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Como sobreviver à divina comédia de esquerda?

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Pediram-me um manual de sobrevivência a um governo de esquerda. E foi assim que me lembrei de descer os nove círculos do inferno de Dante

LIMBO Como sobreviver à Frente Popular? Confesso que a primeira inquietação a banhar o meu preocupado peito foi a seguinte: onde guardar os botões de punho? Colocá-los no prego durante a vigência do califado de Catarina? Enterrá-los no quintal para assim esconder os meus sinais de pertença à classe dos opressores? Mas depois ocorreu-me um pormenor decisivo: não tenho botões de punho, nem fatos Armani, nem sapatilhas Prada, nem apartamentos em avenidas caras, nem passo férias em estâncias que levam por fim de semana aquilo que um primeiro-ministro ganha por mês. Portanto, não tenho de me preocupar com o primeiro círculo do inferno de Dante, o limbo, refúgio eterno dos tontos que nem sequer têm consciência dos seus pecados. Neste caso, estou a falar daquelas pessoas que reduzem a política à indumentária. Como se sabe, uma pessoa de esquerda não usa botões de punho, blazers ou escovas de cabelo.

LUXÚRIA (DO ÓDIO) O verdadeiro problema começa na luxúria do ódio. As frentes de esquerda estão para o ódio como o tarado está para o prostíbulo. A esquerda-que-é-a-verdadeira-esquerda precisa de odiar, porque não sabe ver adversários que merecem respeito, só sabe ver inimigos que merecem excomunhão. Era esta a diferença entre o PS, de um lado, e o PCP e Bloco, do outro; os comunistas e neocomunistas viam na “direita” um inimigo schmittiano, o PS via na “direita” um adversário legítimo. Sucede que o espaço do PS sofreu agora uma OPA do ódio radical. E, neste mês e meio, já senti uma variação no habitual ódio da esquerda, subiu pelo menos uma oitava. Há uma nova e carregada atmosfera. Há uns anos, por causa deste ódio, fui forçado a alterar o meu nome no Facebook — as mensagens eram demasiadas e tentaram usurpar a conta. Agora, durante a vigência do califado de Catarina, acho que acabarei por sair desta rede social. Ser ameaçado todos os dias é uma coisa que me chateia. Mas, acima de tudo, importa perceber que a insultologia está a sair da net e a entrar na vidinha real. No Metro, na rua, na fila do cinema, já sinto um rosnar esquerdista nas costas. Durante os anos da troika, fiz uma intervenção académica que foi sabotada — já no final — pelas brigadas grandoleiras. Estou certo que durante a frente de esquerda nem sequer me deixarão entrar nas instalações.

Quando desce a este segundo nível do inferno na companhia do mestre Virgílio, Dante Alighieri constata que os pecadores da luxúria são empurrados de um lado para o outro pelo vento. Ou seja, a luxúria é um vento interior que provoca desassossego; este pecado simboliza um ser humano consciente que se torna inconsciente pela ação da fúria animal. Passa-se o mesmo com o ódio luxuriante da esquerda. Se repararem bem, o esquerdista nunca está quieto, está sempre a rodopiar sobre si mesmo como um diabo da Tasmânia marxista, está sempre agitado e à espera do momento para gritar contra o mundo, contra os outros; tudo serve de pretexto para este desabafo, desde a fila da cantina até à crise do Médio Oriente. Ora, nos próximos meses, este cenário vai repetir-se mais vezes, vamos ter de aturar mais vezes os esquerdistas lá do trabalho. Vão andar insuportáveis. Como é que devemos lidar com eles? Com carinho. É deixá-los vir, é deixá-los desabafar, é deixá-los grandolar, “você é um facho!”; no final, devemos sorrir enquanto fazemos a pergunta: “Então, já acabou a sua sessão de incontinência verbal?” Há que ser magnânimo.

Os esquerdistas que consumarão estas cenas de agressão ideológica nunca assumirão a sua intrínseca intolerância. De igual forma, o governo da frente popular nunca assumirá o bullying que inevitavelmente lançará sobre o jornalismo. Não, a esquerda nunca faz censura, nunca interfere com a liberdade dos jornalistas. A esquerda limita-se a impor o conceito de “liberdade respeitosa”. O que é isso de “liberdade respeitosa”? Sim, os jornalistas até podem fazer perguntas, mas antes têm o dever progressista de combinar as perguntas com os entrevistados. Devemos então prepararmo-nos para a primeira lei de ferro da história: não há frentismo sem censura, sem ataques diretos a jornalistas e cronistas, sem tentativas de cerco económico aos grupos de comunicação social. Mas, agora que penso no assunto, nada disto é novidade. O que me deixa confiante: o frentismo não pode ser pior do que o socratismo. É impossível.

