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Tempos estão confusos? Sim, mas já tivemos 51 governos em 16 anos...

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PORTO. Proclamação da República

casa alvão

Na atual agitação política, há dois mitos que se impõe desfazer: que vivemos tempos de perigosa instabilidade jamais vistos e que sempre fomos um povo de brandos costume

Nos últimos dias falou-se muito em traições, conspirações e golpes institucionais. No entanto, vistas da História, estas vicissitudes do Portugal contemporâneo nada são comparadas com aquilo que se passou, por exemplo, durante a I República. Vale, portanto, a pena, olhar para este passado.

Com a chegada ao poder, a 5 de Outubro de 1910, acentuam-se as divisões republicanas. À esquerda, apoiado no eleitorado urbano mais politizado, Afonso Costa. Ao centro, o republicanismo moderado, de António José de Almeida. A ala conservadora tinha como figura central Brito Camacho.

Num sistema parlamentar em que o Governo só respondia perante a Assembleia, a instabilidade vai ser a regra. Até 1914 o Executivo mais duradouro será o de Afonso Costa que se manterá em funções de janeiro de 1913 até fevereiro do ano seguinte. Um ano de governação que permite pôr em prática a reforma fiscal e apresentar um dos raros orçamentos equilibrados da República.

As perseguições a representantes da Igreja começam nos primeiros tempos da República e tornam-se uma constante. Estes excessos afastam de vez a Igreja Católica do novo regime. Os Governos sucedem-se de forma alucinante: 51 em 16 anos, ou seja a uma média de três por ano. Quase um por trimestre. Nem todos caem no Parlamento. Alguns são derrubados por golpes de Estado ou revoltas sangrentas. Multiplicar-se-ão os assassínios políticos: Sidónio Pais, Machado dos Santos, António Granjo ou Carlos da Maia, para só citar alguns.

Quando, em agosto de 1914, se disparam os primeiros tiros da Grande Guerra, o Governo centrista de Bernardino Machado não consegue gerar uma resposta maioritária. O Partido Republicano, a maçonaria e o rei exilado D. Manuel II são pró-aliados. Os católicos integristas e os monárquicos de Paiva Couceiro são pró-germânicos. O pacifismo seduz socialistas, anarquistas e sindicalistas.

D.R.

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A 21 de janeiro de 1915, Machado dos Santos, o herói da Rotunda no 5 de Outubro, encabeça o Movimento das Espadas que derruba o Governo de Azevedo Coutinho. Dois dias depois, o Presidente Manuel de Arriaga convida o general Pimenta de Castro a formar Governo. Fá-lo-á quatro dias depois governando “em ditadura”, ou seja, sem Parlamento. Manda para Angola Pereira d’Eça, adepto da entrada de Portugal na guerra. Será algo que mais tarde a ditadura de Sidónio Pais também fará, enviando para Moçambique militares em que não tinha confiança. A 14 de maio este Governo é derrubado por uma revolta encabeçada pela Marinha que, durante dois dias, põe Lisboa a ferro e fogo: 102 mortos e 250 feridos.

Estabilizada a situação, foi indigitado como primeiro-ministro João Chagas, que tomou o comboio do Porto para Lisboa. Durante a paragem no Entroncamento, o senador do Partido Evolucionista (formação republicana moderada liderada por António José de Almeida) José de Freitas, entrou no comboio de pistola na mão, convencido de que vinha lá dentro Afonso Costa, disposto a matá-lo. Fez fogo para dentro do compartimento onde vinha Chagas, tirando-lhe uma vista. Dominado por populares, foi atirado para o cais e linchado.

Seguem-se dois Governos chefiados por José de Castro, que preparam a entrada do país na guerra, o que acontece a 9 de março de 1916 após o apresamento de navios alemães surtos em Lisboa. É formado e treinado no polígono de Tancos um Corpo Expedicionário que começa a chegar a França em princípios do ano seguinte. Consequência das dificuldades que a população enfrenta, agravadas pela guerra, a 5 de dezembro de 1917 há um golpe militar de republicanos radicais mas opositores da guerra (como Machado dos Santos) e militares conservadores (como Alves Roçadas). Nesta aliança entram, ainda, anarcossindicalistas e dirigentes operários.

Afonso Costa

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Afonso Costa, primeiro-ministro, é exilado. Emerge como líder o major Sidónio Pais, militar conservador que fora embaixador em Berlim. O sidonismo prefigura os regimes autoritários das décadas seguintes, misturando populismo (a famosa “sopa do Sidónio”, cozinha dos pobres), conservadorismo, religiosidade e apelos à ordem.

Como se refere em “A Primeira Guerra Mundial”, livro publicado pelo Expresso no verão de 2014, “para a província, analfabeta, crente e despolitizada era o retorno aos valores do ‘antigamente’. Para os meios urbanos, base natural da República, era a esperança do fim da instabilidade e dos tiroteios quase diários. Sintomaticamente Sidónio surge no mesmo ano que Fátima e, tal como os pastorinhos da serra dos Candeeiros, propõe um milagre”.

Sidónio ascende a Presidente, revê a constituição por decreto e é tão amado como odiado. A 16 de outubro, seis republicanos dum grupo de centena e meia que haviam sido presos após um malogrado golpe anti-sidonista são mortos durante a transferência para Caxias, incluindo o visconde da Ribeira Brava, num incidente que fica conhecido como a Leva da Morte.

Sidónio ainda assiste aos festejos do armistício, a 11 de novembro de 1918. Escapa a um atentado a 5 de dezembro, durante uma homenagem a Carvalho de Araújo e outros tripulantes do “Augusto de Castilho”, afundado pelos alemães. É morto nove dias depois na estação do Rossio. Já com a guerra acabada, serão os republicanos da velha guarda a sentarem-se à mesa das negociações no Tratado de Versalhes.

A 19 de janeiro de 1919, mais uma operação de Paiva Couceiro culmina com a proclamação da Monarquia do Norte que durará até 13 de fevereiro. A 27 de abril, em Lisboa, Tamagnini Barbosa improvisa uma milícia republicana no Campo Grande que derrotará na Serra de Monsanto os monárquicos chefiados por Aires de Ornelas.

Nem assim a situação estabilizou. A 19 de outubro de 1921, na sequência da derrota de Afonso Costa nas eleições, é nomeado primeiro-ministro António Granjo. Quando tenta assegurar o controlo da GNR, há um movimento insurrecional em Lisboa e demite-se. Nessa noite, grupos armados prendem figuras ligadas a este efémero Executivo, ao sidonismo e aos republicanos moderados e massacram-nas. Granjo é morto no Arsenal e Cunha Leal que o tenta defender é ferido. Carlos da Maia é morto, tal como Machado dos Santos, este num veículo cheio de marinheiros armados, a Camioneta Fantasma. Tamagnini Barbosa é levado de casa para ser fuzilado mas os captores emborracham-se e deixam-no ir embora. Destacar-se-á futuramente como opositor de Salazar e presidente do Sport Lisboa e Benfica.

A 28 de maio de 1926, a I República estava madura para ser colhida pelo primeiro aspirante a ditador que se apresentasse. Viria a chamar-se Oliveira Salazar e a instaurar uma das mais longas ditaduras da Europa, para a qual anos de violência e instabilidade haviam estendido a passadeira vermelha.