Siga-nos

Perfil

Expresso

Política

Governo de esquerda. Assis fala em “divergências de fundo” e “falta de solidez”

  • 333

José Caria

Francisco Assis disse que há divergências "de fundo" entre o PS, Bloco de Esquerda e PCP e levantou dúvidas sobre a solidez do futuro executivo de esquerda, advertindo que governar "não é só ter um conjunto de medidas pré-estabelecidas, mas, sobretudo, enfrentar situações imponderáveis ou desconhecidas"

O eurodeputado socialista Francisco Assis considerou este domingo que o acordo entre PS, Bloco e PCP carece de solidez face aos imponderáveis de uma governação, sobretudo no plano europeu, e que há divergências "de fundo" entre estas forças.

Francisco Assis falava à entrada para a reunião da Comissão Política Nacional do PS que se prepara para aprovar a conclusão de acordos políticos com o PCP, Bloco de Esquerda e "Os Verdes" para a formação de um executivo socialista, assim como a apresentação de uma moção de rejeição ao Governo PSD/CDS.

"Entendo que as nossas divergências de fundo com o PCP e Bloco de Esquerda são de tal ordem em matérias fundamentais que não dão garantias de termos um Governo com uma verdadeira capacidade reformista", declarou o ex-líder parlamentar do PS, apontando como exemplos de divergências de fundo as áreas da economia, das finanças, a União Europeia e "o próprio modelo de sociedade".

Questionado sobre a aprovação no sábado, pela Comissão Nacional do PS, por ampla maioria, de um programa de Governo já acordado com o PCP e Bloco de Esquerda, Assis contrapôs que um programa de Governo "não é apenas uma lista de medidas".

"Um compromisso de Governo é a possibilidade de compartilhar algumas ideias de fundo numa altura tão decisiva da vida europeia. A minha divergência com este caminho da direção do PS é de fundo, além de que fiz uma interpretação dos resultados das eleições legislativas que levanta um problema: o PS, face aos resultados que teve, deveria assumir no parlamento a liderança da oposição. Esse seria o caminho mais adequado", completou.

Mas Francisco Assis levantou também dúvidas sobre a solidez desse futuro executivo de esquerda, advertindo que governar "não é só ter um conjunto de medidas pré-estabelecidas, mas, sobretudo, enfrentar situações imponderáveis ou desconhecidas".

"E Portugal, nos próximos quatro anos, vai entrar muitas vezes no terreno do desconhecido, nomeadamente na questão europeia, o que exige um mínimo de solidez - e eu entendo que esse mínimo não existe", frisou o cabeça de lista do PS nas últimas eleições europeias.

Confrontado com a tese dos apoiantes da direção de que a sua intervenção beneficia a direita contra a esquerda política, Francisco Assis reagiu: "Sou uma pessoa de esquerda, mas entendo que há uma diferença muito grande entre o PS, que representa a social-democracia em Portugal, e os partidos da extrema-esquerda, como se viu ainda na recente campanha eleitoral".

"Essas divergências são de tal ordem profundas que impedem o surgimento de uma solução governativa adequada às necessidades do país. Mas não é esse o entendimento da maioria do partido, vou respeitar a decisão, não vou andar em guerrilhas, nunca andei em guerrilhas com nenhum secretário-geral, ficarei a ver e, como socialista, espero que as coisas corram bem", respondeu.

Perante o facto de a direção do PS ter feito estas propostas de entendimento à esquerda sempre aprovadas por ampla maioria, o eurodeputado socialista afirmou-se "despreocupado" por se encontrar em minoria. "Não estou neste momento preocupado em saber se estão dez ou 20 ao meu lado, estão as que estão", respondeu.

Francisco Assis reiterou a tese de que, apesar de discordar do caminho seguido pela direção do PS, caso se forme uma maioria de Governo no parlamento, o Presidente da República deverá dar posse a esse executivo, "porque um Governo de gestão seria a pior solução".