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A bomba de Cunhal

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Sergio Granadeiro

Em 1991, Cunhal fez a sua última campanha eleitoral como secretário-geral do PCP. Nesse dias, o líder comunista nunca largou a sua pochette nem revelou o que levava lá dentro. A duas semanas das legislativas, revisitamos as nossas memórias políticas. Este é o 16º capítulo

Henrique Monteiro

Henrique Monteiro

Redator Principal

As eleições legislativas de 1991, que acabariam por dar a segunda maioria absoluta a Cavaco Silva, ficaram na história não só por esse feito, como por ter sido a última campanha do PCP com Álvaro Cunhal no posto de secretário-geral. No ano seguinte, suceder-lhe-ia Carlos Carvalhas que ocupou o posto até 2004, data em que passou a pasta ao atual líder, Jerónimo de Sousa.

A mesma campanha teve ainda outra curiosidade. Foram as únicas que um partido (o PSD) ganhou em todos os círculos à exceção do bastião comunista de Beja, ganho pelo PCP.

Muitos jornalistas passaram alguns dias, ou todos os dias da campanha, atrás do já mítico líder comunista, então com 78 anos. Recordo que um deles, que fazia apontamentos salvo erro para o ‘Independente’, o principal concorrente que o Expresso jamais teve, era Vasco Pulido Valente.

Durante essa campanha, Cunhal prometeu que num determinado dia almoçaria na mesa dos jornalistas. Mas, por um motivo da sua agenda (ter de almoçar na mesa de uma série de autarcas da zona), desmarcou a combinação. Alguns jornalistas presentes (não era o caso de Vasco Pulido Valente), ficaram zangados com a mudança de planos e fizeram uma espécie de “levantamento de rancho”,não ficando para almoçar com a comitiva. Confesso que furei a “greve”, argumentando que o meu dever, como jornalista, era reportar o que se passava e não ficar ofendido com a agenda de Cunhal.

Almocei, assim, praticamente sozinho numa mesa grande destinada à Imprensa. O histórico líder do PCP, vendo a situação, juntou-se a mim, perguntando o que acontecera aos meus colegas. Respondi-lhe que estavam de greve e que eu era o único dos fura-greves. Ele riu-se e disse qualquer coisa sobre greves justas e injustas. E eu aproveitei aquela intimidade para lhe perguntar o que levava numa bolsa que nunca largava. Ele recusou responder, acusando-me de excesso de curiosidade.

A “pochette” de Cunhal tornou-se numa espécie de piada privada entre os dois. Sempre que passava por ele perguntava-lhe se me diria o conteúdo. Durante boa parte da campanha interroguei-o sobre o que trazia na bolsa. Mas ele recusou, sempre, responder, embora de forma amável.

- Você quer publicar algo de “escandaloso” ou “reacionário” no Expresso – dizia entre sorrisos.

Mas eu sou verdadeiramente persistente e nunca o largava. Até que um dia em que voltei estar mais ou menos a sós com ele (vantagens, da época, em se trabalhar num semanário), voltei à carga com a pergunta preferida:

- O que leva aí, dr. Cunhal? Ele respondeu que me daria uma prova de confiança se eu jurasse não revelar a ninguém.

Jurei e cumpri até sete anos depois da sua morte (revelei esta história em 2012 num número da revista dedicado a 100 personalidades do séc. XX).

Então respondeu, pondo um ar severo: - Levo uma bomba!

Fiquei sem saber o que dizer, até que ele, já com um sorriso desconcertante, me mostrou...a bomba de asma ou de bronquite que transportava, eventualmente para o caso de ter uma crise.

  • Os nossos tesourinhos das campanhas

    Beijos em anões, mergulhos no Tejo, gafes, debates épicos, bolos-reis comidos à pressa, mais gafes, frases memoráveis, momentos embaraçosos e outros gloriosos. E, claro, muita política. Varremos tudo de forma pouco científica e puxámos pela memória de 40 anos de democracia. Durante o mês que antecedeu as legislativas, revisitámos diariamente as campanhas de outrora. Juntamos o resultado num único artigo

  • Quando Cavaco Silva fez a cara mais estranha da nossa política

    Cavaco Silva corria para Belém pela segunda vez. Dez anos antes tinha perdido a eleição para Jorge Sampaio. A campanha acabou por ser um passeio para o antigo primeiro-ministro. Mas teve percalços. Santana Lopes, a quem Cavaco tinha ajudado a correr de S. Bento com o artigo no Expresso sobre “a má moeda”, diria na SIC Notícias que se o professor fosse eleito, era de esperar “sarilhos institucionais” com Sócrates, então primeiro-ministro. A duas semanas das legislativas, revisitamos as nossas memórias políticas. Este é o 15º capítulo

  • O golo de Vilarinho que lesionou Durão Barroso

    José Luís Arnaut levou o futebol para a campanha de Durão Barroso à boleia do Euro. E o Benfica tremeu. Vilarinho estampou-se em direto. A dívida fiscal do Benfica esteve em cima da mesa. E o Zé Manel chegou a primeiro-ministro. A menos de um mês das legislativas, revisitamos as nossas memórias políticas. Este é o 12º capítulo

