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O PS virou à esquerda e foi contra um Bloco

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Alberto Frias

Nos últimos anos, o PS discutiu se o caminho para a vitória era pela esquerda ou pelo centro. Optou pela primeira solução e não ganhou nada com isso. O voto útil não funcionou e o partido que era teoricamente mais volátil teve um extraordinário resultado. O Bloco foi um muro e o PS perdeu o centro. Agora vamos ver por onde segue

Ricardo Costa

Ricardo Costa

Diretor de Informação da SIC

PS, Bloco e CDU impediram a maioria absoluta da coligação. Mas o resultado global é péssimo para a esquerda e dramático para PS, que pode entrar numa crise interna e numa discussão sobre o que correu mal, que se pode arrastar durante muito tempo, apesar do partido manter uma posição cherneira num Parlamento muito fragmentado.

Desde 2011, ou mais precisamente desde 2008, que o PS vacilou demasiadas vezes no seu posicionamento. Hesitou entre o discurso básico contra os mercados financeiros e uma política ativa mais próxima dos partidos sociais-democratas europeus. Nas eleições de 2009, a tática sobrepôs-se a tudo para derrotar Ferreira Leite e José Sócrates agarrou o investimento público como alfa e ómega da sua campanha. Conseguiu uma vitória de curto prazo, mas comprou bilhete para uma derrota humilhante quando rebentou a crise das dívidas públicas.

O resgate e as eleições de 2011 são um problema gravíssimo para o PS. Nos estudos pós-eleitorais conduzidos pelo ICS, um em cada dois eleitores do PS culpa o governo de José Sócrates pelo resgate. Mas na direção dos socialistas esse rácio não existe, tende, aliás, para zero.

Essa dificuldade em assumir algo sobre os erros de 2009 e 2011 é perfeitamente legítima do ponto de vista político. Mas provoca um divórcio com parte do eleitorado socialista e, sobretudo, com uma grande parte do eleitorado do centro que se aproximou do PSD nas eleições que deram a vitória a Passos Coelho e Paulo Portas.

Não é difícil avaliar que um dos principais problemas desta posição em relação ao resgate e a todo o processo que o antecedeu foi a gestão do caso grego. Uma parte da direção do PS olhou para a ascensão de Alexis Tsipras como uma espécie de vingança retroativa contra Bruxelas e Berlim e não teve frieza na avaliação do que se estava a passar.

Acreditou que Tsipras ia furar o muro da austeridade e, com isso, mostrar que Portugal só não tinha tido medidas mais suaves porque o nosso governo não tinha exigido nada. Fez esse discurso de forma demasiado clara, sem antecipar as imagens dos multibancos vazios e de pensionistas em filas intermináveis. Isso, somado ao referendo e ao ajoelhar de Tsipras, mostrou a todos os eleitorados que a zona Euro não permite aventuras.

Todo esse processo foi muito complexo para o PS que, mês após mês, nunca conseguiu descolar nas sondagens. Fez um programa ao centro, num esforço sério de olhar para a economia portuguesa. Mas o discurso insistiu pela esquerda, deixando o centro pronto a ser reconquistado por Passos Coelho. E foi isso que acabou por acontecer.

Enquanto isso, à esquerda, o PS teve pela frente um Bloco surpreendente, o grande vencedor da noite a seguir à coligação. Entre a cópia e o original, os eleitores preferiram o original. E o discurso de esquerda do Bloco, tal como o do PCP, é sempre mais genuíno. É inconsequente do ponto de vista governamental, mas mais genuíno.

O PS fica agora em contramão. Cortou as pontes com o atual governo, apostou tudo na derrota de Passos, mas ficou com os partidos à sua esquerda numa posição de força, com o Bloco incrivelmente reforçado. O dilema, agora, é saber por onde seguir. Largar o centro é prosseguir o caminho para o suicídio, como as eleições mostraram de forma muito clara. Um eventual governo à esquerda deixaria o PS refém do Bloco e PSD e CDS à espera de uma maioria absoluta mais que certa.