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PSD e CDS já têm guião para eleições antecipadas

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luís barra

Direita prepara oposição de combate: “É preciso que as pessoas não esqueçam o que eles fizeram.” Quanto tempo aguentará à espera?

Filipe Santos Costa

Filipe Santos Costa

Jornalista da secção Política

Frustrada a expectativa de Passos e Portas para seguirem sem sobressaltos uma segunda legislatura que se sentiam politicamente legitimados a viver, PSD e CDS preparam-se para uma travessia de oposição assente numa máxima: “É preciso que as pessoas não esqueçam o que eles fizeram.” O guião da coligação passa por insistir na marca de ilegitimidade de um Governo do PS que venha a tomar posse com um apoio de esquerda que rotulam como frágil e incerto. E o discurso que Passos Coelho fez na quinta-feira a pedir eleições antecipadas e a disponibilizar-se para uma revisão constitucional relâmpago que as permita já, encaixa neste objetivo: “Aumentar a pressão sobre o acordo das esquerdas e deixar bem a marca da ilegitimidade” da solução que Costa levou a Cavaco.

Passos não terá grandes dúvidas de que o desfecho mais provável deste compasso será a posse de António Costa. E jogou na radicalização, convicto de que, além de ela ser essencial para alimentar o ego partidário, permite-lhe manter a chama numa caminhada que antecipam conduzir, inevitavelmente, a uma crise e eleições antecipadas. “Se não for por razões políticas, será por razões económicas. Isto vai rebentar e haverá eleições”, afirma fonte próxima do PM. “A dúvida é quanto tempo aguenta a geringonça”, ironiza um dirigente do PSD, inspirado no nome que Portas colou ao entendimento das esquerdas.

É nesta dúvida — quanto tempo terão que esperar — que radica uma divergência estratégica, ainda incipiente mas que ameaça crescer, pelo menos no PSD. A saber: se Passos deve continuar a radicalizar o discurso ao ponto de se recusar a dar a mão a um Governo do PS para aprovar matérias com que esteja de acordo, ou se deve ser fiel à sua máxima de sempre, segundo a qual o interesse nacional deve sobrepor-se ao interesse partidário. “Se em algum momento houver um corte ou um imposto que se justifique para cumprir metas europeias, e se o PS não puder contar com o PCP, o que deve fazer o PSD?”, pergunta um influente social-democrata. Não está isolado. Alguns dos que foram criticando o atual líder por esquecer a matriz social-democrata do partido, anteveem uma discussão interna, a prazo, em torno da questão.

Mas na direção do partido, embora admitam que “poderá haver momentos críticos”, acham que “valerá a pena correr o risco”. Com uma preocupação bem presente: não hipotecar o centro, que Costa, mais colado à esquerda, se arrisca a desguarnecer.

“Não perdemos o centro e temos que mostrar que estamos no centro responsável”, insiste fonte próxima de Passos, com o olho posto na antecipação das eleições. “Neste momento, o que era expectável era alguma conciliação entre nós e o PS. Mas isso não vai ser possível tão cedo. O PS vai ter que se confrontar internamente.” Ou seja, nada feito sem haver eleições que Costa perca e que abra a guerra da sua sucessão a um líder mais moderado. Saber se o PSD deve, nessa altura, ir sozinho a votos ou coligado é outra questão que fica para mais tarde.

Para já, Passos e Portas continuarão juntos, no Parlamento, a demolir a “geringonça ilegítima”, e sem estenderem a mão a Costa. “Não venha depois pedir socorro”, avisou Portas. Passos confirmou: o que Costa arranjar à esquerda, mesmo sendo pouco, “terá de ser suficiente”. “Se o PS chegar à conclusão que não tem condições para governar com os parceiros que escolheu, demita-se. É simples”, diz um responsável do CDS.

Nas votações na AR, estarão livres para apoiar tudo aquilo com que concordarem, desde que disso não dependa a sobrevivência de Costa. “Isto é o que é importante dizer agora, para que o PS não tenha a tentação de fazer chantagem. Depois, usaremos a nossa liberdade como entendermos”, diz um ministro. E poderão jogar com essa liberdade para ajudar a decidir qual o momento melhor para partir a corda. Passos disse-o no discurso em que pediu eleições já, quando avisou os jornalistas que não vale a pena perguntarem como irão PSD e CDS votar, porque votarão “de acordo com a sua consciência”.