Siga-nos

Perfil

Expresso

Política

Marisa quer ser a “alternativa popular”, com Marcelo (e Maria de Belém) na mira

  • 333

Marisa Matias abraça Joana Mortágua durante a apresentação da sua candidatura à Presidência da República, no Teatro Thalia em Lisboa

José Sena Goulão/Lusa

Se o anti-modelo é Cavaco, o alvo principal é Marcelo - mas sobra ainda chumbo para Maria de Belém. Maria Matias lançou-se na corrida presidencial: "Em nome deste povo que sofre, mas que resiste"

A eurodeputada já vestiu a fatiota de candidata presidencial. Pareceu até estar um pouco apertada: em vez de discursos vibrantes, como os feitos na recente campanha das legislativas, Maria Matias usou na tarde deste sábado um tom muito mais pausado ao longo da intervenção de 21 minutos, de apresentação da sua candidatura ao Palácio de Belém. Tão contido foi que em alguns momentos pareceu monocórdico.

O discurso foi todo ele também mais enxuto de metáforas, recurso com que Marisa habitualmente condimenta as suas intervenções. Mas a questão substantiva está à vista de todos: pôr a direita fora de Belém.

Cavaco Silva é página em vias de ser virada. "O Presidente que temos em funções tem sido um divisor, uma força de bloqueio da democracia", disse Marisa Matias. Antes classificara o atual chefe de Estado como "o exemplo de quem usa o seu papel para defender a estabilidade dos seus no poder e não a estabilidade da vida dos portugueses".

O tempo de Cavaco está a chegar ao fim e foi na alusão a esse "day after" que a candidata apoiada pelo Bloco quebrou fugazmente o estilo mais institucional do discurso: "Num Palácio de Belém que cheira a bafio vai ser preciso abrir as janelas para entrar ar fresco".

A luta que conta

Se o atual chefe de Estado é o (mau) exemplo que Marisa Matias já dobrou, a luta agora pela frente é impedir Marcelo de chegar a Belém. Ele (sem alguma vez ter dito o seu nome) é agora o "rosto mais civilizado" da direita, com "um ar mais moderno e tolerante", reconheceu.

A advertência aos apoiantes que encheram a pequena sala do Teatro Thalia foi clara. "Não se iludam: quem procurou fazer da televisão um trampolim ao serviço da sua desmesurada ambição política, estará disposto a vender tudo e o seu contrário para atingir os seus objetivos".

Acima de uma luta entre dois (ou mais) candidatos, o que está em causa nas próximas eleições presidenciais tem outra dimensão: trata-se de "uma disputa entre as elites poderosas e a maioria do povo". "Candidato-me para ajudar a derrotar este projeto das elites", afirmou Marisa.

A direita e os "grandes interesses" "querem fazer das presidenciais uma segunda volta das legislativas, querem uma desforra, querem vingança", prosseguiu a candidata. Logo, "os próximos tempos serão duros", pois está em curso uma "pela contra-ofensiva" da direita.

Marisa tem um antídoto: "Garantir que temos na Presidência da República alguém que não dê cobertura aos ataques contra o país e a democracia".

As várias esquerdas

Marisa Matias assumiu-se como a "alternativa popular" para as próximas eleições. Justificou a sua ida a votos, mas articulou-a também com as de outras personalidades de esquerda. "Cada voz que esta candidatura conquistar à abstenção é um voto que põe a direita mais longe de Belém. Numa eleição a duas voltas, é a pluralidade que mobiliza e pode ser a unidade forçada que diminui".

Mas se alguém espera um pacto de não agressão entre os vários candidatos de esquerda, não contará para isso com a disponibilidade de Marisa Matias.

A eurodeputada do BE abriu já as hostilidades com Maria de Belém (embora sem mencionar o nome da antiga presidente do PS). E fê-lo de modo tão indireto quanto contundente, metendo até Maria de Belém no mesmo saco de Marcelo. E que saco!...o do grupo BES e de Ricardo Salgado.

"Candidato-me partindo de uma premissa radical: é possível chegar à presidência sem a proteção do Espírito Santo. Nunca fui avençada do dito, em claro conflito de interesses com funções públicas na mesma área, e nunca festejei a passagem de ano no iate do Ricardo Salgado".

De Marcelo sabe-se, o próprio reconheceu, que tal revéillon aconteceu mesmo; de Maria de Belém foi sobejamente noticiado que foi consultora do grupo Espírito Santo Saúde, quando ao mesmo tempo era presidente da comissão parlamentar de Saúde.

Surpresa familiar

A eurodeputada já vestiu a fatiota de candidata presidencial. Apresentou a sua candidatura numa "soalheira tarde de outono", como lembrou na apresentação o seu diretor de campanha, Ricardo Moreira (que já dirigira a campanha do Bloco nas legislativas).

A referência ao bom tempo que Lisboa teve neste sábado não é irrelevante. Dá mais valor aos que lotaram o Teatro Thalia, de tal modo que muitos ouviram os discursos de pé. Com Marisa estiveram os históricos do BE como Francisco Louçã, Fernando Rosas e João Semedo. Também apoiantes de longa data dos bloquistas, como o arqueólogo Cláudio Torres. E também Catarina Martins, claro, assim como quase todos os deputados de primeira linha.

A presença de todos aqueles era mais ou menos aguardada. Surpresa foi o que a candidata tinha à sua espera no pátio exterior do Teatro Thalia: os pais e os sogros, com quem trocou longos e apertados (e naturais) abraços. Quando se veste a fatiota de candidata presidencial, há coisas que mudam na vida de uma pessoa.

Maria Matias apresentou-se: "Sou uma mulher de esquerda, assumo as minhas causas e não tenciono fingir que sou neutra só para conquistar simpatias. Não quero ser politicamente correta; quero ser politicamente verdadeira".