Siga-nos

Perfil

Expresso

Política

Mulheres na política: feministas ou comuns cidadãs?

  • 333

DR

No mesmo dia e à mesma hora em que Maria de Belém faz a apresentação oficial da sua candidatura à Presidência, um novo livro mostra que a comunicação social retrata de forma diferente as mulheres e os homens que andam na política. Preconceito ou talvez não....

No dia em que Maria de Lourdes Pintasilgo fez o discurso final sobre o programa de Governo, optou por “um vestido de seda preta, que lhe caía direito, sóbrio, com um toque juvenil, rigorosamente dentro dos cânones da moda para este ano. Lurdes Pintasilgo traz uma mala preta e sapatos da mesma cor”.

A investigadora Carla Martins recuperou esta descrição da indumentária da mulher que durante 125 dias chefiou o V Governo Constitucional, no já desaparecido semanário “O Jornal”. Diga-se em abono da verdade, que este foi o único órgão de informação a mostrar uma imensa curiosidade pela “privacidade” de Pintasilgo, a única mulher que foi primeira-ministra de Portugal e, também, a única a ir a votos numas eleições presidenciais até hoje.

“Mulheres, Liderança Política e Media” - um livro que decorre da tese de doutoramento de Carla Martins - analisa a forma como os órgãos de comunicação abordaram a intervenção política de Maria de Lourdes Pintasilgo e de Manuela Ferreira Leite.

Mais de duas décadas separam estas lideranças. Depois de Pintasilgo ter sido primeira-ministra em 1979, Manuela Ferreira Leite foi a primeira mulher a ser eleita líder de “um grande partido político” em 2008, e é nessa qualidade que implicitamente disputa o cargo de chefe do Governo nas Legislativas de 2009.

Posse do Governo de Durão Barroso em 2002. Manuela Ferreira Leite foi a primeira mulher a chefiar a pasta das Finanças

Posse do Governo de Durão Barroso em 2002. Manuela Ferreira Leite foi a primeira mulher a chefiar a pasta das Finanças

Rui Ochôa

Sobre Manuela Ferreira Leite, o livro de Carla Martins relembra que o país mediático abriu a boca de espanto, quando assistiu à entrevista que Ferreira Leite (MFL) deu ao humorista Ricardo Araújo Pereira no programa “Gato Fedorento”: “É de tal forma notório que MFL se furta à imagem dominante que dela é construída - a imagem ‘quase espartana’, de pessoa fria e distante, de ‘senhora doutora’ - que os media não escondem a surpresa pela revelação de outras facetas da sua personalidade”.

O discurso jornalístico do Expresso não escapa à análise de conteúdos de Martins, que transcreve a coluna “Gente” dessa semana: “A ida de Ferreira Leite ao Gato foi uma supresa. Dois milhões de portugueses viram-na rir pela primeira vez. E terá sido a última?”.

Capa do livro da investigadora Carla Martins que analisa as lideranças políticas de Maria de Lourdes Pintasilgo e Manuela Ferreira Leite

Capa do livro da investigadora Carla Martins que analisa as lideranças políticas de Maria de Lourdes Pintasilgo e Manuela Ferreira Leite

DR

Ao longo de 360 páginas, Carla Martins, contextualiza o debate sobre a questão do Género na intervenção política, e faz uma longa reflexão sobre o enquadramento desta problemática na sua relação com os media. A segunda parte do livro foca-se na análise do discurso dos órgãos de comunicação social, sobre as lideranças de Lourdes Pintasilgo e Manuela Ferreira Leite.

Posse de Maria de Lourdes Pintasilgo como primeira-ministra do V Governo Constitucional

Posse de Maria de Lourdes Pintasilgo como primeira-ministra do V Governo Constitucional

FOTO ARQUIVO A CAPITAL

Comparando os períodos das lideranças de Pintasilgo e Ferreira Leite, “o ângulo de género é mais explicitamente ativado em 1979, tal a discussão dos sexismos. O mesmo não sucede trinta anos mais tarde, em que é mais subtil a relação entre os enviesamentos na representação e pressuposições de género por parte de jornalistas e comentadores”.

A nomeação de Pintasilgo para o cargo de primeira-ministra, “ainda que hoje seja praticamente ignorada pela literatura, gerou grande entusiasmo entre as representantes do feminismo francês, como recorda a socióloga e política Françoise Gaspard”, recorda Martins no seu livro.

Já a nomeação de Ferreira Leite para ministra das Finanças - foi retratada na imprensa - como uma espécie de Ernâni Lopes de “saias” - ou seja uma técnica pragmática e dura que nunca abraçou publicamente a bandeira das causas femininas.

Ao longo de 41 anos de democracia, Portugal teve 25 governos e 15 primeiros-ministros diferentes. Foram nomeados para funções governativas 1609 homens e 127 mulheres: houve 31 mulheres ministras e 467 homens.

O número de deputadas registou um aumento significativo nas últimas legislaturas mas, apesar do parlamento da XIII legislatura [eleita a 4 de outubro, mas ainda sem resultados definitivos] ser provavelmente aquele que terá uma maior taxa de feminização na democracia portuguesa, cerca de 70% dos deputados eleitos são homens.

Carla Martins deixa-nos este alerta: “Em pleno século XXI, os estereótipos mais facilmente passam indiscutidos e irrefletidos nos enquadramentos dos jornais, nas suas interpretações da figura de Manuela Ferreira Leite, indiciando um recuo na propensão dos jornalistas para, na voragem e aceleração da produção noticiosa e no fluxo dos acontecimentos diários, problematizarem as ‘pequenas teorias tácitas’, as ‘noções pré-teóricas’, sobre a realidade na seleção, ênfase e apresentação das notícias”.

A apresentação do livro “Mulheres, Liderança Política e Media” é às 18h30 desta terça-feira, na sede da Casa da Imprensa, em Lisboa.

  • O coordenador do livro é homem, moçambicano e professor da Universidade Mondlane. As autoras, são quatro mulheres com olhares diferentes sobre o estado do feminismo em Portugal, Brasil e Guiné-Bissau. “O que é o feminismo?” é parte integrante de um debate que discute temas com o contributo de investigadores de todos os países da lusofonia