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“Só engolindo o Bloco o PS pode ganhar eleições”

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Alberto Frias

Entrevista a Nuno Garoupa, Presidente da Fundação Francisco Manuel dos Santos

Luísa Meireles

Luísa Meireles

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Redatora Principal

Alberto Frias

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Fotojornalista

Este professor catedrático de Direito na Universidade de Illinois (EUA), em licença de vencimento, não tem papas na língua. Diz que com estas eleições mergulhámos no pântano.

A coligação perdeu 700 mil votos e ganhou, o PS ganhou 300 mil mas perdeu, o BE e o PC ganharam. As eleições ainda se ganham ao centro?
Ainda, mas o centro é volátil. Arrisco que 200 mil votos do centro saltaram diretamente para o BE e arrisco até que são pensionistas, zangados com a coligação e assustados com a conversa das pensões que Costa não soube explicar.

Para crescer o PS só pode ir buscar votos à esquerda?
Nos números, o resultado das eleições só é comparável a 2005 e a 1995, em que houve grandes derrotas da direita, que está no seu número mínimo, em torno dos dois milhões. A diferença são os 500 mil votos que estão no BE e que fazem falta ao PS. Este tem de definir a sua relação com o BE.

“Engolindo” o BE?
Há diversas formas de “engolir”: ou os 500 mil voltam para o PS, ou fazem uma coligação, ou este traz o BE para dentro, à semelhança do que o SPD fez na Alemanha com os Verdes. Se o PS não recuperar esses 500 mil, não ganha uma eleição, enquanto a coligação estiver unida. E esta não se desfaz, porque senão o PSD perde as eleições.

É uma mudança estrutural no sistema político?
Depende. Já tinha havido uma AD e um BE com quase 10% de votos, mas nunca ao mesmo tempo. O arco da governação passou de três para dois partidos e há 20% do eleitorado que está fora. É conjuntural? O BE tem um eleitorado volátil e não sei se podemos falar de uma fusão do CDS e do PSD ou se vai haver uma crise.

Regressámos ao pântano ou à política?
Ao pântano, infelizmente. Aprovar orçamentos vai ser um sofrimento, vai haver choques permanentes, uma agonia, à espera de quem comete o erro de mandar o governo abaixo, e quem está no governo a fazer um certo populismo porque a qualquer momento vamos para eleições. A solução seria assumir já que vai haver eleições para o ano, assegurar um governo minoritário até às eleições e dar tempo a que o PS e a direita se definam. Nessa altura as pessoas decidirão que soluções de longo prazo querem.

O PS corre o risco de “pasokização” se se alia à direita, ou de “syrização” se o faz à esquerda...
O PS vai ter de tomar uma decisão ou alguém altera a sua posição e, para o fazer, tem de ficar claro que obteve algo em troca. O resultado eleitoral não é amigo da estabilidade.

A iniciativa do PR ajudou?
Ele esteve certo na substância, mas errado no processo. Ao querer patrocinar uma solução de consenso devia ter chamado os líderes dos dois partidos mais votados e depois dizer que lhes pediu que encontrassem uma solução.

Como coloca o problema da legitimidade?
Somos uma democracia representativa e não plebiscitária: quem tem mais votos deve ser o primeiro a tentar formar Governo, mas não é o único. Se não consegue, há outras alternativas parlamentares. Não pode haver deputados com cordão sanitário à volta.

Acabou o arco da governação, tal como ele era concebido?
Vamos ver. O que não parece bom a médio prazo é insistir num arco da governação que exclui partidos que já somam 20%. Senão vai acontecer o que se passou em França com a Frente Nacional, criando condições para que esse cordão sanitário aumente.

Têm-se autoexcluído...
Sim. Mas o PCP não tem ambições de entrar no Governo e o BE pode ser tentado. O eleitorado é diferente.

Portugal está preparado para um governo PS com o apoio do PC e do BE?
Está preparado, se for esse o caminho. Outra coisa é ser um governo estável, como acho que não será um governo minoritário da direita.

O PR não vai poder sair com o governo estável que ambicionava?
Acho que não. Pior é chegarmos a janeiro sem um compromisso claro e fazermos das presidenciais uma segunda volta das legislativas em que quem ficar na oposição quer fazer a revanche a quem ficou no Governo.

Contundente

Possivelmente porque tem um olhar estrangeirado sobre o país, Nuno Garoupa diz coisas contundentes, que se podem ler no Facebook. Num dos seus últimos posts dizia: “Uma coisa é não gostar mesmo nada de certa coligação pós-eleitoral e temer pelas suas consequências económicas. Outra coisa é desenvolver teorias mirabolantes sobre deputados de primeira (podem ser parte de maiorias parlamentares) e de segunda (só podem ser da oposição). E ainda outra coisa é uma área política arrogar-se o direito de decidir quem é e quem não é verdadeiramente democrata. A elementar sanidade mental aconselha a não confundir tudo”.