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As cores finais do país que votou

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Terminada a contagem dos votos dos emigrantes, conclui-se que a abstenção ficou ainda mais alta (44,14%) - é a maior de sempre numas legislativas. Em 75 dos 308 concelhos do país pelo menos metade da população não votou. Bloco ganhou votos em todos os concelhos, enquanto a CDU perdeu votos em 116. PS teve as maiores perdas nos concelhos pertencentes aos distritos de Braga e Porto, a coligação venceu em 12 distritos (e ainda na Madeira, mas só com o PSD – não houve PàF no arquipélago)

Raquel Albuquerque

Raquel Albuquerque

Texto

Jornalista

Jaime Figueiredo

Jaime Figueiredo

Infografia

Infográfico

Dez dias depois de terem encerrado as urnas a nível nacional, foram contados os votos dos emigrantes nas eleições legislativas de 4 de outubro. Apurados os 23 consulados dentro e fora da Europa, foram distribuídos os quatro mandatos que faltavam: a coligação PSD/CDS elegeu mais três deputados, o PS elegeu um. Na 15ª vez em que os portugueses - cá dentro e lá fora - votaram para eleger um governo, 5,4 milhões deslocaram-se às urnas, revelando-se a taxa mais baixa de votação de entre todas as legislativas desde 1975.

Dentro e fora do país, votaram 55,86% dos portugueses inscritos, o que reflete a taxa de abstenção mais alta de sempre (44,14%), acima das anteriores em 2011 (41,9%). Entre os portugueses residentes no território a abstenção foi de 43% e fora do país foi de 88,32%. Tanto num caso como no outro são os valores mais altos alguma vez registados numas eleições legislativas.

Houve menos votantes, mais abstenção, mas também mais votos nulos – o maior número desde 1985 – e menos votos em branco. O concelho de Melgaço, no distrito de Viana do Castelo, registou o mais elevado nível de abstenção – chegando aos 67,12%. Outros concelhos como Ribeira Grande e Vila Franca do Campo, nos Açores, rondaram uma taxa de 63%.

Houve 75 concelhos onde pelo menos metade das pessoas não votaram. Pelo contrário, o concelho do Sardoal, em Santarém, voltou a ter a mais baixa taxa de abstenção do país (29,53%), assim como Vila de Rei em Castelo Branco (29,57%), Mação em Santarém (31,22%) e Vila Velha de Ródão em Castelo Branco (31,84%), onde mais eleitores se deslocaram às urnas.

Coligação foi o partido mais votado pelos emigrantes

Quanto à votação nos círculos da emigração, havia mais 47 mil eleitores inscritos do que nas passadas legislativas de 2011. Contudo, contaram-se menos 4.705 votos do que nas eleições anteriores. Houve menos abstenção entre os portugueses a viver na Europa (82,57%) do que os que vivem no resto do mundo (91,07%).

Conclui-se ainda que a coligação PSD/CDS foi a força política mais votada (43,95% do total), seguida pelo PS (20,01%) e pelo partido Nós, Cidadãos! (9,58% dos votos). Mas há diferenças: entre os portugueses a residir na Europa, 39,10% votaram no PSD/CDS e 29,98% votaram nos socialistas, enquanto os portugueses a viver no resto do mundo deram 48,46% dos votos à coligação Portugal à Frente, 17,90% ao Nós, Cidadãos! e 10,83% ao PS.

Ao olhar em detalhe para alguns dos países, conclui-se que só na China é que a coligação PSD/CDS não foi o mais votado – nos consulados da China o Nós, Cidadãos! teve 81,39% dos votos. De referir ainda o caso dos portugueses em França: só nos consulados de Paris e Toulouse é que a coligação PSD/CDS venceu. Nos restantes, o PS foi o partido com mais votos.

O novo mapa do país

A forma como os portugueses residentes em Portugal votaram fica refletida no novo mapa eleitoral, que permite perceber o que mudou em relação às legislativas anteriores. A coligação Portugal à Frente (PàF) foi o partido mais votado em 12 distritos, sobretudo no norte e centro do país, entre eles Viana do Castelo, Braga, Vila Real, Aveiro, Bragança, Coimbra, Leiria, Lisboa, Porto e Santarém. Também na Madeira, onde o PàF não concorreu, ganhou o PSD.

