Siga-nos

Perfil

Expresso

Política

Editoriais antecipam cenário de instabilidade e vida curta ao Governo

  • 333

Nuno Botelho

Uns mais à direita, outros mais à esquerda, a maioria dos jornais nacionais prevêem a queda do Executivo liderado por Passos Coelho. Governo de gestão será o espelho da instabilidade

A comunicação do Presidente da República ao país domina os editoriais dos jornais portugueses, que sublinham esta sexta-feira que a decisão de Cavaco Silva era absolutamente expectável. Inclinações políticas à parte, todos antecipam em geral um cenário de instabilidade política para os próximos tempos.

O “Público” escreve que o que surpreendeu na declaração desta quinta-feira do chefe de Estado foi o “apelo à rebelião dos deputados do PS”. Sob o título, os “nervos da direita europeia”, o texto sublinha ainda que o encontro do Partido Popular Europeu, em Madrid, demonstrou que a “hipótese de formação de um Governo de esquerda em Portugal cria condições objetivas para uma contaminação política tendente ao enfraquecimneto da influência do PPE.”

E diz que é inaceitável a “notória intromissão” de dirigentes como Joseph Paul, presidente do PPE, e António Lopez Isturiz, secretário-geral da organização, em situações que dizem respeito a Portugal.

No “Diário de Notícias”, o editorial assinado por André Macedo lamenta que o Presidente “insista em ser a pior versão dele próprio.” O diretor do diário admite que Cavaco tenha opiniões, mas critica o facto de não se mostrar capaz de encontrar um “caminho estreito” para uma solução de Governo que garanta os compromissos do país.

“O Presidente da República não traiu a sua natureza política, falou muito, esburacou e tentou desacreditar o PCP e o Bloco, humilhou 20% dos portugueses que votaram nestes partidos, deixou claro que prefere um Governo PSD/CDS do que outro à esquerda, mas não exclui verdadeiramente nada”, realça o jornalista.

No “i”, Vítor Raínho escreve que a decisão de Cavaco Silva foi recebida com “grande estrondo” e que o chefe de Estado foi mais longe ao defender que o país “não se pode dar ao luxo” de pôr em causa acordos com credores e que a solução de um Governo de esquerda “colocaria tudo de pernas para o ar”.

Reconhece ainda que o Executivo da coligação PSD/CDS não deverá ter uma vida longa, ficando em gestão até à chegada do novo Presidente. “Até lá, o país ficará nas mãos e no sentido da responsabilidade de 230 deputados”, conclui.

No “Correio da Manhã”, Leonor Ralha, editor de fecho da edição, defende a convocação de novas eleições para pôr fim ao atual impasse político. “A forma de resolver o imbróglio em curso será convocar novas eleições no primeiro domingo em que seja possível, e a ida a voto das duas coligações, a real e que a mantém António Costa.”

Sob o título “A trapalhada que Cavaco arranjou”, José António Saraiva sustenta na coluna por si assinada no “Sol”, que o Presidente apercebeu-se tarde de que os seus apelos aos partidos abririam porta à vontade do PCP e do BE de entrarem no arco da governabilidade.

Afirmando que o PCP e o BE se assumiram como “cavalos de Tróia”, Saraiva fala em “hipocrisia” quando invocam a exigência feita pelo Presidente da República de oferecer uma maioria no parlamento que garanta estabilidade. “Os lobos transformaram-se subitamente em cordeiros, fazem de Cavaco parvo”.

Helena Garrido afirma, por sua vez, no “Jornal de Negócios”, que Cavaco Silva respeitou a tradição democrática e que cabe ao PS, o “epicentro deste abalo” de clarificar a sua posição e ao BE e PCP “partirem o muro” e alterarem os seus programas.

“O Presidente da República respeitou os eleitores e o regime. Fez o que tinha de fazer. Indigitou o lider do partido mais votado como primeiro-ministro. E rejeitou em absoluto um Governo que seja apoiado por partidos não europeístas. Não é de direita ou esquerda que aqui se trata. A nossa escolha é entre estar ou não no euro”.

A diretora da publicação diz ainda acreditar em mais “dias difíceis, marcados pelo radicalismo e pela falta do bom senso, característica dos momentos de paixão”.

O “Diário Económico” frisa por sua vez que o Presidente da República “elevou a parada para a esquerda”, após “18 dias de jogos de poder inéditos” na democracia nacional. Segundo o editoral do DE, Cavaco Silva liberta-se da “armadilha dos argumentos” dos partidos da esquerda, mas no plano político não é alcançada uma maioria estável.

“O compromisso inequívoco quanto aos pilares do projeto europeu é crucial em qualquer solução de Governo”, sublinha o jornal.