GULA Quando chega ao terceiro círculo, Dante repara que a gula simboliza a autoindulgência. E não há nada mais esquerdista do que a autoindulgência, isto é, aquela certeza interior de que basta dizer “sou de esquerda” para que a sala inteira fique rendida. É como se a esquerda fosse uma deusa, um totem ou a árvore do conhecimento do bem e do mal. É como se o esquerdista tivesse a árvore sagrada algures no quintal, na cave ou num saco mágico à Sport Billy. É esta autoindulgência que explica a luxúria do ódio. Se eu tenho em minha posse a única visão moral e epistemologicamente válida, porque é que tenho de respeitar os outros? Se tenho a verdade do meu lado, o fogo que lanço sobre os outros não é ódio, é virtude!

GANÂNCIA A boa e velha ganância, o quarto círculo de Dante, está no centro desta “maioria de esquerda”. Costa avança porque tem de ser primeiro-ministro à força e o PCP avança porque quer proteger as clientelas dos transportes públicos. O que seria de nós sem a greve do Metro à quinta-feira? Ora, tendo em conta a natureza destes partidos e a sua incompreensão da austeridade e da dívida, tendo em conta as promessas já anunciadas e a retração do investimento e da confiança dos consumidores, convém recordar aqui a segunda lei de ferro da história: o socialismo acaba sempre num cenário de prateleiras vazias. De resto, o socialismo revoluciona a nossa relação com a comida. O habitante dos países socialistas vive obcecado com comida, porque simplesmente não pode entrar num supermercado para comprar víveres. O que nos conduz a uma estranha ironia: é o socialismo que devolve o homem ao estado da natureza. Capitalismo selvagem? Não conheço. Conheço, isso sim, o socialismo selvagem. Basta ler os relatos dos habitantes do ex-Pacto de Varsóvia ou da atual Venezuela. Em teoria, o socialismo é uma viagem ao futuro, mas na prática tem sido uma viagem ao passado: as populações regressam à condição de caçadores-recoletores, pescadores e agricultores que transformam todos os jardins em hortas. Não há espaço para o belo no socialismo, só para o útil. Portanto, se o sonho do PCP e Bloco fosse levado até às suas derradeiras consequências, assistiríamos a uma mudança cómica nos hábitos alimentares: aquilo que hoje é o suprassumo do esquerdismo chique, a agricultura biológica, passaria a ser uma necessidade imperiosa; as meninas bem da esquerda do Príncipe Real desceriam ao nível do taxista, e todos teriam a sua horta rudimentar. Mas, ora essa, estejam descansados! O apocalipse zombie do socialismo nunca nos baterá à porta, porque felizmente não somos a jangada de pedra sonhada pelo PCP, estamos atrelados à Europa. Contudo, se mantém Portugal afastado de um cenário dantesco, também é verdade que a Europa pode impor a saída de Portugal do euro. Se entrarmos num segundo resgate, a UE não terá com Portugal a benevolência que teve com a Grécia, porque já esgotou o quinhão de boa-vontade com os gregos, porque está desgastada com a crise dos refugiados e do terrorismo, porque há uma atmosfera de saturação. A saída de Portugal do euro não é impossível, até porque nós temos uma das maiores dívidas externas do mundo: 229,8% do PIB. Com esta dívida às costas e com uma frente de esquerda a fazer mais despesa, a aumentar impostos e a afugentar capital, investimento e consumo, um futuro dantesco volta a ser uma hipótese para Portugal. Aliás, não tardará muito para ouvirmos os frentistas a cantar hossanas ao escudo e ao “regresso da soberania monetária”. A inflação será a nova utopia.

