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Imprensa europeia. Acordo “histórico” da esquerda merece poucas capas

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De Espanha à Alemanha, são poucos os jornais que escolhem dar destaque ao derrube do Governo português. Uma coisa é certa: todos estão expectantes com o resultado da aliança à esquerda

A queda do breve Governo de Passos e Portas fez correr muita tinta nos jornais portugueses ao longo desta terça-feira. No entanto, no resto da Europa a história é outra: o acontecimento não mereceu muitas capas, contando maioritariamente com notícias mais curtas e de pouco destaque.

No caso de Espanha, que destaca sobretudo o processo de independência da Catalunha, nem na secção Internacional dos diversos jornais Portugal ganha espaço, uma vez que o maior destaque vai para as exigências de David Cameron quanto à permanência do Reino Unido na União Europeia. O jornal "El País" escolhe a situação política portuguesa para um pequeno destaque na primeira página, intitulado "Esquerda portuguesa acaba com o Governo conservador", e recorda que os partidos que deitaram abaixo o Executivo se comprometem a respeitar os compromissos europeus.

No diário "El Mundo", Portugal não chega à primeira página, contando a situação governativa portuguesa com uma notícia na página 18 que realça o discurso "intenso" de Costa e o momento "histórico" que se vive em terras lusas.

No caso de dois dos jornais mais conotados com a direita no país vizinho, o "ABC" e o "La Razón", ambos salientam que o Governo de Passos foi derrubado pela "esquerda radical" e referem o período de instabilidade que se avizinha. O correspondente do "ABC" em Portugal afirma mesmo que "a qualquer momento, [o BE e o PCP] poderiam voltar às andanças anti-europeias".

Imprensa alemã dá pouco destaque ao caso português

No país de Merkel, as capas são dominadas pela morte do antigo chanceler alemão Helmut Schimdt, mas Portugal ainda ganha algum espaço nas páginas dos principais jornais. O "Die Welt" publica um texto intitulado "Oposição de esquerda derruba Governo português de centro-direita" e acompanhado por uma fotografia do aperto de mão entre Passos e Costa. No caso do "Bild", o jornal de maior circulação em terras alemãs, salienta-se que na capa que "a oposição de partidos de esquerda derrubou o Governo de centro-direita de Passos Coelho através de uma moção de censura".

Já o diário mais conotado com a esquerda, o "Die Tageszeitung", faz o título "Governo de centro direita derrubado", escolhendo salientar dentro do texto que "os partidos de esquerda querem apoiar o líder dos socialistas no futuro".

Jornais britânicos comparam Portugal e Grécia

A imprensa britânica não dá primeiras capas ao derrube do Governo português, mas adjetiva o acordo da esquerda como "sem precedentes", "histórica" e "improvável". O jornal "The Guardian" sublinha a ligação do "radical" Bloco de Esquerda, "ao partido anti-austeridade da Grécia, Syriza". No entanto, o mesmo jornal recorda que o PS desempenhará o papel principal na próxima legislatura, se chegar ao Governo.

O "Daily Telegraph", que fala de uma aliança "histórica" à esquerda, também refere os efeitos europeus da queda do Governo, sublinhando falando de um possível confronto entre a esquerda portuguesa e a União Europeia. O diário relembra que "a economia mantém-se sobrecarregada com a maior dívida na Europa". E vai mais longe: na mesma linha do "The Guardian", o jornal afirma que caso Cavaco Silva seja "forçado a fazer uma inversão de marcha dramática" e indigite António Costa como primeiro-ministro, "Portugal juntar-se-ia à Grécia e tornar-se-ia na segunda economia do sul da zona euro com forças da extrema-esquerda no poder".

O "Daily Mail" também fala das consequências da situação portuguesa na Europa, considerando que "a queda do Governo foi uma derrota política para a estratégia de austeridade da zona euro de 19 países, que exigiu reformas económicas a Portugal após o resgate, que foram reflectidas nas políticas rejeitadas".

Já o "The Times" mantém-se na mesma linha do resto da imprensa britânica, lembrando que "alguns receiam que possa ir pelo mesmo caminho que a Grécia, que precisou de três resgates desde 2010" e destacando o papel de Catarina Martins, a líder bloquista, na aliança da esquerda.

Media franceses falam do respeito pelos compromissos europeus

Também no caso de França, mais do que uma publicação foca as atenções no respeito dos compromissos europeus por um Governo PS com apoio dos partidos à sua esquerda. O "Le Monde" refere que "para tranquilizar as chancelarias europeias, o PS prometeu que o objetivo da redução dos défices fixado por Bruxelas será respeitado".

Já o "Le Parisien" escolhe destacar que "António Costa garantiu varias vezes que o apoio da esquerda antiliberal, muito crítica contra a União Europeia e as suas regras orçamentais, não porá em causa o respeito dos compromissos internacionais de Portugal". E o jornal económico "Les Echos" sublinha a "agitação dos mercados" motivada pela "chegada da esquerda ao poder" e adianta que "analistas de Commerzbank pensam que são prováveis eleições antecipadas em 2016".

O "Le Figaro" e o "Libération" falam dos comunistas e dos bloquistas como "a esquerda radical" que permite que o PS tenha aspirações a chegar ao poder. Para o "Le Figaro", uma consequência da "recusa" de António Costa em "reconhecer a sua derrota nas recentes eleições".

[Texto atualizado às 10h15]