São duas entidades diferentes: os militares que estão a defender Bagdade, o BOC, dependem diretamente do Governo, a Brigada 92 pertence ao Exército Iraquiano.

O que eles faziam era retirar de cada um dos 87 batalhões um determinado grupo de elementos para fazerem estes cursos. Porquê? Porque o Daesh colocava IED - Improvised Explosive Device (Engenhos Explosivos Improvisados) no terreno e para abater aqueles que tentavam neutralizaálos posicionava snipers. Então os batalhões de Bagdade decidiram dar formação extra a atiradores para fazer luta anti-sniper. E foi isso que esteve a ser feito.

Quem tentava detetar e desarmadilhar esse tipo de explosivos era abatido?
Exatamente. Inicialmente tínhamos um militar de engenharia que também estava em Besmayah, a dar cursos de formação de deteção e inativação de engenhos. Vimos que era importante e sugerimos a Portugal o reforço da equipa de engenharia. E vieram mais dois engenheiros. No campo de Besmayah está a melhor escola de contra-IED do Iraque. Chega ali toda a informação proveniente dos elementos que sobreviveram na frente de batalha e é passada aos formandos seguintes. Está lá tudo o que é engenhos encontrados no terreno, aos quais foram retiradas as cargas explosivas, para poderem ser usados na instrução.

Marcos Borga

Como é que era o relacionamento com os iraquianos?
Muito bom. As pessoas que vinham para treino, até os tradutores, numa fase inicial, manifestaram algum receio - o que é que estes vêm cá fazer? - mas essa barreira, connosco, foi logo diluída. Criou-se um bom espírito com os tradutores, que são a nossa arma principal neste tipo de combate, já que toda a formação era feita em inglês. Posso saber muito, mas se não tiver um bom tradutor para passar a informação, nada feito. E os que estiveram a trabalhar connosco - um médico e um advogado - eram bastante bons.

Estamos a falar da formação de forças para combater sobretudo em meio urbano. Tinham as condições necessárias para preparar os homens para este tipo de combate?
Aquele campo tem 25 carreiras de tiro. Dá para fazer tiro de tudo: aviões, helicópteros, tanques, pistolas, armas sniper, morteiros. Tem nove edifícios onde dá para fazer tiro dentro dos compartimentos.

O que me está a dizer é que eles saíam bem preparados para este combate rua a rua, casa a casa.
Tinham condições e nós fazíamos esse esforço. A questão é o tempo. Não consigo pôr uma pequena unidade de cinco militares a combater dentro de um compartimento sem uma preparação prévia. É preciso fazer treino de tiro, treino técnico de limpeza de compartimentos, para chegarem aqui e executarem este tipo de exercícios sem se matarem uns aos outros. Seis semanas seriam suficientes para se fazer isto, se fizessem só isto, mas eles não faziam só isto. Além disso, precisam de equipamento adequado. Sem rádios para comunicarem entre eles, para sincronizarem as atividades, não resulta. E eles tinham poucos rádios.

Por isso é que eles tinham grandes dificuldades nos teatros de operações. Pelo menos era essa a informação que eu tinha, porque não fui com eles para a frente de batalha, infelizmente, mas conduzimos o treino como se fôssemos. Se Portugal nos quisesse enviar para advise and assist [coordenação das forças no terreno], esta unidade tinha essa capacidade. Os Five Eyes [Austrália, Canadá, Estados Unidos, Nova Zelândia, Reino Unido] estão a fazê-lo. Não quer dizer que estejam na linha da frente, mas estão em determinados locais com as unidades que estão a combater.

Marcos Borga

Partilha a ideia, já muito veiculada na imprensa, segundo a qual ainda vai levar muito tempo até o Iraque voltar a ter um Exército?
Sim, vai.

Estamos a falar de dez anos?
Sim. No mínimo, e após terminar a questão do Daesh. Sem terminar vai ser muito difícil. A velocidade com que isto anda ou deixa de andar tem que ver com pressões internacionais. Isto esteve algum tempo parado, mas desde de que a Rússia entrou na Síria a coligação acelerou. Sentiu-se pressionada para apresentar resultados. E a coligação em vez de o fazer com mais tempo e de uma forma mais segura teve de apressar o passo para, de alguma maneira, responder à chegada dos russos.

Os militares que formaram foram enviados para combater em que regiões?
A Brigada 92 em Ramadi, a noroeste de Bagdade [130 quilómetros por estrada].

A 22 de julho receberam a visita do general Pina Monteiro. Sei que o Chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas (CEMGFA) ficou surpreendido com as duríssimas condições de trabalho em Besmayah. Que mensagem é que o general lhes deixou? Foi importante esta visita?
Sim. Para mim e para o resto dos militares. É muito importante, na medida que os generais, que têm de tomar decisões e já estiveram noutras missões, percebam que não há duas missões iguais. Esta tem particularidades muito específicas, como o rigor do clima e o campo de treino. Os espanhóis construíram um campo expedicionário porque estavam a contar ficar três anos.

Nós dormimos em tendas durante três meses, com 56 graus. Uma pessoa dorme. As tendas têm ar condicionado mas por vezes faltava a eletricidade, produzida com geradores, durante três ou quatro horas. Não havendo eletricidade não há água nas casas de banho para tomar duche e quando havia não se podia engolir água nos chuveiros. Agora já há um sistema de filtragem, mas inicialmente tomávamos banho com água do rio. E só se pode beber água engarrafada. Entre as seis da manhã e as 13h, um militar ingeria seis a oito litros de líquidos. Quase todos os militares perderam peso. Cerca de dez quilos, em média.

Dormir pouco para nós é o normal, enfrentar condições de rusticidade também. Em Portugal conseguimos criá-las em frio extremo, no Iraque em calor extremo. Mas o nosso organismo tem uma capacidade de adaptação incrível. Para os nossos militares, que têm preparação física e psicológica para enfrentar estes ambientes, não deixa de ser um desafio pessoal viver em condições extremas. Por isso é que, tal como o CEMGFA pôde testemunhar, cumprimos a missão com um enorme sorriso, porque achamos mesmo piada aquilo. Foi mais um desafio para superar.