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“Na Madeira falta inaugurar as pessoas.” O perfil do antigo padre que o PCP quer ter em Belém

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Edgar Freitas Gomes Silva, 53 anos feitos a 25 de setembro, é o homem escolhido pelo PCP para entrar na corrida a Belém. Foi padre e alvo do ódio de Jardim, jogou no Nacional da Madeira. Em 1997, desvinculou-se do sacerdócio e inscreveu-se no partido

Marta Caires

Jornalista

Ana Baião

Edgar Silva era ainda o padre Edgar quando, no início dos anos 90, entrou para as notícias por causa da luta ao lado das crianças de rua do Funchal e Câmara de Lobos. O MAC (Movimento do Apostolado das Crianças) deu que falar e provocou incómodos na Diocese do Funchal e nos governos de Alberto João Jardim. É dele uma das frases que definem bem os 40 anos de jardinismo: "Na Madeira falta inaugurar as pessoas".

O agora candidato a presidente da República pelo PCP estava apenas no princípio de uma luta que o levaria até a CDU e à Assembleia Legislativa. No início da década de 90, as pessoas, as pessoas mais carenciadas, os mais pobres e esquecidos eram já a sua prioridade. Pela sua ação, as atenções iriam voltar-se para as condições em que viviam as crianças de Câmara de Lobos, zona piscatória da Madeira.

Muitas deixavam as casas dos pais para ir pedir nas ruas do Funchal e o apoio aos miúdos das caixinhas, como eram conhecidas, valeu ao então padre Edgar o ódio de Jardim, que nessa altura tentava dar da região a imagem de um paraíso sem pobres. As posições do jovem padre deixaram também o bispo do Funchal numa situação incómoda.

Em 1996, quando Edgar Silva aceita integrar as listas da CDU como independente, a Diocese ficou perante mais um padre vermelho, além de Martins Junior em Machico, que foi deputado da UDP e do PS, e Mário Tavares, que fora eleito pela CDU. Seria, no entanto, Edgar Silva a libertar a Diocese do embaraço. Em 1997, desvincula-se do sacerdócio e inscreve-se no PCP. Pouco tempo depois, era o coordenador na Madeira.

O PCP torna-se, então, o partido da zona quatro, as zonas altas e pobres da periferia do Funchal, onde faltavam os acessos e os transportes. A luta é contínua, nunca abranda. Nem perante Jardim que o trata como o “padre Edgar”, nem quando a CDU perde para os fenómenos do PND e do PTP de José Manuel Coelho. Edgar Silva está lá da mesma maneira nas lutas pelo beco e pelo autocarro.

Nas últimas regionais, Edgar Silva, natural do Funchal, antigo padre católico e formado em Teologia pela Universidade Católica, passou de um para dois deputados na Assembleia Legislativa e mantém a mesma dedicação de há 20 anos, de quando era o jovem padre revolucionário e partidário da Teologia da Libertação.

Tem 53 anos, vive com a sua companheira e é pai de um rapaz. Jogou no Nacional da Madeira e chegou a ser detido pela PSP numa das suas ações de defesa dos mais pobres, quando dormiu à porta do tribunal para apoiar uma família que tinha sido despejada.