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Há um elefante no meio do Plenário. E chama-se legitimidade

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Marcos Borga

BE e PCP não se aplaudem um ao outro, mas coincidem nos argumentos: a coligação “perdeu” as eleições, as esquerdas ganharam

Filipe Santos Costa

Filipe Santos Costa

Jornalista da secção Política

Os aplausos à esquerda ainda têm uma lógica de trupe – socialistas, bloquistas e comunistas não se aplaudem uns aos outros, apenas aos seus – mas os guiões são comuns. Viu-se esta manhã no arranque do segundo dia de debate do programa de Governo. O Bloco e o PCP falaram essencialmente da mesma coisa e com os mesmos argumentos: quem tem legitimidade para governar é o elefante no meio da sala do Plenário da Assembleia da República.

Para os líderes parlamentares Pedro Filipe Soares, do BE, e João Oliveira, do PCP, as contas são claras – tal como dizia esta segunda-feira o socialista Carlos César, a coligação perdeu as eleições e a esquerda ganhou. Mais nada. Se a direita tem colocado todo o debate no terreno da legitimidade, a esquerda foi a jogo.

“Há muito que o Governo não tinha legitimidade”

“A derrota eleitoral do PSD-CDS, com o fim da sua maioria absoluta em resultado da perda de 700 mil votos e 25 deputados, foi a confirmação eleitoral de que há muito que este era um Governo derrotado”, disse João Oliveira, indo mesmo ao ponto de afirmar que “há muito que o Governo PSD-CDS era um Governo sem legitimidade”, por “violar compromissos eleitorais” e “governar contra o povo”.

Na linha do que havia dito antes o bloquista Pedro Filipe Soares, João Oliveira repisou a ideia de que as eleições não foram para escolher primeiro-ministro, mas para medir a correlação de forças no Parlamento. “Ideia falsa”, acusou o comunista, essa de que PSD e CDS “ganharam as eleições porque se tratava de eleger um primeiro-ministro”. Assim como é “falsa” a ideia de que “só um Governo PSD-CDS é legítimo e qualquer outra solução governativa é ilegítima”.

Pedro Filipe Soares resumiu essa ideia num soundbite: “O arco que tanto embandeiram, o arco da governação, foi substituído pelo arco da Constituição” – e é a Constituição que confere a legitimidade ao acordo que será assinado pelas esquerdas à hora do almoço.

As contas feitas à direita são outras, e metem números mas também história e tradição. Mesmo que seja um diálogo de surdos – e o ambiente no Parlamento é de cortar à faca –, e mesmo que o Governo de Passos tenha as horas contadas, a coligação tem o consolo de ter delimitado o terreno do debate. Era de legitimidade e ilegitimidade que a direita queria falar. E em boa medida tem sido esse o assunto.