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PCP só votou acordo depois de anúncio de Jerónimo

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Alberto Frias

O comité central comunista votou por unanimidade e braço no ar a viabilização de um governo socialista "na perspectiva de uma legislatura". Mas a votação formal só aconteceu depois de Jerónimo de Sousa ter falado aos jornalistas, dando conta do entendimento com o PS. Nessa altura, a direcção comunista tinha discutido o assunto e dado o consentimento tácito. É a chamada "unanimidade informal".

No léxico comunista, há "unanimidade" e "unanimidade informal". A primeira quer dizer que uma matéria foi sujeita a votação - sempre de braço no ar, de acordo com as regras internas e a tradição do PCP. A segunda significa que um assunto foi discutido e encerrado, sem oposição de maior e que por isso teve o aval tácito da organização.

A explicação permite compreender melhor o que se passou ontem, na reunião do comité central que aprovou "em definitivo" a «Posição conjunta do PS e do PCP sobre a solução política" e que, assim, deu luz verde à viabilização de um Governo de esquerda. Jerónimo de Sousa apresentou as conclusões do encontro do orgão máximo do partido entre congressos precisamente às 19 horas. Nessa altura, referiu que a decisão tinha sido tomada por "unanimidade informal" o que significava que o comité central "confirmou e autorizou" a garantia dada pelos comunistas ao PS de que sustentariam um Governo "duradouro na perspectiva da legislatura".

A reunião tinha começado às 11 horas da manhã e, de facto, as negociações com os socialistas foram o primeiro assunto em debate. Os 148 membros do comité central tiveram direito a pronunciar-se e nada transpirou sobre o que se passou dentro da sala. No final da tarde, Jerónimo de Sousa, acompanhado por Ricardo Oliveira e Manuela Santos, deram conta aos jornalistas das conclusões. O assunto tinha sido fechado. Tacitamente e sem votação.

"É um procedimento normal", diz fonte comunista. O assunto "foi analisado e debatido" e a votação só decorreu "no final dos trabalhos", ou seja mais de duas horas após a conferência de imprensa dada pelo secretário geral comunista. Os membros do comité central votaram "o comunicado final da reunião", ou seja, o mesmo que Jerónimo de Sousa tinha lido aos jornalistas. O texto refere expressamente o entedimento com o PS, mas não só: tece duras críticas a Cavaco Silva, sublinha a apresentação de uma moção de rejeição ao Governo PSD/CDS, apela à manifestação de amanhã frente à Assembleia da República e ainda elogia a candidatura presidencial de Edgar Silva.

Foi este pacote de temas que o comité central do PCP foi chamado a votar. E, aí, formalmente os comunistas aprovaram por unanimidade uma proposta que representa um virar de página na história do partido.