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O último adeus ao embaixador Paulouro das Neves

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O ex-Presidente Jorge Sampaio com o embaixador José Paulouro das Neves, falecido a 13 de novembro de 2015

Antonio Pedro Ferreira

Grande diplomata e excelente escritor, teve um momento de glória quando Jorge Sampaio discursou em Paris na Assembleia Nacional. Unânimes, deputados e senadores aplaudiram de pé o discurso, escrito todo ele por Paulouro das Neves

“O Paulouro das Neves era um dos diplomatas que melhor escrevia nas Necessidades, com uma grande facilidade, clareza e espírito didáctico”, comentou o colega António Monteiro, que foi ministro dos Negócios Estrangeiros do governo de Santana Lopes. No seu blogue, o embaixador Seixas da Costa, que pertenceu aos governos de António Guterres, considerou-o “um dos mais brilhantes diplomatas portugueses das últimas décadas”, para além de “um grande homem de bem e de carácter”.

Um dos irmãos, Fernando Paulouro das Neves, uma vida inteira ligada ao ‘Jornal do Fundão’, escreveu: “Penso que o diplomata obscureceu o escritor, mas lembro artigos notáveis que escreveu no Jornal do Fundão, muitos com pseudónimos para fugir à bestealidade da censura”. O jornalista Alexandre Manuel recorda o comentário de António Paulouro, o fundador do mesmo jornal, quando soube que o sobrinho José César se abalançara na carreira diplomática: “Não sei se se ganha um bom embaixador, mas sei que se perde um grande escritor.”

A discrição era outra das suas características mais marcantes. “Trabalhei com ele vários anos no Palácio de Belém e nunca lhe ouvi uma intervenção em que procurasse autoafirmar-se”, afirmou Acácio Catarino, consultor, tal como Paulouro, do Presidente Jorge Sampaio.

Manifesto contra Salazar

José César Pauloro das Neves nasceu a 21 de Outubro de 1937, no Fundão. Licenciou-se em Direito em Coimbra, onde se iniciou num combate sempre discreto mas firme contra a ditadura. Em Maio de 1959 foi um dos 402 estudantes, das três academias, que subscreveram um manifesto dirigido a Salazar, pedindo a sua demissão. Endereçado não ao Presidente do Conselho mas ao “Professor Doutor António de Oliveira Salazar”, sugeria o seu “afastamento da vida pública, por ocasião do 70º aniversário, como condição primeira da resolução do problema político nacional, capaz de contribuir duma forma significativa para a pacificação da Família Portuguesa”. Em Abril de 1960 foi eleito para a Assembleia Magna da AAC, numa lista de oposição à ditadura, liderada por Carlos Candal – a primeira desde 1944, quando Salgado Zenha fora eleito presidente.

Entrado no Ministério dos Negócios Estrangeiros, o primeiro posto no estrangeiro, entre 1968 e 1973, foi Tóquio. Ao todo, esteve 21 anos fora do país, com passagem pelas embaixadas de Brasília, Maputo, Madrid, Paris e Roma. Na REPER, em Bruxelas, esteve cinco anos, que considerava “os mais difíceis e os mais completos” – para todos os efeitos, a sua “experiência mais importante no plano profissional”. “Quando eu estava em Brasília, no tempo do PREC, aprendi com o embaixador Futscher Pereira que um diplomata tem o dever de dizer a verdade sem ofender as autoridades do país onde está, e dizer a verdade ao Governo do seu país correndo o risco de o ofender” – afirmou numa entrevista ao Jornal do Fundão.

Governos de Pintasilgo e Balsemão, programa da FRS

Nas Necessidades, foi quem montou, depois da descolonização, os serviços de África. No VIII Governo Constitucional, de Pinto Balsemão, chefiou o gabinete do ministro dos Estrangeiros, Vasco Futscher Pereira. Antes, fora assessor diplomático de Maria de Lurdes Pintasilgo, a primeira-ministra do V Governo. De permeio, e a pedido de Jorge Sampaio, dera um contributo decisivo na elaboração do programa de política externa da Frente Republicana e Socialista, FRS – que viria a perder as eleições de 1980 para a Aliança Democrática.

