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Jornais. Acordo é “histórico”, mas começa com o pé esquerdo?

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Os editoriais dos jornais portugueses desta segunda-feira falam do acordo à esquerda agora confirmado como um feito histórico e uma nova etapa na História da política. No entanto, persistem as dúvidas sobre aquilo em que o entendimento se traduzirá

O país acordou esta segunda-feira com a notícia de que a Comissão Política socialista mandatou esta madrugada o líder do partido, António Costa, para formalizar o acordo da esquerda, e o presidente e líder da bancada parlamentar, Carlos César, para chumbar no Parlamento o Executivo de direita. Nos editoriais da imprensa matutina há dúvidas, mais ou menos optimismo, e uma certeza quase unânime: isto não é a revolução dos bolcheviques.

A via das dúvidas sobre o que este acordo entre os partidos de esquerda significa ensombra a imprensa portuguesa. Começando pelo “Público”, o diário explica que a “ruptura com a política de direita e a concretização de uma política patriótica de esquerda” - o discurso clássico do PCP - é aquilo que o PCP exige e o PS “nunca fez”. Questionando se o acordo chegará para transformar uma prática que até aqui os comunistas classificavam como sendo “de direita” numa prática “de esquerda” e deixando esclarecimentos para o futuro, o “Público” sublinha que o acordo de esquerda poderá ter começado com o pé esquerdo ao formular quatro moções de rejeição diferentes para derrubar o Governo de Passos e Portas, “coisa simples de unificar”.

Já Ana Sá Lopes, no “i”, abre o editorial com uma ideia clara: este acordo não é “a revolução de outubro” dos bolcheviques, por muito que “os partidos da direita e alguns militantes do PS passem as noites a sonhar com o Gulag”. Por entre muita ironia - “oh, como era simpático Jerónimo quando não contava para os programas de Governo” -, o matutino também questiona o teor do acordo à esquerda, salientando que este se concretiza num conjunto de “medidas sociais-democratas”. No entanto, há espaço para recordar que o facto de haver acordo é, só por si, “histórico”.

“A ordem natural das coisas”

Em consonância com o título do editorial do “i” está o espaço homólogo do “Jornal de Negócios”, onde se lê que a nova alternativa “não é assustadora” já que se integra na “ordem natural das coisas”. De acordo com este diário, o país “está dividido e dividido ficará”. Uma ideia principal: “Cavaco não começou bem” com o discurso da indigitação de Passos Coelho em que afastava PCP e Bloco de uma solução governativa e agora fica “entre a espada e a parede”.

O “Diário Económico” escolhe dar ênfase à influência de Bruxelas sobre um possível novo Executivo de esquerda, lembrando que a atual “margem orçamental para fazer escolhas” tem um efeito: “Assegura uma espécie de clima básico para o entendimento à esquerda”. No entanto, nem tudo será fácil: “o caminho continua a ser um pouco estreito”.

Menos otimista é o editorial do “Diário de Notícias”, que, concordando com o resto das publicações ao afirmar que as ideias de Costa não revelam “uma súbita guinada à esquerda”, assinala que as alterações ao programa eleitoral do PS feitas para receber Bloco e PCP podem significar que “o liberalismo de Mário Centeno e a energia que poderia ajudar a libertar no país fiquem em grande parte na gaveta”, resultando que se considera “lamentável”. Para além de constatar as influências tanto dos partidos à esquerda como de Bruxelas sobre o PS, o diário aproveita para criticar a formulação do novo acordo: “Queremos resultados diferentes fazendo quase tudo igual”.