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António Costa, o homem que se recusa a acreditar nos impossíveis

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Rui Duarte Silva

“Sou teimoso e persistente. Não desisto com facilidade”, costuma dizer de si próprio. Aos 54 anos, António Luís Santos da Costa chega ao lugar que já foi de Mário Soares, António Guterres e José Sócrates. É o 13.º primeiro-ministro desde 1976

Cristina Figueiredo

Cristina Figueiredo

Jornalista da secção Política

Nasceu em Lisboa, em julho de 1961, filho de Orlando da Costa (poeta e publicitário) e de Maria Antónia Palla (jornalista). Inscreveu-se na Juventude Socialista assim que os estatutos da organização lho permitiram (aos 14 anos) e, desde então, nunca mais deixou a política. Licenciou-se em Direito com média de 15, pelo meio conseguiu reaver a presidência da Associação Académica da Faculdade de Direito de Lisboa para os socialistas - já então com uma pouco ortodoxa aliança com os comunistas.

Ainda foi monitor na Faculdade, ao mesmo tempo que fazia o estágio no escritório do seu tio Jorge Santos (que era também o de Jorge Sampaio e José Vera Jardim). Mas a atividade partidária começou progressivamente a ganhar força sobre a defesa dos clientes em tribunal. Subiu ao secretariado nacional do PS com Vítor Constâncio, foi um dos principais apoios de Sampaio na candidatura deste à presidência da Câmara Municipal de Lisboa e participou ativamente na negociação com os comunistas (mais uma vez) para a coligação que haveria de governar o município entre 1989 e 2001.

Foi chamado ao Governo em 1995, para secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares. Em 1997 subiu a ministro da mesma pasta e em 1999 foi para ministro da Justiça, no segundo Governo de António Guterres

Com a chegada de António Guterres ao Governo, em 1995, foi chamado ao Governo para secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares. O que não o impediu de dirigir a campanha presidencial de Sampaio, em 1996. Um ano depois, com a imprevista saída de António Vitorino, subia a ministro - podia ter sido da Defesa, mas recusou, alegando não ter ainda estatuto para o lugar. Ficou com os Assuntos Parlamentares e a tutela da Expo 98 - projeto que Vitorino ainda hoje diz só ter sido possível de concretizar graças a António Costa. Voltou a ser ministro, desta vez da Justiça, no segundo executivo de Guterres, entre 1999 e 2001.

O resultado das legislativas antecipadas de 2002 remeteu o PS para a oposição. Costa assumiu o lugar de líder parlamentar (era Ferro Rodrigues o secretário-geral do PS), cargo que sempre assumiu desempenhar com sentido de obrigação e muito pouco prazer, mesmo antes (mas sobretudo depois) de ter de lidar com o caso Casa Pia. Saiu (deixando o lugar vago para António José Seguro) mal lhe surgiu uma oportunidade, em junho de 2004, para o Parlamento Europeu.

Marcos Borga

Esteve em Bruxelas por pouco tempo. Com a maioria absoluta de José Sócrates em fevereiro de 2005 - e depois de o ter ajudado a elegê-lo secretário-geral do PS, na sequência da demissão de Ferro - foi ocupar o lugar de ministro da Administração Interna. Mais uma vez não concluiu o mandato. Sócrates pediu-lhe para ser o candidato do PS às eleições intercalares em Lisboa, em julho de 2007. E ele foi. Venceu, está certo que com apenas seis dos 17 mandatos - mas logo fechou um acordo de governação do município com Helena Roseta e José Fernandes. Em 2009 e em 2013 seria reeleito - de ambas as vezes com maioria absoluta.

Em 2007, Sócrates pediu-lhe que fosse o candidato do PS às eleições intercalares em Lisboa. Costa foi, e venceu, sendo reeleito em 2009 e 2013, em ambas as vezes com maioria absoluta

Lugar cativo entre as reservas do PS para a sucessão de José Sócrates, não surpreendeu que fosse nele que este pensasse em primeiro lugar quando perdeu as legislativas de 2011 e se demitiu da liderança socialista. Costa ponderou seriamente, mas menos de 48 horas depois concluiu que ainda não era o momento e passou a bola a Francisco Assis - que, no entanto, perdeu para António José Seguro.

Nunca escondeu “não ir à bola” com o então secretário-geral do PS, e sem nada fazer (ostensivamente) para tal foi alimentando as expectativas dos que acreditavam que ele ainda poderia um dia, mais cedo do que mais tarde, apresentar-se à liderança do PS. Esteve quase, quase, em janeiro de 2013. Mas a proximidade das autárquicas e o facto de querer assegurar que Lisboa continuava em mãos socialistas (garantia que outros nomes, testados em sondagens, não lhe davam) fizeram-no desistir. Outra vez.

Nos bastidores partidários, porém, a ideia de Costa substituir Seguro, longe de cair por terra, foi-se consolidando. Quando o PS venceu as eleições europeias com uma vantagem que Costa classificou como "curta", surgiu o último momento possível, a tempo de apanhar o comboio das legislativas de 2015.

O resto da história é o que se conhece: Costa avançou contra Seguro. Este decidiu convocar umas primárias para pôr militantes e simpatizantes a escolherem qual dos dois preferiam para candidato a primeiro-ministro. E perdeu com estrondo (Costa arrebatou 70%).

A primeira sondagem feita após as primárias dava o PS com maioria absoluta nas legislativas seguintes. Mas o "estado de graça" foi único e irrepetível. A partir daí, e até à véspera das eleições, fruto de um conjunto variado de circunstâncias (desde a inesperada prisão de José Sócrates aos problemas na gestão da Câmara de Lisboa, que ainda acumulou até abril; desde a demora na apresentação de propostas do PS à desastrada campanha eleitoral), foi sempre a descer, longe da promessa de maioria absoluta com que se alcandorara à liderança do PS.

“Deve haver problemas impossíveis. Tenho tido a sorte de nunca ter encontrado nenhum”, disse António Costa numa entrevista, referindo-se aos seus tempos de ministro

Mas exatamente um ano e um dia depois de ter sido entronizado secretário-geral do PS, quase dois meses depois de ter perdido as legislativas, eis que António Costa é "indicado" primeiro-ministro. Ninguém contava, ou todos subestimaram, a capacidade de Costa estabelecer pontes à esquerda, como prometeu desde o início e poucos levaram a sério. Para o citar a si próprio (numa entrevista de vida em que falava dos desafios que teve no complicadíssimo ministério da Administração Interna): "Deve haver problemas impossíveis. Tenho tido a sorte de nunca ter encontrado nenhum".

Artigo publicado na edição do Expresso Diário de 24/11/2015

  • Quem são, o que pensam e o que disseram os 17 ministros de Costa

    António Costa não perdeu tempo: no mesmo dia em que foi indigitado primeiro-ministro por Cavaco Silva, o líder socialista enviou para Belém a lista de ministros e secretários de Estado. Há surpresas - a escolha de Francisca Van Dunem para a Justiça é uma das maiores -, a Educação terá um dos mais novos ministros de sempre, há regressos anunciados - Vieira da Silva, Ana Paula Vitorino, Augusto Santos Silva, entre outros - e estreias de nomes conhecidos - João Soares ou Azeredo Lopes. Há três ex-ministros de Sócrates, quatro mulheres e 17 ministérios. Este é o perfil - um a um - dos 17 ministros e do primeiro-ministro (e juntamos ainda três secretários de Estado)