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Sete momentos de um discurso feito em Vila Real a olhar para a esquerda

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Rui Duarte Silva

Ambição, liberdade, igualdade, esperança, justiça e esquerda foram palavras-chave na intervenção do antigo primeiro-ministro, já dirigida a um governo do PS, com o apoio do Bloco de Esquerda e da CDU

Depois de falar de política e justiça, em Vila Velha de Ródão, o antigo primeiro-ministro José Sócrates foi a Vila Real fazer o seu segundo discurso público desde que deixou de estar em prisão domiciliária para falar essencialmente de política e de esquerda. Na conferência promovida por autarcas, dirigentes socialistas e amigos transmontanos, mostrou-se animado com a perspetiva de um novo Governo de esquerda e disse que a Europa também precisa de “um pouco mais de esquerda”. Escolhemos sete momentos da sua intervenção.

Primeiro momento - Os agradecimentos

As primeiras palavras de José Sócrates dirigidas às mais de 250 pessoas presentes no auditório do Teatro Municipal de Vila Real, com apenas 145 lugares sentados, foram de agradecimento: "dizer quão sensibilizado fico pelo convite que me deu a oportunidade de vir aqui, à minha terra (…) falar convosco, agradecer o vosso companheirismo neste momento tão difícil na minha vida". "Só quem já sofreu a prisão injusta se pode aperceber da importância desse apoio" e "desde o primeiro momento me apercebi que um dos primeiros objetivos [dessa prisão] era isolar-me do país, dos simpatizantes, dos militantes do PS. E aqui chego com a sensação de que não conseguiram", disse.

Segundo momento - O novo governo

Sócrates falou do novo Governo construído à esquerda como um dado adquirido e sempre no presente, como se o tempo da coligação PAF (PPD/PSD e CDS-PP) já tivesse passado. Desejou "boa sorte" ao executivo que deverá sair do acordo entre PS, BE e PCP, e que vê não apenas como mais um Governo, mas como "um novo Governo que nasce de uma circunstância especial que nunca tinha sido alcançada", e sustentou que vivemos um tempo "interessante e inovador". Por isso, chegou também a hora de "um novo discurso" focado "na ambição", em contraponto "à penitência a que estávamos resignados".

"É por isso que me junto a todos os que no país têm este anseio de um novo Governo, com uma nova visão de futuro e que restaure no discurso político o valor da igualdade, retomando o discurso do desenvolvimento do país", afirmou.

Para Sócrates, estão criadas as condições para "o começo de um novo começo", o que representa "uma novidade em si própria auspiciosa" e, "pese embora receios ou hesitações, é nosso dever desejar a este Governo boa sorte na governação", até porque o país precisa de quem traga "uma nova visão de futuro que vença a miopia dos últimos 4 anos".

"Durante quatro anos, ouvimos um Governo explicar aquilo que não se devia fazer. É tempo de vir um Governo que diga aos portugueses aquilo que podemos fazer", acrescentou, antes de concluir que o traço marcante do novo executivo deve ser a sua capacidade de vencer a resignação, "voltar a ter um programa de modernização e ambição para o país" e "restaurar no discurso político o valor da igualdade".

Terceiro momento - A hora do interior e do túnel do Marão

Na sua leitura, é também o momento de voltar a pôr no centro do discurso político o desenvolvimento do interior. Sustentou que o investimento no IC5 "não foi um desperdício" e que a "autoestrada para Bragança não foi dinheiro deitado fora". "O único erro económico que vi cometer nos últimos tempos aqui foi o cancelamento do Túnel do Marão, que agora irá ser acabado", disse José Sócrates, que foi o responsável pelo lançamento desta obra. E deixou uma recomendação: "É fundamental que o novo Governo que se anuncia saiba restaurar o discurso da igualdade como prioridade para o desenvolvimento do interior", até porque, disse, "produz-se mais e melhor riqueza nas sociedades mais iguais, que não discriminam ninguém, naqueles países onde não há centro e periferia".

Quarto momento - A Europa

Sobre a Europa, Sócrates defendeu uma "liderança inclusiva", centrada na igualdade entre os Estados, apelou ao regresso dos temas da coesão e da igualdade económica ao centro do debate.

"O que a Europa precisa é de um pouco mais de esquerda", disse. E, logo depois, deixou mais um apelo ao "novo Governo": ser capaz de restaurar uma visão um pouco mais de esquerda na Europa e de restaurar, também, um discurso em Portugal mais centrado nesta ideia.

Aliás, sublinhou, a "única referência decente" que viu na Europa nos últimos tempos foi quando a Europa, "sem o dizer, decidiu meter no caixote do lixo a política da austeridade".

Quinto Momento - A ironia, a Europa e Portugal

O tom de José Sócrates foi especialmente irónico para narrar "um episódio desta semana", protagonizado pelo ministro dos Negócios Estrangeiros Rui Machete, e que escolheu para reforçar a ideia de que "não pode haver discursos de domínio nem de obediência" na Europa nem em Portugal.

A cena desenrola-se na Alemanha, onde uma associação de empresas alemãs decidiu atribuir um prémio Europeu em Berlim e chamou um Comissário Europeu alemão para o entregar "aos 11 milhões de pessoas que vivem em Portugal porque concluíram o programa da Troika". Para receber o troféu, Portugal enviou o seu ministro dos Negócios Estrangeiros que, citado na notícia lida por José Sócrates, disse que "cumprimos o que nos foi pedido e ajudamos a Alemanha a justificar o seu papel de liderança". Foi, aliás, sublinha Sócrates, um discurso feito em alemão, mas durante o qual Rui Machete disse que "o português é, atualmente, a terceira língua mais falada no mundo".

Sexto Momento - A liberdade de expressão

A terminar a sua participação, Sócrates falou sobre a liberdade de expressão, que tem "os seus limites, como todas as liberdades", referiu diretamente a providência cautelar que proíbe o Grupo Cofina, dono do Correia da Manhã, de publicar notícias sobre a "Operação Marquês", e reiterou, tal como há 15 dias, em Vila Velha de Ródão, que o que se está a assistir "são campanhas organizadas de denegrimento".

Considerou que "não estamos a falar de nenhum interesse público", mas sim de "interesse comercial" quando se fazem notícias que se limitam "a vasculhar a vida das pessoas com o intuito de ter mais audiência e vender mais jornais e, portanto, ter mais lucro".

Numa referência direta ao seu caso pessoal, considerou que "ao longo deste ano, o que vimos foi uma instrumentalização permanente do segredo de justiça com o objetivo não apenas de prender fisicamente, de destruir moralmente, mas também de prender na opinião pública".

"Este problema (da instrumentalização do segredo de justiça) está a corroer a nossa sociedade. É um cancro que tem metástases e é um comércio", disse, antes de fazer uma ligação entre os temas da democracia e da justiça para defender que "não há hoje uma democracia que se possa afirmar como democracia sem o sólido pilar dos direitos individuais".

Sétimo momento - E depois de um ano de prisão

Falando diretamente da sua detenção, José Sócrates foi claro a acusar o sistema judicial de o ter detido durante um ano sem apresentar provas à acusação. Depois, na declaração mais aplaudida do seu discurso, proclamoua sua inocência: "Nunca tiveram as provas nem as têm porque não há provas do que nunca aconteceu", disse.