Porém, em Castelo Branco, Faro e Portalegre ganhou o Partido Socialista, contrariando o que tinha acontecido nas últimas legislativas, em que o partido mais votado tinha sido o PSD.

Ao olhar para o partido mais votado por concelho, torna-se mais visível que as grandes mudanças estão no sul do país: de todos os concelhos algarvios onde o partido social-democrata tinha vencido nas eleições de 2011, apenas em três venceu a coligação nestas eleições. Em todos os restantes, o PS ficou à frente.

Também no Alentejo houve concelhos onde o PS foi o partido mais votado. No distrito de Portalegre, houve nove concelhos que o PSD perdeu para o PS, assim como mais quatro no distrito de Évora.

Pelo contrário, em todos os concelhos do distrito de Bragança e de Viseu, o partido mais votado em 2011 tinha sido o PSD e nestas eleições foi a coligação. Já a CDU perdeu Viana do Alentejo em Évora e Aljustrel em Beja para o PS, assim como Moita, no distrito de Setúbal, e Alpiarça, em Santarém.

As conquistas do BE

Uma das maiores conquistas foi o resultado histórico do Bloco de Esquerda, que conseguiu duplicar o número de deputados na bancada parlamentar. Olhando para os resultados a nível do concelho, conclui-se que o BE ganhou votos em todos os 308 concelhos do país, se compararmos o número de votos nestas eleições com os que foram obtidos em 2011.

As maiores percentagens de voto no BE registaram-se no concelho de Entroncamento, em Santarém (16,23%), e depois nos concelhos de Portimão, Lagoa e Lagos, no Algarve, rondando os 16%. Pelo contrário, o concelho do Corvo, nos Açores, e de Boticas, em Vila Real, foram os que registaram as menores percentagens de voto no BE (abaixo de 3%).

O que também se conclui é que os concelhos de Lisboa, Vila Nova de Gaia e Sintra deram mais 11 mil votos cada um ao BE, em comparação com as últimas legislativas. As grandes diferenças, em termos percentuais, ficam nos concelhos de Vizela, em Braga (13,22% dos eleitores votaram no BE, em comparação com os 4,85% que tinham votado em 2011), assim como Constância, em Santarém, Funchal, na Madeira e Fundão, em Castelo Branco, registando as maiores diferenças em pontos percentuais de umas eleições para as outras.

Perdas do PS em Braga e Porto

Já o Partido Socialista perdeu votos sobretudo nos distritos de Braga e Porto: as maiores quebras em termos de número de votos deram-se em 12 concelhos desses dois distritos. Entre eles está Guimarães, Vila Nova de Famalicão, Vizela, Fafe e Barcelos, no distrito de Braga; e também Felgueiras, Santo Tirso, Paredes, Lousada, Marco de Canaveses e Paços de Ferreira, no distrito do Porto.

Em 2011, metade da população de Vizela tinha votado no PS (50,60%), descendo para 37,59% nestas eleições. Porém, o PS ganhou votos em 258 concelhos e perdeu em 50, destacando-se Lisboa com mais 23 mil votos nos socialistas do que o que foi registado nas últimas legislativas.

Os principais saltos, em termos percentuais, na votação no PS estão nos Açores, tendo sido o partido mais votado em vários concelhos. Além do Corvo, nos Açores, também no concelho de Gavião, em Portalegre, e em Vila Velha de Ródão, em Castelo Branco, metade da população votou no Partido Socialista.

As diferenças na CDU

A CDU perdeu votos em 116 concelhos do país e ganhou em 189, estando as maiores quedas, em termos absolutos, nos concelhos de Lisboa, Seixal, Almada e Barreiro. Pelo contrário, Sintra, Gondomar e Vila Nova de Gaia registam as maiores subidas no número total de votos. Em termos percentuais, a principal descida deu-se em Borba, distrito de Évora, onde 17,29% dos eleitores tinham votado na CDU em 2011, descendo para 13,27% nestas eleições.

Também no concelho de Alpiarça, Santarém, a percentagem passou de 34,70% em 2011 para 31,41% na votação de dia 4 de outubro.

Apuradas todas as freguesias do país e os 23 consulados da emigração, o PSD/CDS foi o partido mais votado com 38,57% dos votos (107 mandatos), o PS com 32,31% (86 mandatos), o BE com 10,19% (19), a CDU com 8,25% (17) e o PAN com 1,39% (1 deputado).