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Política

Seguristas recuaram e apoiaram Ferro

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Jose Carlos Carvalho

Num jantar antes da Comissão Política, os “seguristas” decidiram não impedir Ferro de ser presidente da AR

Cristina Figueiredo

Cristina Figueiredo

Jornalista da secção Política

Até quinta-feira ao final da tarde era uma possibilidade levada muito a sério. Os deputados socialistas da minoria “segurista” — alguns deles, pelo menos — admitiam boicotar a eleição de Ferro Rodrigues para a presidência da Assembleia da República. Bastariam sete votos em branco (nem precisava ser em Fernando Negrão, o nome apresentado pela coligação PSD/CDS) e o candidato proposto por António Costa não seria eleito. Seria a única oportunidade, argumentavam, de poder sinalizar ao líder do partido que, apesar de minoritários, os “seguristas” do grupo parlamentar queriam ser levados em consideração na aritmética interna do partido.

Mas à hora do jantar, antes da reunião da Comissão Política do PS, e ao mesmo tempo que ouviam Cavaco Silva a indigitar Passos Coelho primeiro-ministro e a diabolizar um eventual governo PS/BE/PCP, alguns membros da Comissão Política e da bancada socialista (afetos ao anterior secretário-geral) encontraram-se à mesa do restaurante Caruso, no Pateo Bagatella, muito perto do Largo do Rato. E mudaram de ideias: perante a intervenção controversa do Presidente da República, não arriscariam ficar como bodes expiatórios de uma crise política de segunda ordem face à crise maior que estava instalada; decidiram ali mesmo votar em Ferro Rodrigues.

No dia seguinte, quando a candidatura deste foi entregue na mesa da AR, tinha a subscrevê-la, entre outros, os nomes de Eurico Brilhante Dias, João Soares, José Luís Carneiro e António Gameiro — todos eles destacados apoiantes de Seguro nas primárias do ano passado. À tarde, Ferro foi eleito à primeira, com mais quatro votos do que os 116 exigidos por lei. Negrão obteve 108 votos. Uma votação que espelha a divisão do hemiciclo e que quebra a tradição: pela primeira vez, o presidente da Assembleia da República, segunda figura do Estado, não emana da força partidária mais votada nas legislativas.

Ainda com a intervenção de Cavaco Silva a ecoar aos ouvidos de todos os presentes, António Costa saudou a conquista: “É muito importante que esta primeira votação tenha sido por voto secreto pois este assegura a mais pura liberdade no exercício da vontade de cada um de nós. [No voto secreto] não há disciplina de voto, há consciência e responsabilidade no voto que depende só da vontade de cada um”. E a vontade de cada um, acrescentou, “não é manipulável”.

O contexto político em que se inicia esta legislatura não escapou, naturalmente, a Ferro Rodrigues, que advertiu que “a história de compromissos e convergências” destes 40 anos “tem forçosamente de se repetir neste tempo novo em que nenhuma força teve maioria absoluta”. E neste quadro “a responsabilidade de todos os grupos parlamentares é acrescida”. O novo presidente da Assembleia da República recua a ideia (que se presume subentender das palavras de Cavaco) de que há forças políticas dispensáveis: “Assim como não há deputados de primeira e segunda, também não há grupos parlamentares de primeira e de segunda, coligações aceitáveis e outras banidas”. E concluiu “a democracia não se faz sem democratas”.