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PS, Bloco e PCP. A “geringonça” anda ou não anda?

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Marcos Borga

Um dia depois da moção de rejeição, já se pode olhar com mais calma para o que seria inimaginável há poucas semanas. O acordo à esquerda apresenta imensos riscos para o PS. Mas, mesmo ficando de fora do governo, o Bloco de Esquerda também arrisca muito. E o PCP muito mais. Tudo depende do que acontece a seguir e, claro, de como acaba. A análise de Ricardo Costa, diretor do Expresso

Ricardo Costa

Ricardo Costa

Diretor de Informação da SIC

O nosso sistema político não mudou nas últimas semanas, mas está a ser testado nos seus limites. Curiosamente, esses testes sucessivos não decorreram de uma profunda alteração do sistema partidário, como acontece em muitos países europeus, mas com os mesmíssimos partidos.

A primeira alteração quase não se notou porque assentou na coligação pré-eleitoral entre PSD e CDS. Apesar de ser e parecer natural, não acontecia antes de eleições desde 1980. E não era por acaso: o PSD precisava de ganhar espaço e lutar por maiorias e o CDS de marcar o seu espaço vital, mais à direita. Paulo Portas governou com Duão Barroso, mas antes foi a votos sozinho; e depois de governar com Santana Lopes, continuou o seu caminho separado do PSD.

Esta quase fusão de todo o centro-direita acabou por abrir caminho, sem o saber nem imaginar, a uma alteração sistémica protagonizada pelo PS e por uma inesperada abertura do Bloco e, sobretudo, do PCP. Já se disse tudo sobre a surpreendente viragem do PS. A começar, porque partiu de uma derrota que lhe retirou a imediata legitimidade política que todos os vencedores adquirem. Depois, porque foi num sentido contrário ao que o PS sempre trilhou quando tentou governar em minoria ou em coligação. Por último, pelos enormes riscos que comporta. Mas aí o PS não está sozinho, os riscos dos outros partidos envolvidos não são pequenos.

As vantagens e os riscos do PS

O PS tem sido o partido mais analisado nestas semanas. Derrotado de forma clara nas eleições, recusou apoiar o governo PSD-CDS e iniciou negociações com todos os partidos. Cedo se percebeu que as negociações à direita eram pouco mais que uma formalidade a cumprir. Quando a direção do PS se sentou com Pedro Passos Coelho e Paulo Portas, o caminho à esquerda já estava aberto. Aliás, hoje é relativamente óbvio que alguns sinais e conversas terão mesmo existido antes das eleições.

A única vantagem do PS passa por chegar ao governo e tentar aplicar medidas em que acredita, nem mais nem menos do que isso. Fazer isso a partir de uma derrota é incrivelmente arriscado, não por razões internas ao partido – que está à espera de ver o que acontece –, mas por um ambiente de hostilidade que sempre existirá em relação a um partido que governa depois de ter perdido nas urnas.

É por isso que, ao contrário de Passos e Portas, António Costa precisa de tempo. PSD e CDS não se importariam de ir a votos o mais cedo possível; o PS precisa de ir o mais tarde que consiga. Precisa de aplicar as medidas em que acredita e esperar que tenham efeito na vida dos portugueses. Além das várias condicionantes económicas nacionais, o PS precisa de ter muita sorte nas condições internacionais. Qualquer espirro das agências de rating ou mudança de política dos principais bancos centrais (BCE, Fed, Banco de Inglaterra, etc) pode ter um efeito nos juros, que dão cabo da gestão da dívida pública. E isso poria em causa aquilo que hoje parece certo: a não oposição de Bloco de Esquerda e PCP. Tudo porque obrigaria a profundas alterações orçamentais que ninguém acredita que os dois partidos mais à esquerda conseguissem suportar.

Esse é o enorme risco que o PS corre. Se este governo não durar, cai às mãos dos partidos à sua esquerda e arrisca-se a ficar sem identidade. O seu eleitorado mais de centro pode cair para o PSD e o seu lado esquerdo pode ser tomado pelo Bloco. O PS precisa do poder para convencer os portugueses que é possível governar com menos austeridade, mas precisa de convencer os eleitores surpreendidos de que tudo isto faz sentido. Precisa de tempo, de sorte e (muita) compreensão. O Bloco e o PCP deram-lhe, para já, tempo. O resto logo se vê.

As vantagens e os riscos do Bloco

Vindo de um grande resultado, o Bloco está a aproveitar o ‘seu’ momento para mostrar que mudou e que já não é apenas um partido de protesto. Essa mudança é absolutamente histórica, apesar de ter ficado de fora do governo. Basta ver as últimas entrevistas e declarações de Catarina Martins para vermos como está muito mais pragmática.

