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Marcelo contra governo de gestão

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Marcelo fala este sábado na Voz do Operário e escolheu um tema escaldante: os poderes presidenciais

Nuno Botelho

O professor fala este sábado dos poderes presidenciais, Maria de Belém e Nóvoa criticam o discurso de Cavaco

Luísa Meireles

Luísa Meireles

Redatora Principal

A latitude do candidato presidencial Marcelo Rebelo de Sousa continua a dar nas vistas. Hoje, chegará à sua terceira sessão pública (depois do anúncio em Celorico e do primeiro comício no Porto) vindo de Bragança, onde deu uma conferência no Instituto Teológico sobre João Paulo II, e aterrará na Voz do Operário, em Lisboa, para falar do tema mais escaldante do momento: os poderes do Presidente da República. Sem comentar diretamente a atuação de Cavaco Silva na gestão da atual crise, o candidato deixará pistas. Procuraria sempre a solução “mais viável e duradoura”, e exigiria um Orçamento do Estado aprovado. Ou seja, evitaria um governo de gestão.

Marcelo disse-o, sábado passado, no Mercado Ferreira Borges, no Porto, onde enumerou as que entende serem as três prioridades do Presidente da República: reaproximar os portugueses, promover os consensos de regime e ajudar a criar condições de governabilidade, numa palavra, fazer pontes. E quando elas falham? Aí, eis o que Marcelo deixou perceber: “As portuguesas e os portugueses votam. O Parlamento reflete essa participação. Seguindo a natural ordenação dos votos, o PR deve procurar a solução mais viável e duradoura, olhando às condições internas e externas da economia e da sociedade, envolvendo o Orçamento do Estado se a vizinhança da sua aprovação for evidente”. Seguiu-se a frase que parece rejeitar governos de gestão: “Nenhum país pode viver seis, sete, oito meses sem Orçamento do Estado aprovado”.

Se for eleito Presidente, Marcelo sabe que entrar em cena com um governo de direita em gestão (caso Cavaco não desse entretanto posse a um Executivo de esquerda), significaria ter de dissolver o Parlamento e convocar eleições antecipadas. Um cenário que o candidato não considera nada desejável, pelo que se depreende do que disse no sábado.

Se a tentação é concluir de imediato que ele, Marcelo, no lugar de Cavaco, daria posse a um Governo de esquerda se o de direita for chumbado, a verdade é que esse é um passo que o candidato evitará verbalizar até poder. Para já, apenas mostra que a esquerda está no seu raide de ação política. E a escolha do local para a sua primeira ação de campanha fala por si — a Voz do Operário, cenário habitual dos comícios do PCP e do BE, que tem como cenário de fundo a frase: “Trabalhadores uni-vos!”.

Ate finais de novembro, Marcelo Rebelo de Sousa tenciona fazer uma campanha o mais discreta possível. Uma intervenção semanal ou quinzenal e nada de anunciar mandatários ou diretores de campanha. “A estrutura formal só ficará pronta mais à frente, em finais de novembro, princípios de dezembro”, confirma um apoiante.

Maria de Belém critica

Maria de Belém, ao contrário de Marcelo, criticou abertamente o discurso do Presidente da República, considerando que este “não pode nunca condicionar a atuação do Parlamento”. Segundo a candidata, que falava à margem de uma ação de pré-campanha no Porto, agora “terminou o tempo do Presidente, iniciou-se o tempo do Parlamento”.

A candidata presidencial também considerou que “um dos poderes que o PR tem é o uso da palavra e o uso da palavra deve ser criterioso no sentido de fomentar a união entre os portugueses”, numa alusão às palavras duras de Cavaco Silva em relação à esquerda. “Ao Presidente da República incumbe salvaguardar a unidade do Estado e salvaguardar a separação dos poderes”.

Nóvoa estupefacto

Já Sampaio da Nóvoa considerou “natural” a indigitação de Passos Coelho, mas manifestou-se “estupefacto” quanto ao tom de “desafio e confronto” da comunicação do PR. “Um Presidente da República não pode ser fator de divisão, instabilidade, intolerância, deve ser um árbitro, equidistante, moderador e construir compromissos em vez de extremar posições”, afirmou ao Expresso.

“Ao dramatizar a escolha política dos portugueses, numa intervenção que sabia de antemão que iria ter eco internacional, o Presidente pode ter criado uma instabilidade que, na verdade, não existia, agitando receios que possam afetar a confiança e a credibilidade do país no estrangeiro. Para Nóvoa, “seria impensável que o PR não aceitasse dar posse a um governo com maioria parlamentar”, sendo que o seu discurso “deixou no ar a possibilidade de um arrastamento da crise”.

  • É às 18h, na Voz do Operário. Para a sua segunda ação de campanha, desta vez em Lisboa, Marcelo Rebelo de Sousa escolheu o tema do momento: os poderes presidenciais. Mas não dirá se empossava Costa primeiro ministro.