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Mariana Mortágua: BE preferia assinar um acordo único à esquerda

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A deputada bloquista responde aos críticos do acordo à esquerda

Marcos Borga

“Ninguém está disposto a roer a corda”, afirma a deputada bloquista em entrevista à edição desta sexta-feira do “Público”. Quanto às críticas da direita, Mortágua deixa um aviso: “Isto não é o PREC”

“Entendam-se!”: este era o apelo que Mariana Mortágua ouvia na rua, numa demonstração da “grande preocupação das pessoas de esquerda”. Fez-lhes a vontade. Com um Governo de direita caído e um Executivo socialista apoiado por Bloco de Esquerda, PCP e “Os Verdes”, a deputada bloquista dá garantias sobre o entendimento à esquerda: “Qualquer pessoa que leia este acordo pode ficar descansada”.

Em entrevista à edição desta sexta-feira do jornal “Público”, Mariana Mortágua revela que o Bloco de Esquerda teria preferido que fosse assinado “um texto único” entre os partidos de esquerda, em vez da opção que acabou por ser tomada no sentido de serem assinados três acordos diferentes entre PS e os partidos à sua esquerda. No entanto, este aspeto não desanima a deputada: “Houve um grande consenso sobre o que se pretendia com este acordo” e, como tal, todos os partidos envolvidos “sabem ao que vão”.

Questionada sobre os termos do acordo, Mortágua esclarece que, “ao contrário do que dizem”, o objetivo não era apenas “derrubar a direita” mas formular um entendimento para “travar o empobrecimento”. A deputada recorre a palavras do vice-primeiro-ministro demissionário para negar estas acusações: “ [Paulo Portas] Dizia que, por não ser uma coligação, não apresentava garantias de solidez. Depois, logo a seguir, disse que esta é uma coligação radical. Sobre este acordo é dito tudo e o contrário, numa tentativa de o descredibilizar”.

Em relação ao motivo pelo qual o entendimento à esquerda não se concretizou numa coligação, a deputada é direta: aquilo que não permite uma coligação são as já conhecidas divergências no que toca “a questões europeias, ao Tratado Orçamental e à dívida”. No entanto, Mortágua esclarece que “ninguém quer trazer instabilidade ao país”: “todos queremos uma solução duradoura”.

Uma das maiores críticas que tem surgido sobre o acordo à esquerda é relativa aos gastos que as novas medidas acarretam. Mariana Mortágua “ainda não fez as contas ao saldo final do acordo” e garante que para fazer com que as contas batessem certo foi necessária “alguma criatividade”.

Aviso para Cavaco: Governo de gestão desrespeita o Parlamento

Numa altura em que as grandes decisões estão nas mãos do Presidente da República, que pode optar por empossar Costa como primeiro-ministro, deixar o atual Executivo em funções de gestão ou nomear um Governo por sua iniciativa, Mortágua avisa que preferir um Governo de gestão seria “um desrespeito demasiado visível, até escabroso, pela maioria parlamentar”. Segundo ela, nesse caso Cavaco Silva estaria a condenar o Executivo a “uma maioria contrária” constante.

Ainda há tempo para falar dos riscos que um acordo inédito como este pode trazer. Mortágua garante não se sentir “um milímetro diminuída nos meus deveres por ter um acordo com o PS”, agora que está empenhada num entendimento em que “ninguém está disposto a roer a corda”.

No final da entrevista, uma farpa à direita: “O discurso do medo existe”, sublinha a deputada, recordando que “isto não é o PREC”.