Mesmo sem entrar no executivo, este momento é para o Bloco parecido ao que viveram os Verdes alemães quando se juntaram ao SPD para governar a Alemanha. O teste da realidade deu enorme maturidade aos Verdes germânicos, mas levou a uma cisão insanável com a ala mais ‘pura’. De fora, o risco é sempre menor, mas o Bloco sabe que não pode deitar o governo abaixo na primeira curva. E os problemas vão, inevitavelmente, surgir quando o que está acordado no documento técnico e no cenário macroeconómico começar a produzir resultados diferentes. Aí, tudo terá que ser calibrado e será muito mais difícil do que foi agora.

O Bloco junta vários partidos e correntes. A parte mais organizada é a UDP, mas as estrelas das últimas legislativas são de outra corrente. Catarina Martins ultrapassou de forma brilhante os tempos em que a sua candidatura foi desafiada pela UDP – e foi há menos de um ano, por Pedro Filipe Soares -, mas agora está a jogar alto. Ela também precisa que tudo isto corra bem. Não precisa de tanto tempo como o PS, mas precisa de algum tempo e que muita coisa corra bem. Qualquer tropeção orçamental sério será um enorme desafio para o Bloco, que além de ter um olho em cima do PS, terá que ter o outro sempre posto no PCP.

As vantagens e os riscos do PCP

O partido que mais mudou em todo este processo foi o PCP. É verdade que o PS guinou à esquerda e que o Bloco saiu da zona de protesto, mas o PCP deu o passo mais estrutural desde o 25 de Abril. É certo que apoiar Mário Soares em 1986 foi muito mais violento e simbólico para o eleitorado do PCP, mas isso foi um pedido sem exemplo, que se consumava num só gesto. Agora, não se trata de pedir nada a ninguém, trata-se de colocar os deputados do PCP numa posição de apoio declarado de um governo PS. E isso é uma mudança brutal.

O PCP nunca votou a favor de nenhum Orçamento. E agora terá que o fazer. Não lhe basta a abstenção, precisa mesmo de votar. Isso é um desafio histórico, porque o partido é dogmático, tem uma ideologia muito bem definida e um sentido da História apurado que não obedece nem a desvios nem a queimar etapas. Não foi por acaso que assitimos a tanto cuidado na formulação dos textos do PCP no passado fim de semana ou na assinatura dos acordos na terça-feira. O PCP só quer (e só pode) dar o apoio mínimo. O PCP sabe muito bem que os partidos comunistas nunca ganharam grande coisa em aliar-se a partidos socialistas.

O que fez mudar o PCP? A resposta é, apesar de tudo, fácil. Tal como o Bloco, o PCP acha que o Estado Social seria totalmente “destruído” por um segundo governo PSD–CDS. E quer travar esse processo. Além disso, e de uma forma diferente do Bloco, o PCP precisa que os sindicatos não deixem de ter importância, que a contratação coletiva não acabe de vez e que os transportes públicos não sejam todos privatizados. E isso permitiu-lhe dar um salto que nunca esteve previsto em nenhuma das teses do partido nem foi discutido nos seus congressos.

Para um partido marxista é uma mudança histórica. É uma mudança tática, mas histórica, porque não é circunstancial nem ocorre ao nível de uma autarquia. O segredo da força do PCP está na sua identidade e solidez teórica. O PCP, toda a gente sabe, cumpre o que diz e não deixa transparecer divisões internas, mesmo quando, como neste caso, existiram e existem. É por isso que demorou tanto a fechar um texto político.

E a geringonça anda?

Se para o Bloco, as questões técnicas eram as mais difíceis, para o PCP eram as políticas. O que faz sentido. O que um tem de ação, o outro tem de solidez teórica. O PS não tem nem uma coisa nem outra, é um partido de poder, maleável e adaptável. Mas agora tem nas mãos uma carta de alforria que lhe permite andar um pouco, mas por um caminho estreito. São tempos novos, com grandes vantagens para os partidos envolvidos, mas também com riscos difíceis de calcular, sobretudo os que decorrem da nossa fragilidade económica e da extrema dependência de financiamento externo.

O que mais cola os três partidos, a partir de agora, é o medo de deitar tudo a perder. Quem puxar o tapete sabe que terá que arcar com as culpas. Na história e na diplomcia houve alianças que perduraram pelo medo de as deitar abaixo e pelas consequências da queda. Num governo isso é menos habitual. Paulo Portas chamou ao acordo de esquerdas uma "geringonça", citando Vasco Pulido Valente. Mas Portas sabe que as geringonças andam. São desconjuntadas e pouco sólidas, mas fazem com calma a primeira parte do caminho. A questão está no que acontece nesses primeiros quilómetros. Ou acentua as fragilidades ou vai fazendo o seu caminho. E aí, nunca se sabe, porque a geringonça pode acabar por ser outra coisa, tão inesperada como aquilo que temos visto nas últimas semanas.