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Manuel Clemente: convite de Cavaco a Passos foi decisão “em consciência”

António Cotrim / Lusa

O Presidente “tomou a decisão que devia tomar, ele é um protagonista muito importante da vida política”, afirma o cardeal patriarca

O cardeal-patriarca afirmou esta quinta-feira que o convite do Presidente da República a Pedro Passos Coelho para formar Governo foi uma decisão “em consciência”, e acrescentou que todos os responsáveis políticos devem ter em mente o “bem comum”.

O Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, “tomou a decisão que devia tomar, ele é um protagonista muito importante da vida política. Há outros protagonistas - a Assembleia da República, os tribunais, as instituições em geral [que devem tomar] também as suas decisões em consciência e sempre tendo em vista o bem comum”, afirmou Manuel Clemente numa conferência de imprensa realizada no patriarcado.

Cavaco Silva indigitou Passos Coelho para primeiro-ministro, com quem se reuniu na terça-feira última, tendo dado o seu acordo à proposta de constituição do XX Governo Constitucional, que não dispõe de apoio maioritário no parlamento.

O cardeal-patriarca foi questionado pelos jornalistas sobre a situação política portuguesa e defendeu que Cavaco Silva fez uma “leitura” da atual situação, “que em consciência achou que devia fazer”.

Patriarca faz apelo a católicos “em todas as forças políticas”

Manuel Clemente não deixou de lançar um repto aos que se afirmam católicos “em todas as forças políticas” e os que confessam a admiração pelo papa Francisco, para que ajam e apresentem propostas inspirados nestes valores. “Se há, neste momento e na sociedade portuguesa, em todas as forças políticas pessoas que se dizem admiradoras do papa Francisco e até católicas, levem isso à consequência, na perspetiva partidária de cada um, que é legítima”, sublinhou.

O cardeal-patriarca, que é também presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), afirmou que, em todos os quadrantes, há pessoas que “valorizam muito o que o papa Francisco tem dito, tem feito”. “Tomem mesmo em conta, em devida conta e aplicação concreta, o que o papa Francisco tem dito”, exortou.

Nesse sentido, referiu os “grandes princípios” da Doutrina Social da Igreja - “dignidade da pessoa humana, bem comum, solidariedade e subsidiariedade” e lembrou a “ecologia integral”, que o papa apresentou na sua mais recente encíclica “Laudato si”.

Segundo afirmou o prelado, estes princípios exigem o “respeito ativo por tudo aquilo que é da ordem da criação, dos mais pequenos seres à própria pessoa humana”, e a “defesa da vida, desde a gestação à morte natural”.

Questionado quanto à possibilidade de um Governo de coligação de Esquerda, o líder da Igreja Católica portuguesa não se mostrou inquieto ou preocupado e retorquiu: “A vida política portuguesa nos últimos 40 anos tem tido vários protagonistas de direita, centro e de esquerda”. “Faz parte da sociedade democrática”, rematou.

Manuel Clemente aproveitou para sublinhar os princípios de que a Igreja Católica não abdica, designadamente a “dignidade de toda a pessoa humana - uma dignidade ativa -, a dignificação em condições de vida, a começar pela própria vida garantida em todas as suas fases”.

O presidente da CEP recordou a posição tornada pública em abril último, pelos bispos portugueses, que referiram que “a sociedade portuguesa assentar numa base comum de valores sociais e humanistas”.

O cardeal-patriarca falava na conferência de imprensa sobre o Sínodo extraordinário sobre a Família, que se realizou este mês, em Roma, e no qual participou.