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Chegou mesmo a hora de Marcelo?

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José Carlos Carvalho

Falhou uma eleição quase garantida para a Câmara de Lisboa, foi líder sem grande sucesso no seu partido de sempre e agora arranca para o Palácio de Belém à frente de todas as sondagens, apesar de Passos Coelho não confiar nele. Enfant terrible honorário, adorado pelos alunos na faculdade e seguido por um número impressionante de espectadores, foi sempre mais brilhante no jornalismo, no comentário e no ensino do que na carreira política. Chegou mesmo a sua hora?

Ricardo Costa

Ricardo Costa

Diretor de Informação da SIC

Será que Portugal está preparado para ter um Presidente da República como Marcelo Rebelo de Sousa? Um solitário que transpira política, quase não dorme, fala incessantemente ao telefone, domina a intriga política e se diverte com quase tudo o que faz? A resposta não é simples, porque Marcelo é tudo menos simples: ele é o tipo que as elites levam pouco a sério, mas que é respeitado como poucos nos corredores das faculdades de Direito; ele é o rei do improviso, mas que tem uma cultura enciclopédica; é o pai dos factos políticos na página 2 do Expresso - jornal que ajudou a fundar e que dirigiu mais tarde -, mas percebe de política como quase ninguém; arrasa o seu partido quando lhe apetece, mas sai em ombros de qualquer congresso do PSD onde entra, mesmo quando não é convidado ou desejado.

O calendário da sua candidatura é o melhor exemplo disto tudo. Sem nunca confirmar se avançava ou não, conseguiu manter-se como comentador da TVI até ao último dia e impedir qualquer candidatura da sua área política natural. Santana Lopes esteve decidido a avançar e recuou, Rui Rio esteve quase decidido e não chegou a desfazer a dúvida antes do anúncio de Marcelo, Alberto João Jardim lançou a ideia e um pré-programa, mas não passou ainda disso. Porque é que figuras tão diversas e com tanta autonomia política se sentiram tolhidas por uma eventual candidatura de Marcelo a Presidente? Por uma razão muito simples: porque a sua popularidade é muito elevada e porque é adorado no partido, mesmo quando bate nos seus dirigentes semana sim semana sim.

José Carlos Carvalho

Essa foi a sua mestria na arriscada gestão do tempo que decidiu fazer. Podia ter avançado no início ou a meio do ano, mas deixou-se para o fim. Manteve sempre a hipótese, sem dizer nada que o comprometesse. E assim comentou tudo e todos, incluindo ele próprio. E secou a sua área política, que há poucos meses contava com quatro potenciais candidatos. Ainda pode ser que surja alguma candidatura da sua área, mas o terreno está marcado e a máquina partidária está tomada. E mesmo que o incómodo de Pedro Passos Coelho seja absolutamente visível, isso dificilmente servirá para minar uma candidatura que parte para estrada com clara vantagem sobre as outras.

O exemplo mais claro do domínio da máquina do partido ficou bem visível no último congresso do PSD, reunido pouco tempo depois de Passos Coelho ter divulgado uma moção onde defendia que Portugal não podia ter no Palácio de Belém um “cata-vento político”, imagem que assentava em Marcelo como uma luva. Tanto assentava que o próprio enfiou a carapuça no seu comentário da TVI e sentiu ser o primeiro e último alvo dessa frase. Mas depois de enfiar a carapuça, fez o que só ele podia fazer: depois de dizer que não ia ao congresso, apareceu de surpresa, fez um discurso que deitou a plateia abaixo e saiu com o partido no bolso. E tudo isto perante o olhar estupefacto e conformado de Passos Coelho.

Luís Barra

Não há melhor exemplo para mostrar como Marcelo é o maior inimigo de si próprio. Tanto diz num dia que não vai, como afinal vai no outro dia; tanto perde a vontade de se candidatar, como resolver ir mostrar a Passos quem manda nas bases do partido. A sua liderança do PSD - o cargo com mais responsabilidade política que alguma vez ocupou - foi uma longa-metragem disso tudo. Conseguiu obrigar Guterres a fazer dois referendos e venceu-os, tanto na regionalização como no aborto. Mas depois enredou-se numa coligação com o CDS que o seu partido não queria e acabou por ter de se demitir quando a relação com o Portas estoirou numa entrevista que este deu a Margarida Marante.

Essa AD de 1999 morreu a poucos meses de umas eleições europeias, que já haviam de ser disputadas pela direção de Durão Barroso, numa lista liderada por Pacheco Pereira e Vasco Graça Moura. Marcelo foi, assim, um intervalo animado entre o pós-cavaquismo de Fernando Nogueira e a liderança de Durão Barroso - que havia de levar o partido novamente ao poder -, e pouco mais do que isso. Liderou de 1996 a 1999, num período muito difícil para o PSD, em pleno guterrismo. Esse foi, aliás, o seu grande problema, porque Guterres é a sua nemesis: o brilhantismo dos dois chocou de frente e o de Marcelo ficou claramente mais apagado.

Tiago Miranda

Marcelo sabia que só a vinda de Guterres o poderia travar. São amigos da juventude, frequentaram os mesmos grupos, tinham os dois o padre Vitor Melícias como confessor, disputavam as melhores notas nas respetivas faculdades e enveredaram por famílias políticas diferentes. Mas Marcelo sabe que Guterres tem sempre uma imagem de Estado superior à sua. Sem ele por perto pode avançar à vontade. O PSD e o CDS vão estar a seus pés e é bem possível que a sua simpatia entre com facilidade noutras áreas políticas.

Chegou mesmo a hora de Marcelo? Parece que sim. Mas atenção que estes quatro meses não são só um teste à sua popularidade. São também à sua consistência e solidez política, à capacidade de se manter firme e sem desvios de rota e de não cansar a audiência. Marcelo é mais rápido que a própria sombra e isso muitas vezes cansa quem lida com ele. E vai ter o passado de jurisconsulto a cair-lhe em cima. Faz parte das candidaturas políticas: quanto ganha, quem paga, quem são os amigos e, já agora, os inimigos? Quando a hora chega as perguntas apertam. Estes quatro meses têm tudo para ser um passeio, mas, para quem parte com expectativas tão altas, não será sempre a subir.

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