  • No tempo em que os comícios de Sócrates tinham sabor a caril

    Não é novidade que em campanha eleitoral os partidos tentem sempre encher a sala. Mas o PS de Sócrates exagerou. Em Évora, na corrida de 2011, os turbantes que compunham a plateia deram nas vistas. A menos de um mês das legislativas, revisitamos as nossas memórias políticas. Este é o 11º capítulo

  • Quando Soares chocou com uma “alfaiataria” das novas

    Mário Soares, candidato presidencial em 2006. O povo na rua já não vibra com o bochechas e o animal político sente na pele que a idade conta. Em Viseu, foi uma loja a trai-lo. A menos de um mês das legislativas, revisitamos as nossas memórias políticas. Este é o nono capítulo

  • Quando a lota matou o candidato

    Nove de junho de 2004: a três dias do início do Euro de futebol e a quatro das eleições europeias, a trágica morte em plena campanha de Sousa Franco, cabeça de lista do PS, chocou o país. A menos de um mês das legislativas, revisitamos as nossas memórias políticas. Este é o oitavo capítulo

  • Quando Soares confundiu o CDS com o PP e Ribeiro e Castro com o PS

    A última campanha presidencial de Mário Soares foi uma prova para o candidato, mas também para os jornalistas. Houve momentos de grande confusão e este foi seguramente o mais confuso de todos. A menos de um mês das legislativas, revisitamos as nossas memórias políticas. Este é o sétimo capítulo

  • Quando Sampaio defendeu a honra de Cavaco e calou um apoiante

    Jorge Sampaio nunca foi o político habitual, muito menos em campanha no terreno. Às vezes desconcertava os seus próprios apoiantes, como na vez em que deu um raspanete público a um apoiante que resolveu chamar “ladrão” a Cavaco Silva, seu opositor nessas presidenciais. A menos de um mês das legislativas, revisitamos as nossas memórias políticas. Este é o sexto capítulo

  • Como Guterres mudou os debates para sempre e as arrobas chegaram ao estrelato

    António Guterres é provavelmente o político mais dotado em televisão que vimos em muitos anos. Ao pé dele, mesmo Paulo Portas ou Francisco Louçã eram “apenas” bons. Guterres tinha tanta confiança nos debates parlamentares e televisivos que mudou as suas regras para sempre. A menos de um mês das legislativas, revisitamos as nossas memórias políticas. Este é o quinto capítulo

  • O PIB de Guterres contado na primeira pessoa

    A política portuguesa está cheia de gaffes, mas esta é a mais célebre de todas. Tão célebre que, na verdade, nem sequer é uma gaffe e ficou assim cunhada para a história. A menos de um mês das legislativas, revisitamos as nossas memórias políticas. Este é o quarto capítulo, contado por Ricardo Costa - que fez a famosa pergunta a Guterres

  • O carnaval de Santana

    Uma campanha que parou ao segundo dia e uma inesperada visita a São Bento, com Santana a oferecer chás e cafés. A menos de um mês das legislativas, revisitamos as nossas memórias políticas. Este é o terceiro capítulo

  • E Soares beijou o anão…

    Depois de o Expresso ter publicado em três etapas a retrospetiva dos melhores debates televisivos em Portugal, agora prossegue com uma nova série: histórias de campanha. A um mês das legislativas, revisitamos as nossas memórias políticas. Este é o segundo capítulo

  • “Consigo ainda dava uma cambalhota!”

    Depois de o Expresso ter publicado em três etapas a retrospetiva dos melhores debates televisivos em Portugal, agora arranca com uma nova série: histórias de campanha. A um mês das legislativas, revisitamos as nossas memórias políticas

  • Viagem aos melhores debates televisivos em Portugal (etapa 1)

    Soares vs Cunhal, cigarros e mais cigarros, Soares contra Zenha, Freitas e Soares numa eleição épica e, claro, o célebre dia em que Marcelo, o rei da comunicação, perdeu o pio frente a Sampaio e lhe entregou a Câmara de Lisboa numa bandeja. Os nossos debates televisivos têm muito que contar. Por isso, puxámos da nossa memória seletiva e contamos tudo. Primeira etapa de uma viagem que continua nos próximos dias

  • Viagem aos melhores debates televisivos em Portugal (etapa 2)

    Nesta etapa há de tudo: do violento Basílio vs. Soares de 1991 ao debate que Jerónimo venceu por estar... afónico. Pelo meio, temos o importante Guterres/Nogueira, a vez em que o primeiro-ministro Guterres quis fazer debates sucessivos contra todos e o único confronto entre os irmãos Paulo e Miguel Portas. Quase no fim, a inequecível noite em que Santana e Sócrates se enfrentaram. Segunda etapa de uma viagem que terá ainda um terceiro e último capítulo

  • Viagem aos melhores debates televisivos em Portugal (etapa 3)

    Lembra-se de quando Carrilho deixou Carmona de mão estendida? E da noite em que Soares e Alegre se enfrentaram num estúdio televisivo? Neste artigo lembramos esses debates, mais o Cavaco/Alegre e dois dos melhores dos últimos anos: Sócrates contra Louçã em 2009 e o Passos vs. Sócrates em 2011. Terceira e última etapa da nossa viagem aos melhores debates televisvos em Portugal