Siga-nos

Perfil

Expresso

Política

Passos como se nada fosse: “Recebi um mandato claro para governar”

  • 333

Marcos Borga

“Não permitirei desvios precipitados” que poderiam '“deitar tudo a perder'”. Foi a única referência indireta à conjuntura. Pedro Passos Coelho fez um discurso de posse de costas voltadas para a crise política. Disposto a ''renovar e fortalecer a construção de entendimentos com todas as forças políticas''.

''Ninguém deve arriscar o bem-estar dos portugueses em nome de uma agenda ideológica ou de ambições políticas pessoais ou partidárias''. Foi uma referência rara à conjuntura política, num discurso talhado para fazer crer que impera a normalidade.

Símbolo máximo disso foi o ''renovado e fortalecido apelo'' deixado pelo primeiro-ministro ''ao espírito de cooperação e construção de entendimentos'' entre ''todas as forças políticas, cívicas e sociais''.

''Tendo recebido dos portugueses um mandato claro para governar, assumo a responsabilidade indeclinável de respeitar essa vontade dos portugueses'', avisou. Bem articulado com o Presidente da República, que tinha acabado de lhe pedir espírito de compromisso, Pedro Passos Coelho assumiu o desafio: ''Sem desvirtuar a matriz de valores que sustenta o programada sufragado pelos eleitores, o Governo tem o encargo de mostrar abertura ao compromisso com todos os agentes políticos, sociais e económicos''.

Nada que possa pôr em causa os princípios essenciais da coligação PSD/CDS. ''Reafirmo os princípios a que estivemos e estamos vinculados''. Passos não aliviou a agenda: ''Persisitiremos no cumprimento das nossas obrigações internacionais e no exercício dos direitos e deveres que decorrem da nossa participação plena na União Europeia e na União Económica e Monetária''.

Alertando que o cumprimento desses compromissos é ''uma condição absolutamente indispensável para assegurar o nosso futuro comum com estabilidade e previsibilidade'', o PM lembrou que ''o caminho (ainda) é estreito'' e ''só quem sabe o caminho que é necessário trilhar pode chegar ao destino que pretende''.

Passos Coelho definiu duas grandes prioridades para o seu novo mandato: o combate às desigualdades sociais e ao ciclo de pobreza, com a ressalva de que ''não há contradição entre a redução das desigualdades e o reconhecimento dos méritos''; e uma nova fase de modernização administrativa'', que facilite a vida a cidadãos e empresários.

O discurso de posse começou por revisitar os últimos quatro anos. Desde ''o desastre económico e social de proporções inimagináveis'' que encontrou quanto chegou ao poder. Até à recuperação económica e social do país, que ''se tornou de novo atrativo para o investimento estrangeiro''. Passando pelos apoios sociais aos mais carenciados, seja nos cuidados de saúde, seja nas pensões mínimas ''sempre atualizadas''.

Passos agradeceu o esforço coletivo dos portugueses ''que com coragem e moderação levantaram de novo o país''. E deixou o aviso: ''desrespeitar esse esforço traduz-se por pôr em risco tudo o que juntos alcançámos. E isso, eu enquanto primeiro-ministro, nunca farei''.

Mais à frente, insistiu: ''desvios precipitados deitariam tudo a perder ... e isso eu, enquanto PM, não permitirei que volte a acontecer''. Ter contas públicas certas, reduzir progressivamente a carga fiscal, estabilizar e monitorizar as reformas estruturais feitas e iniciar um novo ciclo de reformas, são prioridades do programa do novo Governo.

Na tomada de posse, Passos quis ser coerente com o que tem dito desde 4 de outubro: que o Governo politicamente legítimo é o seu e que o normal é ser ele a governar.

À saída do Palácio da Ajuda, acompanhado da mulher, não respondeu a perguntas dos jornalistas: ''Julgo que já os avisaram de que não iria falar''. Um sorriso sem mais. Enquanto aguarda as cenas dos próximos capítulos.