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PS e PSD estão “a matar a democracia em Portugal”

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Fotomontagem de imagens de Luís Barra e Rui Duarte Silva

Um livro do jornalista Vítor Matos traça um quadro desolador das artimanhas que os políticos dos dois principais partidos usam para conquistar o poder. Neste jogo, não há inocentes. Quem quer governar, tem que sacrificar algo pelo caminho. O livro "Os Predadores" é apresentado esta quinta-feira, em Lisboa

Arregimentação de votantes, falsificação de cadernos de recenseamento, intimidação física dos adversários, votações com cartões falsos, troca de votos por cargos, roubos de urnas e outras vigarices, truques e manipulações. As eleições internas nos dois grandes partidos que se têm alternado no poder não são para gente séria. Joga-se feio e só os mais duros resistem. Reina o caciquismo e a oligarquia. No final, não há democracia que resista, conclui Vítor Matos, autor de "Os Predadores", que é apresentado esta quinta-feira em Lisboa. Falámos com o jornalista de política da "Sábado" num intervalo da cobertura que está a fazer da campanha da PàF. "Há pessoas que se manifestam, que ficaram um bocado amofinadas com o livro, porque lhes prejudica a imagem, mas também há pessoas que estando citadas, por vezes não nos melhores termos, vieram felicitar-me pela factualidade, dizer-me que 'sim senhor, é assim que as coisas se passam'".

O jornalista Vítor Matos

O jornalista Vítor Matos

Luis Barra

A DEMOCRACIA INTERNA DOS PARTIDOS, ESSA MENTIRA
"Há zonas do país onde há secções, quer do PS, quer do PSD, em que os dirigentes tornam as suas estruturas totalmente inexpugnáveis para quem quiser disputar o poder. São pequenas ditaduras que existem a nível de freguesias, de concelhos, por vezes das distritais dos partidos. Os dirigentes não são escolhidos pelos militantes, os dirigentes escolhem os militantes que vão votar neles de certeza. Têm um saco de votos que lhes garante a vitória. É uma lógica de comércio e que está muito ligada à lógica dos empregos. As pessoas que têm os empregos reúnem os votantes: arranjam amigos, a família, são responsáveis por levá-los a votar e o seu desempenho perante o dirigente será premiado ou não. Um líder distrital de um partido, por exemplo, vai agarrar na sua pirâmide de poder e quando o partido chega ao poder vai tentar colocar as pessoas que lhe são próximas nos centros regionais de segurança social, nas direções regionais de educação ou saúde, nas administrações dos hospitais... Quando falamos de boys, isso não é isolado, não é só dar emprego às pessoas do partido. Tem muito mais a ver com um jogo de recompensas: dar um cargo ao que o apoiou e marginalizar aquele que esteve a desafiar a liderança. Daí a oligarquia e a pequena ditadura se cristalizarem e o poder se tornar inexpugnável para quem quiser tentar ganhar eleições. E isso mata a democracia em Portugal, porque não há democracia interna nos partidos."

O EMBUSTE DAS PRIMÁRIAS DO PS

Marcos Borga

"As primárias foram vendidas como um avanço democrático, uma abertura do partido à sociedade. Havia a ideia de que os congressos eram demasiado elitistas, que havia mil pessoas que iam decidir quem seria o próximo primeiro-ministro. Depois, passou-se a dar voz aos militantes e chegaram as diretas. Só que o que aconteceu foi que se deu voz a estes esquemas de caciquismo. E nas primárias isso replicou-se. Se nas diretas se multiplicou os defeitos dos congressos por 100, as primárias multiplicaram esses defeitos por mil. O que era necessário era angariar mais simpatizantes sem gastar dinheiro em quotas. Isso é feito por profissionais."

ANTÓNIO COSTA, DISCÍPULO DE MAQUIAVÉL
"É um pragmático. Se é preciso ganhar, usam-se os meios necessários para ganhar. E ele foi construindo o seu poder recorrendo ao que fosse necessário. Na Câmara de Lisboa, que é uma macroestrutura, fez explodir todos os interesses à volta da autarquia. Estamos a falar [da contratação] de ex-presidentes de junta, de presidentes de junta que não foram eleitos, de dirigentes das estruturas à volta de Lisboa, que ficaram desempregadas quando o partido perdeu câmaras, da rede de familiares de notáveis do partido. Tem lá a mulher do Marques Perestrello, que é o presidente da Federação da Área Urbana de Lisboa do PS, e está lá a mulher do próprio vereador Duarte Cordeiro. Se não é ele a fazê-lo, permite que os dirigentes mais próximos dele o façam."

PASSOS COELHO, ETERNO 'JOTINHA'

Rui Duarte Silva

"É um produto da 'jota', fez a carreira toda na JSD. A cultura de Passos, assim como a de Costa, é a cultura interna dos partidos. Quando ele sai da política, havia um estigma grande dos 'jotinhas' e ele tenta criar uma nova imagem, descolar da imagem do 'jotinha' e constrói essa imagem do político que deixou a política e foi para o privado. Mas, se formos ver, ele teve empregos em empresas sem qualquer relevância, primeiro empregos arranjados por amigos da 'jota', porque ele passou uma fase difícil da vida e foram os amigos da JSD que lhe deram a mão. São empresas que vivem de apoios do Estado, sobretudo de fundos comunitários, como a Tecnoforma. Mais tarde, surge a Fomentinvest, cujos acionistas são umas fundações e bancos e cujos os clientes são esmagadoramente do Estado. Ou seja, ele nunca saiu da bolha. Quando ele regressa, há um trabalho muito bem feito de construção de imagem, liderado pelo Miguel Relvas. É um líder construído da base, desde 2007, quando Menezes ainda está na liderança, até ganhar o partido em 2010."

