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Qual das instabilidades prefere?

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Nuno Botelho

No meio de tanta incerteza, uma coisa parece certa: vamos ter um ciclo político curto. As duas opções de governo parecem instáveis. A coligação PSD-CDS porque não tem maioria parlamentar; um governo minoritário do PS porque dependerá sempre da boa vontade simultânea de PCP e Bloco. Apesar dos resultados eleitorais, a escolha será sempre do Parlamento. Leia na íntegra a análise do diretor Ricardo Costa publicada no Expresso Diário de quinta-feira

Ricardo Costa

Ricardo Costa

Diretor de Informação da SIC

A noite eleitoral foi o exato retrato do que estamos a viver. Ninguém deu por isso, naturalmente, mas aquela meia dúzia de horas foi uma visão acelerada do que estamos agora a viver: a noite começou com uma quase maioria absoluta e festejos incondicionais da coligação governamental, mas acabou com os socialistas a tentarem sacudir a água do enorme balde água fria que lhes tinha caído em cima e transformar uma derrota histórica numa improvável vitória posicional. As cautelas dos vencedores e a esperança dos vencidos decorrem do mesmo fator: a forte votação dos partidos mais à esquerda, com o Bloco a ultrapassar o PCP e os dois a somarem um elevado número de deputados.

José Caria

Os factos resumem-se a esta simples constatação: quem ganhou não tem maioria; quem perdeu pode ter uma eventual maioria. E é aqui que começam os problemas, porque este nó que deveria ser desatado da forma mais clássica, com PS a viabilizar um governo PSD/CDS, ficou ainda mais confuso quando o PS começou a negociar com PCP e Bloco e estes dois partidos não se fizeram rogados.

Esta dupla situação extremou as posições entre a atual coligação governamental e o PS. Por um lado, Passos e Portas não esperavam que a guinada à esquerda do PS fosse literal. Por outro, o PS aproveitou esse desacerto para virar ainda mais à esquerda e mostrar que não estava a brincar. E hoje parece que está a levar as negociações à esquerda mesmo a sério, numa novidade absoluta em 40 anos de democracia, em que PCP e Bloco, por exemplo, nunca viabilizaram sequer um Orçamento do Estado socialista.

Nuno Botelho

Esta absoluta novidade política, que teoricamente alarga o arco da governação a dois partidos que sempre estiveram (auto)excluídos, é uma revolução coperniciana, por mais frágil que pareça. Baralha todas as contas presentes e eventualmente futuras. Além disso, levanta óbvias questões de legitimidade política e até questões de legitimidade formal, desde dúvidas constitucionais legítimas até acusações de usurpação de poder e golpe de Estado.

Ao contrário do que possa parecer, a eventual alternativa de esquerda não levanta problemas formais ou constitucionais. Apesar de nunca ter acontecido na nossa democracia e das imensas dúvidas que levanta, uma coligação maioritária de três partidos derrotados tem legitimidade formal para governar. Isso acontece neste momento em pelo menos quatro países europeus e pode acontecer em Espanha no final do ano. Mais importante, pode acontecer em Portugal, como estamos a ver. Não estávamos era a ver antes e isso levanta legítimos problemas políticos.

A legitimidade formal desta eventual opção não esconde duas coisas demasiado evidentes: a) o processo está a ser conduzido por um líder derrotado e fragilizado, aos olhos dos eleitores e do próprio partido, sem reais garantias de continuidade; b) PS, PCP e Bloco têm um oceano de diferenças e de guerras antigas a separá-los e estão a tentar juntar-se por razões negativas, ou seja, mais para afastar alguém do que para construir algo em comum. É isso, pelo menos, o que nos diz o passado.

Marcos Borga

A surpresa do eleitorado, divide-se agora, naturalmente em, estupefação, indignação e esperança. Estupefação de todos, indignação de quem acha que o vencedor está a ser afastado de forma ilegítima do poder. Esperança dos que sempre defenderam um governo de esquerda e que o veem agora surgir à sua frente de forma inesperada. Quantos estão de cada lado? A conta não é fácil de fazer, sobretudo porque é difícil contabilizar o eleitorado do PS, onde haverá muita gente a preferir um alinhamento mais clássico com PSD e CDS.

Essas contas agora parecem valer de pouco, porque os comboios já deixaram a estação e seguem os seus rumos negociais. E assim caminhamos para uma de duas opções, ambas instáveis: uma velha conhecida e outra que se explica numa enorme incógnita. O que nos dá mais garantias? Um governo PSD e CDS dependente de um realinhamento do PS e de um momento em que os três partidos decidam chumbar uma lei decisiva ou avançar com uma moção de rejeição? Ou uma maioria de três partidos com velhos ódios, que só se juntavam em votos de protesto, louvor ou pesar, e que agora tiveram uma súbita vontade de trabalhar juntos.

Neste momento podemos dizer que mesmo que corra bem a alguém, vai seguramente acabar mal, algures a meio da legislatura, talvez antes. Neste incrível processo, recheado de surpresas, o risco maior é do Partido Socialista, que já não tem muitas opções para sair bem das escolhas que fez: se volta atrás e fecha um acordo com PSD e CDS vai ser acusado de traição pelos partidos de esquerda; se prossegue a sua viragem ao fim, faz uma das maiores alterações da sua história e muda para sempre o panorama partidário português.

Qualquer dos cenários pode garantir a Passos Coelho uma maioria absoluta a médio prazo. PSD e CDS sabem isso muito bem. A única hipótese que o PS tem de ganhar com este processo a médio prazo passa por conseguir governar pelo menos três anos. Mas com a pouca solidez das partes envolvidas e com o brutal escrutínio a que será sujeito (lembram-se do governo Santana, que nasceu torto?) isso dificilmente acontecerá.

Esqueçam a indignação ou a euforia. Tudo isto é possível. O que é altamente duvidoso é que qualquer dos cenários ainda seja possível daqui por dois ou três anos.

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