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Munchau: “Governo de gestão não é suficiente para Portugal”

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Wolfgang Munchau, diretor adjunto e um dos mais reputados colunistas do Financial Times, defende que Portugal deve ter um governo em plenas funções, sem estar condicionado. E não é o único em Londres a não ver mal em Portugal ser governado pelo Partido Socialista

Portugal não deve ter um governo de gestão. A opinião é de Wolfgang Munchau, o influente colunista e diretor adjunto do Financial Times. “Isso não é suficiente para Portugal”, afirmou ao Expresso. “O presidente deve respeitar o Parlamento”, adiantou.

Sublinhou que não é a favor de nenhum partido. Mas entende que Portugal não pode ficar a ser gerido meses a fio por um governo de gestão e precisa de um executivo em plenas funções. À margem de uma conferência internacional anual da Schroders, em Londres, frisou que viu o “o programa de Costa e não é nenhum programa comunista”, ou algo do género.

O Partido Socialista firmou um acordo com os partidos de esquerda para viabilizar um governo alternativo ao executivo de centro-direita que venceu as eleições legislativas com minoria. Está agora nas mãos do Presidente da República a decisão de nomear ou não um novo governo, sendo que existe a possibilidade de ficar em funções o atual executivo, mas com muitas limitações à sua governação.

A opinião de Munchau não está isolada em Londres, um dos mais importantes centros financeiros mundiais. Também o economista para a Europa da Schroders não está preocupado com a possibilidade de Portugal vir a ser governado pelo PS. “O Partido Socialista em Portugal não é anti-establishment”, diz Azad Zangana ao Expresso. “O Partido Comunista e o Bloco de Esquerda não fazem parte do governo oficialmente. Não estamos preocupados”.

Para este economista, “Portugal está agora numa boa situação”, fez reformas, e “em termos macroeconómicos, não há preferência” por um governo socialista ou de direita.

Já Munchau destacou, numa apresentação durante a conferência, que a União Europeia terá de mudar as suas políticas porque o seu atual modelo não é sustentável. “Algo terá de ceder para ser sustentável no longo prazo”, afirmou. E frisou que a política de taxas de juro baixas se vai manter durante muito tempo e que “os preços dos ativos vão permanecer elevados neste ambiente”.

Sobre Portugal e a Grécia, não tem dúvidas: “Estão presos numa UE onde nunca deviam ter entrado porque não têm a robustez suficiente para viver num sistema de taxas fixas".

Atenções voltam-se para a política

Para o economista da Schroders, as atenções vão deixar de estar tão concentradas nas questões macroeconómicas, até porque a austeridade na Europa está praticamente concluída, diz. “Vai haver um movimento da macro para a política”, afirmou numa apresentação.

Destacou ainda que os recentes acontecimentos, como os ataques terroristas em Paris e a crise dos refugiados, “vão ajudar os partidos alternativos já não por serem anti-austeridade, mas pela desilusão em relação ao crescimento económico e falta de emprego”.

Salientou também que as questões políticas na Europa são um risco e que a Schroders vai seguir o assunto com atenção. E lembrou que há eleições em França em 2017, um país onde são necessárias reformas, e onde o partido de extrema-direita Frente Nacional tem crescido.
“Os últimos eventos em Paris podem abrandar o investimento no próximo ano. Estamos preocupados com a falta de reformas económicas em França. Esperamos que a economia abrande”.

E o BCE?

Por outro lado, Keith Wade, economista chefe da Schroders, salientou que a política de estímulos do Banco Central Europeu (BCE) tem servido de incentivo para os governos na Europa “não porem a casa ordem”. O BCE admitiu aumentar os estímulos, apesar da melhoria nos indicadores macroeconómicos na zona euro.

“Se o BCE decidir aumentar ou alargar os estímulos vai acabar por não ter ativos para comprar muito rapidamente” e então poderá ter de pensar “comprar dívida de empresas ou mesmo ações”, prevê Azad.