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Assis avisa Costa: “Não se pode governar a qualquer preço e de qualquer maneira”

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Alberto Frias

Em entrevista à RTP, o eurodeputado deixou clara a sua divergência com o líder socialista quanto à hipótese de um Governo à esquerda: “Pagaremos um preço muito elevado por isso”, alertou. Admitiu poder candidatar-se à liderança, mas apenas “em condições excecionais de que estamos ainda muito longe”, disse

Cristina Figueiredo

Cristina Figueiredo

Jornalista da secção Política

A entrevista de Francisco Assis era aguardada com muitas expetativa por parte dos socialistas que, discordando da estratégia que está a ser prosseguida por António Costa para eventualmente conseguir liderar um Governo assente num entendimento à esquerda, admitiam que Assis pudesse vir a capitanear a oposição interna. O eurodeputado não disse que não. Mas também não disse que sim.

Deixando clara a sua divergência com António Costa neste propósito, afirmando com todas as letras que um Governo dessa natureza (PS+BE+PCP) seria “um Governo contranatura”, Assis afirmou que “a questão da liderança do PS não se coloca neste momento” e garantiu que só voltará a ser candidato à liderança do PS (foi-o pela primeira vez em 2011) “em condições excecionais de que ainda estamos muito longe”. Mais à frente, acrescentaria apenas: “Sou um homem disponível para assumir sempre as suas responsabilidades políticas nos bons e nos maus momentos”.

Na entrevista, que durou cerca de 50 minutos, o cabeça-de-lista nas europeias de 2014, e que esteve ao lado de António José Seguro nas primárias de há um ano, não poupou nos elogios ao atual secretário-geral. “Estou convencido que seria um homem com extraordinárias qualidades para dirigir um Governo”. Reputando-o como “sério” e “íntegro”, recusou ver na atitude que ele tem mantido desde 4 de outubro uma mera estratégia para se manter no poder. “Isso é uma injúria”, qualificou mesmo, recusando condenar o facto de Costa não se ter demitido após ter perdido as legislativas: “Não acho que os partidos devam estar sempre a mudar de líder - é uma tradição negativa”, disse. “António Costa é uma personalidade respeitável. Lá porque perdeu não significa que a sua vida política acabou”, acrescentou ainda.

O que não o impede de discordar profundamente do líder do PS quando este admite poder formar um Governo com BE e PCP. “Não se pode governar a qualquer preço e de qualquer maneira”, avisou, “porque a seguir pagaremos um preço muito elevado por isso”, explicou. Na sua opinião, PCP e BE “não vão deixar de ser quem são de um momento para o outro”. Afirmando “não acreditar” que eles estejam dispostos a deixar de lado as suas convicções, tão distintas do PS, em matérias tão estruturantes como a Europa ou a política externa, comparou a formação de um Governo com os três partidos de esquerda com “uma associação ateia que convidasse o Papa para se lhes juntar, admitindo haver uma divergência menor - você acredita em Deus e nós não”. “Essa divergência é profunda”, reiterou.

Detalhou: “O Estado Social é uma marca identitária do PS. Temos responsabilidades históricas de impedir que a direita o destrua mas, para isso, temos de admitir que são precisas reformas profundas. E os partidos de esquerda estão fechados a qualquer transformação”.

Afirmando ter esperanças que o resultado final da negociações seja aquele que preconiza - um Governo da coligação de direita com o PS a assumir o papel de líder da oposição, negociando com o Governo, a cada momento, a cada proposta -, resumiu ainda: o diálogo do PS com a direita “não tem interesse”; o diálogo do PS com a esquerda “é inútil”.