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A história por trás da visita de Sócrates a Vila Real

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Rui Duarte Silva

Do túnel do Marão à “autoestrada da justiça”, Sócrates deixou aqui “a sua impressão digital” e, no regresso à terra onde viveu os primeiros dias de vida e fez muitas inaugurações, acabou quase a dividir o palco com o músico David Fonseca

José Sócrates nasceu no Porto, cresceu na Covilhã, mas foi registado como natural de Vilar de Maçada, Alijó, por isso, para muitos, em Vila Real, é um filho desta terra, tal como o seu pai. E ele sempre continuou a passar por aqui ao longo da vida, primeiro para brincar com os primos, quando para todos ainda era o Zézito, depois atraído por memórias e afetos, como as festas do senhor da Capelinha ou os jogos de bilhar do antigo café Excelsior, mais tarde como primeiro-ministro, para fazer inaugurações.

Desta vez veio para falar. O tema era livre, mas destinado a ficar registado como o segundo capítulo da saga das suas palestras pelo país, iniciada duas semanas antes, em Vila Velha de Ródão, com um discurso sobre política e justiça.

Tudo foi tratado de forma simples e rápida, entre amigos. "Falei com ele dez dias antes" conta Rui Santos, presidente da concelhia local do PS e da Câmara de Vila Real, o anfitrião de uma terra que "não esquece o excelente trabalho que José Sócrates fez por Vila Real e Trás-os-Montes", diz.

Formalmente, o convite foi da concelhia do PS. Contou com o apoio de autarcas socialistas da região, militantes, amigos. A ideia "nasceu de uma reflexão conjunta". A expectativa, confessava Rui Santos ao Expresso ainda antes da palestra, era ouvir Sócrates falar "da nossa realidade", uma expressão curta, mas abrangente, onde cabe "Vila Real, Trás-os-Montes, o interior, Portugal, o mundo, as lideranças", "tudo coisas que ele conhece bem".

Ouvir o antigo primeiro-ministro falar sobre o seu futuro político era, também, um desejo confessado por quem o convidou.

Com o convite, veio a sugestão do timing, um sábado ao fim da tarde, e tudo convergiu logo para este sábado, dia de reunião da Comissão Nacional do PS e dia em que o grande auditório do Teatro Municipal de Vila Real já estava reservado para um espetáculo do músico de Leiria David Fonseca com o título retirado de uma das suas canções e que bem poderá inspirar Sócrates para uma próxima conferência: "Futuro eu".

E se as palavras de Sócrates, quando entrou em cena, às 18h, eram uma incógnita, os seguidores mais fiéis de David sabiam que quando o músico subisse ao palco ao lado, 3h30 depois, iria cantar frases como "não é tarde, não duvides", "faz do futuro presente", "faz só o que a vontade quer", "não esperes por quem não te quer", "desculpa ser tão insensível e frontal".

Por razões de logística, Sócrates e os seus amigos ficaram, assim, no auditório pequeno do teatro: 140 lugares sentados, já a prometer casa cheia, num espaço que foi inaugurado pelo social-democrata Durão Barroso, mas que em Vila Real quase todos agradecem ao PS, como obra do ministro socialista da cultura Manuel Maria Carrilho.

A semana do Marão

E porquê escolher o sábado 7 de novembro para assinalar o regresso a Vila Real, no seu segundo discurso público depois de deixar a prisão domiciliária? Nas palavras do anfitrião do evento as coisas simplesmente acabaram por acontecer assim. Mas a verdade é que Sócrates, rápido a aceitar o convite e a agendar esta palestra, já disse publicamente, no passado, que "um dos segredos mais importantes da política é escolhermos nós o momento". E, desta forma, conseguiu estar em Vila Real precisamente na semana em que ficou concluída a escavação do túnel do Marão, uma obra envolvida em polémica e que se arrastou no tempo, mas que vem dar à região o maior túnel da Península Ibérica e começou no seu governo.

Para Rui Santos, não há dúvida de que "haverá o tempo antes e pós túnel do Marão" até pela forma como a obra põe fim físico e simbólico ao isolamento da região.

Ele, que esteve na noite de segunda-feira passada nas entranhas da serra, a ouvir a detonação da última carga explosiva que garantiu a junção das duas frentes de obra, não esquece um telefonema pessoal recebido fora de horas, há anos atrás, do então primeiro-ministro José Sócrates para o então presidente da distrital socialista de Vila Real, a anunciar que tinha sido aprovado em conselho de ministros o lançamento do concurso público para a construção da obra.

"Sócrates deixou aqui, definitivamente, a sua impressão digital", diz o líder socialista local convicto de que "se a função de um governante é escolher, nunca, em tão pouco tempo, se investiu tanto aqui como nessa altura".

A herança socrática

Sem hesitar em enumerar exemplos da herança socrática, muitos deles inaugurados ao longo dos anos pelo orador do dia, o autarca começa por fugir ao óbvio e inevitável betão. Fala, primeiro, do complemento solidário para idosos "que beneficiou 19% da população com mais de 65 anos de Vila Real. Fala do programa de alargamento da rede de equipamentos sociais, que "criou centenas de lugares em lares e creches e 260 lugares de cuidados continuados integrados".

Depois, reconhece ser difícil contabilizar no momento as centenas de milhões de euros envolvidos na obra feita. Recorda um investimento de 15 milhões de euros na Universidade de Trás os Montes, refere os museus do Douro e do Côa, o Espaço Miguel Torga, a loja do cidadão de Murça, o Centro de Saúde e a Pousada de Alijó, o novo Hospital de Lamego, "mais de 20 novos centros escolares", os trabalhos de requalificação no âmbito do Programa Polis, as energias renováveis. Recua, até, ao tempo de Sócrates ministro do ambiente para dizer que em vez das 14 lixeiras que havia em Vila Real há, agora, um aterro.

Finalmente as estradas. Os destaques aqui também podem ser muitos, mas a escolha óbvia vai para o túnel do Marão, a A24 e a A4, a autoestrada transmontana que José Sócrates fez questão de batizar como "a autoestrada da justiça" porque vinha ligar Vila Real a Bragança, "o único distrito do país que não tinha um quilómetro de autoestrada".

Aliás, quando a obra foi inaugurada, já no tempo do primeiro -ministro social-democrata Passos Coelho, apareceram ao longo do seu troço cartazes com uma mensagem curta, de objetivos claros, onde se lia "obrigada Sócrates".

No entanto, se "para lá do Marão mandam os que lá estão", como os portugueses se habituaram a dizer, a cor política da terra não se tem definido claramente. Nas autárquicas de 2013, o PS ganhou oito câmaras no distrito de Vila Real contra seis do PSD, e venceu com 40,76%, o que traduzido em votos, nas urnas, significa uma vitória por apenas 700 votos face ao PSD.

Já nas últimas legislativas, Vila Real foi um distrito PAF, com a coligação PPD/PSD.CDS-PP a vencer com 51,02% dos votos e a eleger três deputados, contra os 33,06% do PS, que elegeu dois deputados.