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Quando Cavaco Silva fez a cara mais estranha da nossa política

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Cavaco Silva corria para Belém pela segunda vez. Dez anos antes tinha perdido a eleição para Jorge Sampaio. A campanha acabou por ser um passeio para o antigo primeiro-ministro. Mas teve percalços. Santana Lopes, a quem Cavaco tinha ajudado a correr de S. Bento com o artigo no Expresso sobre “a má moeda”, diria na SIC Notícias que se o professor fosse eleito, era de esperar “sarilhos institucionais” com Sócrates, então primeiro-ministro. A duas semanas das legislativas, revisitamos as nossas memórias políticas. Este é o 15º capítulo

Pedro Cruz

Pedro Cruz

jornalista da SIC

jornalista da SIC

A manhã de campanha arrancou com a bomba que Santana Lopes tinha largado na SIC Notícias, um dia antes. Se Cavaco Silva ganhasse, era de esperar “sarilhos institucionais” entre o futuro Presidente e o primeiro-ministro (Sócrates), já que, dizia Santana, Cavaco ia querer meter-ne na governação. A ironia do antecessor de Sócrates ia mais longe... Santana até punha a hipótese de, ganhando Cavaco, este querer ir presidir ao conselho de ministros à quinta-feira.

Mal Cavaco saiu do carro, na Covilhã, o sorriso amarelo não enganava ninguém. Tinha o incómodo estampado no rosto e, mais tarde ou mais cedo, havia de ser confrontado com o fel do seu antigo Secretário de Estado. Era só esperar. E ter paciência.

Depois de beijos e abraços na rua, o professor seguiu para a Universidade da Beira Interior. Falou das origens humildes e de como nunca lhe tinha passado pela cabeça, quando era estudante, um dia “chegar” onde chegou.

A saída do edifício foi mal calculada pela entourage de Cavaco. A porta que dava para a rua era estreia, muito estreita. Os jornalistas barraram-lhe o caminho. Literalmente. Cavaco ainda não era Presidente e a segurança ainda não era o que depois veio a ser.

Não tinha como escapar. Parou.

Respondeu à primeira pergunta - a primeira, normalmente, é sempre de circunstância - e depois:

- Incomoda-o que haja uma voz do seu próprio partido a alertar para eventuais “sarilhos institucionais” que o sr. dr. possa provocar se for eleito?

- Não... não tenho conhecimento de nada... não sei o que se passa...

- Santana Lopes...

(Cavaco, que desde manhã bem cedo já tinha sido alertado para as declarações de Santana, tentou passar a ideia de que não sabia de nada, de que estava a ouvir falar do assunto pela primeira vez. E é aí que acontecem os quatro segundos mais longos daquele dia, daquela campanha e da memória futura.

Começa por arquear as sobrancelhas, abre muito os olhos e, ato contínuo, abre a boca de espanto como-quem-diz-que-está-surpreso. Acaba por ficar de boca aberta, parecia um peixe dentro do aquário, a abrir e fechar a boca de espanto.

Só que o espanto, como era ensaiado, soou a falso. E a careta de Cavaco ficou. Quatro segundos. E seguiu...)

- ... não sabia...

- Diz que o sr. pode provocar “sarilhos institucionais” se for eleito...

- Não vou fazer comentários.

E não fez.

Nesse dia, acabei por não conseguir ultrapassar Cavaco e fiquei atrás dele. Ou seja, conseguia ouvir o que dizia o candidato, mas não o conseguia ver.

Só mais tarde, ao olhar para as imagens, tive a noção do momento caricato. Foi o dia em que Cavaco Silva quis ser ator.

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