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Grevistas da fome que devemos recordar

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Orlando Zapata, cubano, aguentou uma greve de fome de 86 dias e morreu em 2010, com 42 anos. Bobby Sands, irlandês, morreu em 1981, com 27 anos. Xanana fez greve da fome em 1993. São histórias de luta por direitos e ideais

Ao 34º dia de greve de fome do ativista luso-angolano Luaty Beirão, o Expresso recorda outros homens e mulheres que usaram este método para lutarem por ideias e direitos. São muitos/as os que ficam de fora porque a greve de fome é usada há séculos como forma de protesto e luta por um mundo mais justo.

A par da médica portuguesa Isabel do Carmo, Xanana Gusmão, é outro dos casos de greves de fome que acabaram bem no universo lusófono.

Há 22 anos, com Timor ocupado pela Indonésia desde 1975, Xanana decidiu fazer greve de fome para pressionar a realização de um referendo sobre a independência do seu país. Preocupado com o estado de saúde do líder da resistência timorense, José Ramos Horta, optou por divulgar uma nota de imprensa no dia 25 de maio de 1993, em nome do Conselho Nacional da Resistência Timorense. Esse texto, redigido em inglês - para poder ser lido por um número maior de ativistas dos direitos humanos e jornalistas estrangeiros - alertava para o risco de vida que corria Xanana Gusmão.

O documento pode ser lido aqui.

Zapata, Vilar e Boitel

Orlando Zapata Tamayo resistiu durante 86 dias. Morreu numa prisão cubana a 23 de fevereiro de 2010, e era um dos 75 presos políticos da ‘primavera de 2003’.

A mãe de Orlando, Reina Luisa Tamayo, gravou uma declaração que a oposição cubana ajudou a divulgar, onde acusou o regime de Fidel e Raul Castro da morte do filho. “Este foi um assassinato premeditado e só posso agradecer a todos os países que lutaram para que ele não morresse”, disse Reina Luisa, numa declaração transcrita pelo jornal “El Mundo” de 24 de fevereiro.

Reina Luisa, mãe de Orlando Zapata, posa junto de uma foto do filho, preso político cubano, que morreu depois de ter estado 86 dias em greve de fome

Reina Luisa, mãe de Orlando Zapata, posa junto de uma foto do filho, preso político cubano, que morreu depois de ter estado 86 dias em greve de fome

Enrique De La Osa/Reuters

O primeiro dissidente cubano a morrer na prisão foi Pedro Luis Boitel, no início da década de 1960 do século passado. Perdeu o combate ao 53º dia de greve de fome.

Orlando Zapata, o segundo que perdeu a vida desta forma, tinha 42 anos e morreu às três da tarde de uma terça-feira, no hospital Hermanos Ameijeiras. Era um dos 75 dissidentes condenados na primavera de 2003; seis anos depois de ter sido condenado, entrou em greve de fome porque o Governo de Havana recusou o seu pedido para usar roupa branca, obrigando-o a vestir-se com o uniforme usado pelos presos comuns.

Dois anos depois, em janeiro de 2012, os oposicionistas do regime de Castro fizeram luto pelo terceiro dissidente: Wilman Villar Mendoza, 31 anos, morria em hospital de Santiago, a segunda cidade de Cuba, depois de ter feito greve de fome durante 50 dias. Ativista dos direitos humanos, tinha sido condenado em novembro de 2011 a quatro anos de prisão.

Bobby Sands no Parlamento português

Mário António Baptista Tomé, por muitos conhecido como Mário Tomé, foi eleito deputado da UDP nas eleições de 5 de Outubro de 1980. A 8 de maio do ano seguinte, três dias depois da morte do ativista irlandês Bobby Sands [5 de maio de 1981], Mário Tomé fez uma intervenção na Assembleia da República, repudiando o “assassinato” de Bobby Sands e a “tortura” a que era sujeito o povo irlandês que lutava contra a presença dos “soldados ingleses” no seu território.

Marcha em memória de Bobby Sands, dois anos depois da sua morte

Marcha em memória de Bobby Sands, dois anos depois da sua morte

STF/AFP/Getty Images

Tomé criticou veemente o Governo de Margaret Thatcher, pela sua política de opressão das classes trabalhadoras e da luta da Irlanda do Norte, como se pode ler na transcrição dos debates parlamentares de então.

Robert Gerard Sands, mais conhecido por Bobby Sands, decidiu recusar alimentos a 1 de março de 1981 e foi o líder da greve de fome de um grupo de republicanos irlandeses contra a abolição de um estatuto especial que era concedido aos presos políticos irlandeses. Durante os 66 dias em que fez de fome, foi eleito deputado para o parlamento britânico, na sequência da morte por ataque cardíaco de Frank Maguire.

O protesto de Sands teve uma ampla repercussão mediática e política em toda a Europa, o que levou Sands a mobilizar outros republicanos irlandeses para a greve de fome com o objetivo de sensibilizar a opinião pública mundial para a causa irlandesa. A estratégia de Sands previa que as 10 greves fossem iniciadas de forma escalonada, de forma a que existissem sempre detidos em condições severas de deterioração ao longo de vários meses.

Não ao uniforme e sim às visitas e cartas

Sands queria que os republicanos irlandeses não fossem obrigados a vestir o uniforme da prisão, não tivessem de fazer os trabalhos prisionais previstos, tivessem direito de livre associação com outros detidos, e pudessem organizar atividades educativas e recreativas.

O direito de receber uma visita por semana, bem como uma carta e uma encomenda eram outras das reinvindicações, que faziam parte da luta pela restauração do estatuto especial dos presos políticos do IRA [Irish Republican Army].

Os dez republicanos irlandeses que aderiram à greve de fome de 1981 tiveram tempos de sobrevivência que oscilaram entre os 46 e os 73 dias.

Mais de 100 mil pessoas assistiram ao funeral de Bobby Sands.