MIGUEL RELVAS, O FRANKENSTEIN QUE CRIOU UM PRIMEIRO MINISTRO
"Passos Coelho deve a Relvas a liderança do partido. Relvas domina estes mecanismos, sabe como é que as coisas funcionam. É deputado desde os 24 anos, dentro da lógica das 'jotas'. É de uma geração de políticos que foram muito criticados por não terem cursos, não terem formação e terem grandes vidas, grandes carros, sem terem feito nada por isso na vida. São políticos profissionais, que sabem como é que estas estruturas funcionam, sabem como se recolhem os apoios, sabem a recompensa que cada dirigente ambiciona, e têm uma rede antiga das 'jotas'."

MARCO ANTÓNIO COSTA, O "BIG MAC" QUE NUNCA SERÁ Nº1
"Futuro líder do PSD? Não me parece. Suponho que ele tem consciência disso. Aliás, o próprio Relvas também sabe que nunca poderá ser número um. Já têm um passado que pode não augurar grande futuro se chegarem a um cargo muito exposto. Qualquer um deles, o MAC ou o Relvas, quanto mais subiram na hierarquia mais se tornaram agentes tóxicos para o líder que apoiaram, por causa das polémicas que vão surgindo e que têm a ver com este percurso que foram fazendo. O MAC, se quiser, será determinante na eleição do próximo líder do PSD. Será muito difícil ser líder do PSD contra o apoio dele. Pessoas como ele têm muitos inimigos dentro do partido. Será respeitado por aqueles que gostam dele e será temido pelos inimigos que não se declaram. Passos Coelho teve que ser convencido pelo Relvas a levá-lo para o governo."

CDS, O PARTIDO 'ONE MAN SHOW'

Tiago Miranda

"Começa a aproximar-se desta lógica do PSD e do PS, só que é um partido muito pequeno e tem pouco poder para distribuir. O que é interessante analisar no CDS é o modo como o Paulo Portas domina o partido. No CDS há um vértice, nos outros partidos há muitos vértices de pirâmides sobrepostas. O CDS é Paulo Portas. Ele criou as pessoas que hoje são importantes no partido, permitiu que elas crescessem, colocou-as em lugares importantes para irem ganhando experiência e credibilidade. Nos outros partidos fala-se de boys. No CDS fala-se de "quadros". É o Portas que os vai buscar e vai criando a sua própria oligarquia já com experiência política e de gestão pública. Emergem menos do aparelho."

PCP, ONDE A DEMOCRACIA É UMA UTOPIA
"É um partido completamente distinto. Seria muito interessante analisar como funciona nas câmaras, como funciona o poder autárquico, porque os do PCP continuam a ser revolucionários profissionais. É um partido de profissionais da política, onde abertamente não há democracia interna. Os outros partidos vendem-se como democráticos e não o são. O PCP à partida já sabemos que não é."

MARCELO REBELO DE SOUSA, O PEREGRINO DA 'CARNE ASSADA'
"É um caso engraçado, porque tem andado a fazer a 'rota da carne assada' pelo aparelho todo. Há anos que ele vai a todas as pequenas coisas para que o convidam e continua a fazer isso. Se avançar para a Presidência, é muito querido pelas bases do partido, não precisa de andar a fazer caciquismo, mas manteve boa relação com estas pessoas que são importantes."

RUI RIO, O RADICAL ANTI APARELHO

Rui Duarte Silva

"O Rui Rio era um radical anti aparelho e criou resistências enormes. A inimizade dele com o [Luís Filipe] Menezes não nasceu aí [em 1996, no processo de refiliação do PSD, quando Rio era secretário-geral do partido], mas foi aí que se potenciou. Menezes moveu uma guerra totalmente fratricida contra o Rio e só deixou de tentar desgastar a liderança do Marcelo [Rebelo de Sousa] quando este criou as condições para que o Rio se demitisse. Acho que ele não mudou, só que se ele quiser ser líder do PSD - e ainda não se sabe muito bem se quer a liderança do partido ou a presidência da República - não o conseguirá com o discurso anti aparelho. Ser líder do partido contra o aparelho é muito difícil a não ser que o aparelho cheire que será um líder transitório."

LUÍS FILIPE MENEZES E O HACKER QUE LHE DEU A LIDERANÇA DO PSD
"[Quando concorreu à liderança do PSD, em 2007] precisava de saber se os militantes dele tinham as quotas pagas ou não. Então um dos elementos da candidatura arranjou um hacker em Espanha que conseguiu quebrar o algoritmo que gerava os códigos de pagamento de quotas por multibanco. Se não tivesse conseguido pagar as quotas desses militantes [Menezes] teria tido dificuldade [em ganhar]. Sabe-se que, por cada mil militantes, pagar as quotas de um ano são 12 mil euros. Se forem dois anos, são 24 mil euros. O caso de Menezes é muito importante porque ele estava a lutar contra quem dominava a secretaria do partido. Conseguir lutar contra a elite de notáveis, a comunicação social, os jornalistas de política nunca pensaram... Eu próprio, nessa noite, fui para a sede de candidatura do Marques Mendes à espera de o ver ganhar. Quando cheguei lá percebi que ele ia perder. Ficámos todos baralhados."

AS JUVENTUDES PARTIDÁRIAS, ESSES VIVEIROS DO CACIQUISMO
"É nas jotas que as coisas começam a ser feitas. Funcionam desde cedo nessas lógicas, da contagem de votos, dos apoios por cargos. E, sobretudo, são usadas pelos políticos seniores como sacos de votos das suas estruturas mediante depois a distribuição de cargos. Os que querem fazer carreira começam aí. O que não quer dizer que não haja gente boa, e bem intencionada. Mas se querem continuar têm que se entregar ao sistema."