Não, não vamos cair no apocalipse hobbesiano que nasce em cada paraíso socialista, as meninas de esquerda não precisarão de sujar as mãos numa horta a sério, mas corremos o risco de perder o acesso aos bens de consumo e de capital da modernidade. Se voltarmos ao escudo, será de novo caríssimo importar telemóveis, computadores, carros e máquinas. Voltaremos aos anos 70 e 80. Lembram-se da sensação de maravilhamento que sentíamos quando os tios e primos emigrados na Alemanha e França abriam as suas malas cheias de geringonças tecnológicas que nós não podíamos comprar com o nosso descafeinado escudo? Lembram-se de olhar para o walkman com um ar parolo? Essa parolice albanesa pode muito bem voltar. Com o regresso ao escudo (meta máxima do PCP), qualquer produto importado custará muitos contos. Ainda sabem contar em contos? Seja como for, sugiro que abram já uma conta no Deustche Bank. Ou podem fazer como José Sócrates: enrolem notas à feirante e guardem-nas debaixo do colchão, na gaveta das meias ou na casa da empregada.

HERESIA No círculo onde se sentem “as horríveis baforadas do fedor que do abismo se vomita”, Dante encontra heréticos como Anastácio, o homem que perverteu a verdade com palavras. E, nos próximos meses, assistiremos à perversão da verdade através da clássica novilíngua da esquerda. A realidade empírica desaparecerá debaixo do manto das “narrativas” e atos imorais passarão a ser imperativos categóricos. A “liberdade respeitosa”, como já vimos, será a primeira perversão, mas haverá mais: o político que está preso devido a suspeitas de corrupção passará a ser “um preso político”; a bancarrota provocada pela frente de esquerda será uma consequência das “maquinações dos mercados”; as críticas legítimas ao frentismo serão consideradas “investidas neoliberais” ou sinais de “bota-abaixismo”. E, claro, também existirão momentos de humor, como aquele em que Francisco Louçã recusará usar os termos “criada”, “empregada” e “mulher a dias”. Louçã tem apenas uma senhora-que-vai-lá-a-casa-ajudar. Como é que podemos sobreviver a esta corrupção intelectual? A resposta está em Orwell. Mais do que nunca, a precisão formal e a clareza moral serão necessárias para anular as “narrativas”. Não, apontar o dedo aos rolinhos de notas que Sócrates recebeu de um amigo construtor que enriqueceu durante a governação do PS não é uma “violação da vida privada”.

VIOLÊNCIA Dentro desta novilíngua, a violência levada a cabo por forças de esquerda nunca será considerada “violência”. Cada ato de violência da esquerda é sempre um “ato de revolta”. Esta é a terceira lei de ferro da história: não há frentes de esquerda sem recurso à violência, que é desculpada, contextualizada, legitimada. Mas, nos próximos meses, o pior não será o ocasional pico de violência aqui e ali, mas sim o constante clima de tensão. As frentes de esquerda transformam a democracia num caldeirão fervente. A democracia não é isto, não é vivermos em suspenso, não é lermos os jornais de punho cerrado, não é ouvirmos discursos a ranger dentes, não é irmos para a cama sem sabermos se haverá governo de manhã, não é sonharmos com sopapos na reação ou na revolução.

FRAUDE No oitavo círculo, Dante começa a entrar na parte gelada e central do inferno. Porque é que o centro do inferno é gelado? Porque os pecados que discutimos até aqui resultam da inconsciência ou da incontinência, e não da premeditação. São pecados quentes. O cenário muda de figura quando Dante encontra a fraude ou falsificação do cínico, que é um ser racional e frio. Não, António Costa não vai arder na gula ou ganância. Vai, isso sim, congelar na fraude. Costa não é Corbyn. O inglês virou à esquerda por convicção, os seus pecados estão em zonas mais superficiais e cálidas — são pecados de quem acredita mesmo no esquerdismo. Costa não acredita. Costa não acredita em nada, guinou à esquerda porque precisa da extrema-esquerda para sobreviver. Costa é uma máquina gelada e fraudulenta, não é um ser visceral e quente. E repare-se que o conceito de fraude de Dante é particularmente acertado para o momento que estamos a viver em Portugal: os jogos florentinos corroem a confiança cívica, minam o chão comum da república, são a antecâmara do maior dos pecados.