O último posto foi Roma. Em 2003, quando completou 65 anos e teve de deixar a carreira, o Presidente da República chamou-o para consultor. “O Sampaio tinha passado pelo Instituto Universitário Europeu de Florença e dissera-me que, quando deixasse de ser embaixador, gostava de contar comigo. O que fiz com muito gosto” – afirmou ao autor, numa entrevista. Da mesma geração de Sampaio, mas um ano mais velho, haviam-se conhecido há quatro décadas, na crise académica de 1961. Amigos desde então, com uma relação de grande confiança mútua, apesar disso nunca se trataram por tu.

Consultor de Sampaio na cimeira das Lajes

“Fui consultor da Casa Civil como uma espécie de líbero para os assuntos diplomáticos. Tinha uma relação directa com o Presidente e procurei nunca me meter no trabalho da assessoria diplomática. Ia a Belém todos os dias, onde tinha um gabinete.”

Um dos momentos mais intensos em Belém foi a cimeira das Lajes, juntando George W. Bush, Tony Blair, José Maria Aznar e Durão Barroso. “Foi uma surpresa para toda a gente, inclusivamente para o Presidente, que só foi avisado à última da hora. Ficou francamente incomodado com a forma como tudo se tinha passado. Sampaio travou até onde pôde” a participação de Portugal na invasão do Iraque. “Defendeu a teoria dos serviços mínimos e pôs em prática esse conceito.”

A única viagem ao estrangeiro em que aceitou acompanhar o Presidente foi ao Japão. “Ele insistiu sempre para que eu fosse, mas eu não tinha pachorra. Disse quase sempre que não. Só fui ao Japão, porque fora o meu primeiro posto no exterior e nunca mais lá voltara.” O programa incluiu a exposição universal de Ngoya e um encontro com o Presidente Lula da Silva, também em visita ao Japão. “Assisti a essa audiência, muito amistosa. O Lula estava elegantíssimo e fiz a mim próprio a pergunta: onde estará aqui o antigo operário metalúrgico? Foi no hotel Imperial, construído pelo arquitecto americano Frank Lloyd Wright.”

Um vinho do Porto de 1937 para Lionel Jospin

A França e muito especial Paris marcaram a fase final da carreira de Paulouro – como todos o conheciam. Em Belém já estava Sampaio. Em 1996, acompanhou o Presidente quando se deslocou a Paris para as comemorações do 150° aniversário do nascimento de Eça de Queiroz, que fora cônsul na capital francesa. Os dois visitaram a casa onde Eça viveu, em Neuilly-sur-Seine, e onde escreveu algumas das melhores páginas da ficção portuguesa. Ao acto associou-se o então maire de Neuilly, Nicolas Sarkozy – futuro Presidente de França. Para o jantar na embaixada, Paulouro convidou a nata do socialismo francês: Laurent Fabius, Lionel Jospin, Michel Roccard, mas também intelectuais como o filósofo Jacques Derrida e o escritor espanhol Jorge Semprún. Mais tarde, organizou um jantar de Sampaio com o primeiro-ministro socialista Lionel Jospin. “Servi um vinho do Porto do ano em que o Jospin e eu nascemos, 1937, mas infelizmente já não estava grande coisa. Claro que não lhe disse isso.”

Aquando da visita de Estado a França, em 2005, Sampaio instou o amigo e consultor a acompanhá-lo. “Recusei, porque acho que não se deve ir duas vezes ao sítio em que se foi feliz.” Na Assembleia Nacional, perante o Senado e o Parlamento reunidos, Sampaio fez o que o próprio considera “um dos melhores discursos dos dois mandatos”. O autor foi Paulouro das Neves. “Ele foi o ‘ghost writer’ ideal para esse discurso” – escreveu Sampaio, no prefácio do livro de Paulouro “Rituais de entendimento. Teoria e prática diplomáticas”. “Preparou uma primeira versão - e única, tanto quanto me lembro -, que adoptei desde a primeira hora e que, tão emocionadamente, li na Assembleia Nacional francesa. Palavras que foram aplaudidas de pé ‘toutes tendances confondues’. Foi um dia único e irrepetível, e o autor ficará para sempre associado a esse momento.”

Terminada a experiência em Belém e reformado da diplomacia activa, Paulouro das Neves dedicou-se ao ensino universitário na área das relações internacionais. Em 2011 publicou um excelente livro sobre diplomacia, a que deu o título “Rituais de entendimento - teoria e prática diplomáticas”.

Em 2013 foi-lhe detectado um linfoma, que lhe acarretou graves problemas de saúde – mas de que conseguiu recuperar. No final do Verão manifestaram-se novos sintomas, que obrigaram a uma delicada cirurgia. Faleceu no passado dia 13.