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João Salgueiro: “Governo de maioria de esquerda podia ser uma boa experiência”

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Tiago Miranda

Em entrevista ao Público, o economista e ex-presidente da CGD e da Associação de Bancos Portugueses referiu-se aos últimos quatro anos como “uma oportunidade não inteiramente aproveitada”

João Salgueiro, que não se revê nas eleites políticas, económicas e culturais do país, lamentou que o último Executivo tenha falhado na tarefa de avançar com a reforma da Justiça, da Administração Pública e política.

A responsabilidade, diz o economista, é do primeiro-ministro Pedro Passos Coelho, que considera “um homem muito determinado” e “um grande comunicador”. Passos Coelho “podia ter tido um melhor desempenho se tivesse tido tempo para pensar”.

“Ao mesmo tempo que não podia ignorar os compromissos com os credores internacionais, podia ter lançado outras iniciativas: na Justiça, a reforma do Estado. E devia ter-se empenhado num acordo com o PS para a reforma do sistema político, pois tinha um mandato para reduzir os deputados”, disse João Salgueiro ao “Público.

“A visão que [as elites] têm do mundo não é a possível hoje em dia. Vivemos como se não tivesse havido a crise de 1989 e os países que não perceberam colapsaram”, concretizou, referindo-se à URSS cujo colapso mudou o mundo.

Quanto a Portugal, “foi lamentável que só tivéssemos recorrido à ajuda internacional quando estávamos já num estado de emergência e não se negoceia em estado de emergência”, defendeu o antigo ministro de Estado e das Finanças.

João Salgueiro disse ainda que Portugal aceitou “condições péssimas” e o país está nas mãos dos mercados. Se “acreditarem em nós talvez consigamos, com ajuda da Alemanha e da França, prazos mais longos e juros mais baixos”, respeitando o que foi acordado com os credores.

O ex-ministro considera fundamental “pôr o país a discutir o seu estado, os portugueses têm o direito de saber e, também, os caminhos que existem, e escolham: sair do euro, despedir funcionários públicos, reduzir salários…”

Sobre o futuro, o economista defende que um “Governo de maioria de esquerda consistente podia ser uma boa experiência, ainda que arriscada”, mas rejeita a eficácia de “um simples apoio parlamentar” que “dificilmente será estável e penaliza, em especial, o PS”.

“O PS vai ficar em situação difícil, porque vai pagar a conta das dificuldades que aparecerem, e cada ano serão maiores embora vá haver um estado de graça de seis meses. A Europa também vai deixar fazer. Mas depois vamos pagar a conta”, acrescentou ainda.

Para o ex-dirigente, se António Costa for primeiro-ministro irá “tentar reproduzir o que fez na câmara com sucesso”. “Gostaria de ver à frente do Governo um bom líder, um bom treinador a dizer como é que o país se desenvolve”, sublinhou.