TRAIÇÃO Entramos assim no nono e último círculo dominado pelo rio gelado, o Cocito. Devemos olhar sobretudo para a Antenora, a secção dos traidores políticos: é aqui que está António Costa, o homem que traiu o regime, o PS, o soarismo, as regras de convivência entre PS e direita e, acima de tudo, a própria Esquerda. Depois desta demonstração de cinismo florentino, nunca mais a esquerda portuguesa poderá invocar qualquer presunção de superioridade moral. Quem é cínico a este ponto não tem direito ao idealismo, quem é cínico à Frank Underwood não tem direito aos pecados leves dos primeiros círculos, quem é profissional do cinismo está mesmo condenado a ficar preso no glaciar gelado ao lado de Brutus e Lúcifer. Como é que vamos sobreviver a este Ártico amoral? Mais do que nunca, será preciso resgatar um pensamento institucional. Devemos mudar a lei eleitoral no sentido de facilitar a obtenção de maiorias absolutas? Devemos dar mais poder ao Presidente? Estas e outras mudanças técnicas serão necessárias a jusante, sem dúvida, mas a montante julgo que a base da sobrevivência está numa atitude moral: recusar cair na ira.

IRA O leitor mais atento terá percebido que saltei do quarto (ganância) para o sexto círculo (heresia), deixando para trás o quinto, a ira. Não foi por acaso. A ira é o pecado do próprio Dante. Natural da velha Florença, Dante Alighieri (um guelfo branco) foi expulso da cidade-estado e, nas águas vaporosas do rio Styx, reencontra Filippo Argenti (um guelfo negro), um dos homens que forçou o seu exílio. Não contém a raiva: “Con piangere e con luto, spirito maledetto, ti rimani; ch’i’ ti conosco, ancor sie lordo tutto.” Logo ali, Virgílio, mestre e cicerone da viagem, faz um reparo à ira do discípulo: “Alma sdegnosa.”

O pecado de Dante é também o meu pecado e, estou certo, da maioria das pessoas que se colocam à direita do espectro político. Sim, a revolta em relação ao golpe florentino de Costa é mais do que justificada. Sim, a direita está a ser humilhada pela corte vermelha de Lisboa. Sim, um bloco político que chega facilmente aos 50% do eleitorado e que historicamente controla as zonas mais populosas e industriosas do país está a ser achincalhado pelos jogos florentinos de Costa e dos califas Catarina e Jerónimo. No entanto, há que resistir à tentação da ira. Já vi e ouvi muitos amigos a pedir manifestações de rua, já ouvi apelos a uma invasão (pacífica) de Lisboa. Que o Norte desça sobre Lisboa! Percebo estes impulsos, porque também os sinto, já me imaginei na rua a distribuir murros propedêuticos no califado de Jerónimo. Mas este não é o caminho. Se queremos sobreviver à fraudulenta frente de esquerda, temos de manter a dignidade moral, temos de evitar o odor narcótico da ira. Sentir a ira sabe bem, reconforta-nos. Há que evitar essa sensação justiceira, porque seremos iguais aos frentistas no dia em que molharmos um dedo do pé nas águas sulfúricas do rio Styx. A revolta não deve sair à rua, a revolta deve ser canalizada para as instituições, para um pedido urgente de eleições antecipadas. Há que evitar cair no estado de emergência político, há que continuar a pensar e escrever sobre a essência da vida (os livros, a música, as memórias pessoais e familiares, a fé, o futebol, os filmes, os filhos, o bairro, a dose certa de política) e, acima de tudo, há que recusar entrar numa linguagem simétrica à linguagem do frentismo. Por exemplo, debaixo do manto reconfortante da ira, eu poderia apelidar os meus adversários de “comunas”, entrando assim numa lógica de desumanização em tudo semelhante à da esquerda. Há que deixar a incontinência verbal para o frentismo.

Se entrasse no caminho da ira, eu estaria a levar demasiado a sério as minhas posições políticas. É por isso que este texto, apesar de ser sério, não deixa de ser uma paródia. É uma paródia à esquerda, mas também é uma paródia à minha indignação. O meu dever é filtrar a ira, elevando-a até à ironia. Nas épocas quentes, este filtro é quase tudo. A autoironia é o único antídoto contra o ódio, é a primeira linha de defesa da sociedade civilizada, é aquilo que trava o desejo ancestral de apertar pescoços em 25 de Novembros reconfortantes.

  • Ou António Costa é um génio político e submete os parceiros à sua imponderável vontade ou caminhamos para a mais grave crise de regime depois do 25 de Abril